A crescente preocupação com as casas de apostas parece agora estar refletida em números. Quase três em cada 10 dos brasileiros apostam em bets, mostrou a 9ª edição do ‘Raio X do Investidor Brasileiro 2026’ da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha.
Esse número é um crescimento em relação aos outros anos: 14% em 2023, 15% em 2024 e 17% em 2025. Entre quem aposta, a geração Z, entre 16 e 29 anos, se destoa (27%), enquanto os millenials, entre 30 e 44 anos, aparecem na sequência (22%), seguidos pela geração X (10%), entre 45 e 64 anos, e boomers (4%), com 65 anos ou mais.
Apesar disso, prevalece quem aposta raramente. Todos os dias é somente 1% dos respondentes. Já na outra ponta, quem nunca apostou, se destaca os boomers, em que sete em cada 10 nunca apostaram, depois a geração X (66%), millenials (55%) e geração Z (50%).
Bets podem ser proibidas no Brasil?
Um novo projeto de lei contra jogos de azar, as famosas bets, foi protocolado na Câmara dos Deputados nesta semana.
Ao contrário de outras propostas do gênero, que regulamentam a prática ou vedam a propaganda, o PL 1808/2026, assinado pelo deputado Pedro Uczai, líder do PT na Câmara, proíbe definitivamente a oferta de apostas de quota fixa em todo o território nacional.
O projeto vem de encontro a falas recentes do presidente Lula sobre a proibição da prática. Em conferência realizada no começo de abril, Lula declarou: “Se depender de mim, a gente fecha as bets”.
Ao lado de Uczai, 67 deputados assinaram o PL. Parlamentares da Rede e do PSOL também compõem a lista.
Além da proibição, o texto estabelece medidas de responsabilização de intermediários na propagação das bets, e defende a promoção de conteúdos de interesse público sobre saúde e os riscos do vício.
Outro projeto que mira as bets também tem avançado no Congresso. Foi aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, no início de fevereiro, o PL 3.563/2024, que propõe vedar a publicidade, o patrocínio e a promoção de apostas esportivas e jogos online.
Problema de saúde pública
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o vício em apostas, a ludopatia, como um problema de saúde pública global.
O projeto aborda a perspectiva sanitária, e cita dados do SUS sobre o crescimento de casos de dependência associados ao aumento de apostas, com potencial de sobrecarregar o sistema e agravar situações de vulnerabilidade social.
Outro ponto levantado pela proposta são os sintomas financeiros do vício. O diagnóstico é do Banco Central: as apostas esportivas deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a ter impacto direto sobre a renda das famílias brasileiras, especialmente entre os mais vulneráveis.
Segundo o texto, as plataformas funcionam como um mecanismo de “captura de renda”, deslocando recursos do consumo básico e pressionando a economia popular.
O autor também citou um estudo do Ibevar e da FIA Business School, divulgado em março de 2026. A pesquisa concluiu que o vício em bets ultrapassou as taxas de juros e se consolidou como a principal causa de endividamento dos brasileiros
Somente um terço tem reserva financeira
As bets são a ponta do iceberg – os números da perspectiva financeira do brasileiro como um todo ainda são desanimadores. O relatório mostra que um terço da população ainda não tem reserva financeira.
Dos que têm dinheiro guardado, 10% possui reserva para menos de uma semana, sendo o mesmo número que conseguem cobrir até um mês. Esse montante sobe para 12% de quem têm entre um e dois meses, e também de quem têm entre três a cinco meses.
O valor é melhor para quem têm entre seis meses e um ano (15%), mas cai drasticamente para quem possui reserva para um a dois anos (6%), e é menor ainda para cinco anos ou mais (3%). Especialistas consultados pela EXAME dizem que, o ideal, é que o investidor tenha reserva para cobrir pelo menos seis meses do nível de renda atual.
Os maiores afetados? As classes mais baixas: quase metade da população das classes D e E não tem reserva financeira – mas as classes A e B ainda entram no combo. Entre as gerações, a X, entre 45 e 64 anos, é a que menos tem reserva financeira (37%), enquanto os millenials, entre 30 e 44 anos, figuram em segundo (28%) e os boomers, com 65 ou mais, e a geração Z, entre 16 e 29 anos, aparecem como terceiro lugar (17%)
E quem investe?
O Brasil terminou o ano passado com 60,6 milhões de investidores, o que representa 36% da população (em 2024, esse percentual era de 37%). Já os que não investem, 63% da população, chegam a 107,7 milhões
Do número de investidores, em 2026, 46,1 milhões devem continuar investindo, enquanto 23,2 milhões serão novos entrantes e 14,5 milhões deixarão de investir – resultando em 8,7 milhões de novos investidore.
Mas as expectativas versus a realidade deixam a desejar. A expectativa de crescimento do percentual de investidores era: +3% (2022), +5% (2023), +4% (2024), +2% (2025) e 6% (2026). Já a realidade foi 5% (2022), 1% (2023), 0% (2024), -1% (2025) e ainda sem projeção para 2026.
Quando observado os produtos financeiros, o conhecimento sobre eles, a utilização e se pretende continuar utilizando, um dado chama a atenção: criptomoedas aparecem na frente de imóveis, títulos públicos e até previdência privada. Em 2025, 8% responderam que tinham conhecimento sobre eles, e 13% começariam ou continuariam a investir – sendo o segundo lugar de produtos que mais chamaram a atenção do investidor.
Investidores mantêm poupança na liderança, mas participação recua
A poupança segue como o principal produto de investimento do brasileiro, citada por dois em cada dez investidores. Ainda assim, sua participação vem perdendo força de forma gradual: 23% em 2021, 26% em 2022, 25% em 2023, 23% em 2024 e 22% em 2025.
Mesmo com a perda de fôlego, a caderneta continua sendo o principal destino entre os investidores, apesar de render abaixo do CDI. Entre as gerações, o movimento é desigual: os boomers ampliaram em 5 pontos percentuais a exposição à poupança, enquanto a geração Z reduziu em 9 pontos.
Na sequência, o crédito privado aparece como o segundo produto mais buscado pelo varejo, com 7% dos investidores alocados nessa classe, após um ano de forte demanda em 2025. Os fundos de investimento vêm em seguida, com 5% de participação.
E o aumento entre as gerações nesses produtos é inversa: enquanto os boomers aumentaram a exposição na poupança – e a geração Z reduziu – em todos os outros ativos (títulos privados, fundos, moedas digitais e cripto, ações, títulos públicos e previdência privada) os boomers reduziram exposição, enquanto a geração Z aumentou.
Isso mostra que, entre as classes mais altas, há uma migração para produtos mais sofisticados. Segundo a Anbima, as classes A e B registraram a maior redução na participação na poupança, que caiu de 34% em 2021 para 28% em 2025.
*Colaborou Letícia Cassiano












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