A corrida por armas no mundo se intensificou. O relatório mais recente elaborado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) aponta que, em 2025, os gastos militares globais atingiram a marca de US$ 2,887 trilhões. Foi o 11º ano consecutivo de crescimento e o maior nível de gastos já registrado pelo SIPRI, representando 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial no ano passado.
Até 2030, a Global X ETFs, gestora de ativos alternativos, projeta que esse número salte para US$ 3,5 trilhões. Isso porque mesmo países que não estão envolvidos nos conflitos estão fortalecendo sua força bélica. E tudo coloca o setor de defesa no radar dos investidores.
Para quem gosta de renda variável, muitas dessas empresas têm capital aberto — e estão reunidas num índice. Mas para quem não quer investir individualmente em cada uma, há um ETF (Exchange Traded Fund) que replica o Global X Defense Tech Index, composto pelas maiores empresas globais com pelo menos 50% da receita proveniente de tecnologia de defesa.
Agora, a possibilidade de investir nesse ETF chegou no Brasil. A Global X ETFs lança, nesta quarta-feira, 27, o SHLD39, Brazilian Depositary Receipt (BDR) que permite aos agentes do mercado investirem nessas empresas de defesa. Com liquidez diária, taxa de administração de 0,5% e investimento entre R$ 30 a R$ 50, o equivalente a uma cota, ele chega à B3 para abrir o leque de investimentos alternativos.
O portfólio atual do Global X Defese Tech Index é composto por 49 empresas e exposição geográfica liderada pelos Estados Unidos (58%), seguido por Alemanha, Coreia do Sul, Reino Unido, França e Suécia. Desde setembro de 2023, quando foi lançado, para cá, o índice valorizou cerca de 160%, frente a pouco mais de 68% do S&P.
Países dobram meta de investimento
Mesmo antes da Guerra entre Ucrânia e Rússia nos últimos anos e do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos em 2026, as empresas de armamento já chamavam a atenção do mercado. Não só de tanques, navios e mísseis, mas também as de software, inteligência artificial, drones, radares e sensores também entram no jogo.
Para Flávio Vegas, especialista de produtos da Global X, o gatilho mais recente foi quando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, cortou o orçamento armamentista para Europa. “Isso fez com que os países da Europa começassem a correr atrás de próprio investimento dado que eles não iam ter mais essa ajuda dos Estados Unidos”, disse.
Os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), composto por 32 países, vêm também projetando maiores gastos militares. As nações vinham com uma meta de investimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa e tecnologia e, no ano passado, aumentaram essa meta pra 5%. “Os próprios membros da Otan dobraram a meta de investimento”, afirmou Vegas.
Mas, claro, com as Guerras atuais, conforme os países vão gastando seu estoque, há a necessidade de reabastecer o arsenal.
“O setor de defesa vai muito mais do que só o poderio: demonstra a força de um país ou de uma região. Então é importante, mesmo não participando de conflitos, você ter um setor de defesa bastante desenvolvido para não ficar dependente de outros países para se armar.”
Dos 32 países da que se comprometeram, 18 já cumpriram a meta de investimento em relação à defesa. Há uns anos atrás, esse número era menos de 12. Entre os destaques estão Polônia, Estados Unidos, Estônia, Letônia, Grécia, Lituânia, Dinamarca, Finlândia, Romênia, Reino Unido, Hungria.
“Nosso principal concorrente é o ETF ITA, mas ele foca só nas empresas Estados Unidos, então a gente tem conseguido uma performance um pouco melhor justamente por focar em Europa que estão aumentando os gastos no setor de defesa”, comentou Vegas.
No ano, ações caem
No acumulado do ano, as empresas com peso no índice — Lockheed Martin (8,49%), RTX (7,52%), Palantir (6,63%), General Dynamics (6,83%) e Rheinmetall (6,12%) — tiveram um pico durante o início da Guerra no Irã, mas passaram a cair, retomando o patamar pré-conflito, ou até ficando abaixo dele. Vegas atribui a queda a fatores macroeconômicos.
Em sua análise, a extensão do conflito que pressiona os preços do petróleo e, consequentemente, a inflação, pode refletir nas taxas de juros nos Estados Unidos. Para Vegas, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve seguir cauteloso, mantendo os fed funds nos níveis atuais ou até realizando novas altas.
É no macro que estão os principais riscos associados ao investimento em BDRs de ETFs. O especialista explica que empresas podem ser afetadas por mudanças regulatórias nos locais onde estão sediadas e por decisões de governos de abandonar investimentos em defesa.
E o Brasil?
Apesar de não ter empresas participantes do Global X Defende Tech Index, o Brasil não fica para trás no setor de defesa. Enquanto a média global aumentou seus gastos em 3% no segmento em 2025, o Brasil registrou um aumento de 13% no mesmo período. Foi a nação que mais investiu na América no Sul.
Três países europeus estão entre os cinco principais destinos das compras de equipamentos militares brasileiros no último ano: Alemanha, Bulgária e Portugal. Completam a lista Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos.
No ano passado, a indústria de defesa do Brasil registrou o maior volume de exportações de sua história. As autorizações para vendas externas de produtos e serviços do setor somaram US$ 3,1 bilhões, segundo dados do Ministério da Defesa. O montante representa alta de 74% em comparação com 2024, quando o total foi de US$ 1,78 bilhão, e mais que o dobro do registrado em 2023, de US$ 1,45 bilhão. No acumulado de dois anos, o avanço chega a aproximadamente 114%.
Atualmente, a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira reúne empresas públicas e privadas ligadas ao Ministério da Defesa responsáveis pelo desenvolvimento, produção e manutenção de itens estratégicos militares. O setor conta com cerca de 80 companhias exportadoras e mantém relações comerciais com 140 países em todos os continentes. Segundo o governo, a indústria responde por cerca de 3,5% do PIB.
Num de seus últimos movimentos, dois destaques chamam a atenção. Um deles foi a entrada de aportes milionários de diferentes investidores na Avibras, companhia brasileira referência nos setores de defesa e aeroespacial, conhecida pela produção de foguetes e sistemas de mísseis. Esses aportes incluem um investimento de R$ 300 milhões do bilionário Joesley Batista, do grupo JBS.
Criada em 1961, a empresa enfrentava um processo de recuperação judicial desde 2022. Após atravessar uma grave crise financeira — marcada por uma greve que durou 1.281 dias — a fabricante retomou, no mês passado, as operações de sua unidade em São José dos Campos (SP), agora sob o nome de Avibras Aeroco.
Outro movimento foi em março deste ano. A Embraer, a Saab, empresa sueca de defesa, aeroespacial e segurança, e a Força Aérea Brasileira (FAB) apresentaram oficialmente o primeiro caça supersônico produzido no Brasil, o F-39E Gripen. O marco coloca o país em um seleto grupo de nações com capacidade de desenvolver e fabricar aeronaves de combate de alta complexidade — um feito inédito na América Latina.
O avanço das tensões geopolíticas e o aumento dos orçamentos militares ao redor do mundo também vêm impulsionando a demanda pelo cargueiro militar C-390 Millennium, da Embraer. A aeronave se consolidou nos últimos anos como uma das principais apostas da indústria brasileira de defesa no mercado internacional, acumulando novos pedidos e ampliando sua presença em forças aéreas estrangeiras.












Leave a Reply