Quando o Mounjaro chegou às farmácias brasileiras, em maio de 2025, a Eli Lilly esperava lançar um medicamento promissor em um mercado onde Ozempic e Wegovy, da líder global em saúde, Novo Nordisk, já haviam criado uma nova categoria de consumo. O que aconteceu depois, porém, superou as expectativas: Em poucos meses, a tirzepatida, o princípio ativo original desenvolvido e patenteado pela farmacêutica americana, não apenas entrou na disputa, como mudou o tamanho dela.
Em seu primeiro ano de operação no Brasil, as canetas emagrecedoras da Eli Lilly movimentaram R$ 13,54 bilhões em vendas, segundo dados exclusivos divulgados à EXAME. O desempenho colocou o medicamento na liderança da categoria de agonistas de GLP-1 desde o lançamento e levou a dona do Mounjaro a revisar suas projeções para o país.
Um impacto que surpreendeu até mesmo a própria companhia. “A procura em maio de 2025 foi muito além das expectativas que tínhamos. Por isso, aumentamos nossas projeções para o Brasil”, afirma Felipe Berigo, diretor-executivo da unidade de Cardiometabolismo da Eli Lilly e que está à frente da operação brasileira desde o início.
A velocidade da demanda criou um problema que, para a indústria farmacêutica, de vender mais do que era possível entregar. Nos primeiros meses após a chegada do medicamento, algumas apresentações tiveram disponibilidade intermitente, enquanto a empresa reorganizava sua cadeia de produção para atender ao mercado brasileiro.
“Esse volume de demanda trouxe um desafio real. Em poucos meses, garantimos volumes adicionais para o Brasil e reorganizamos o abastecimento, trabalhando com nossas fábricas operando 24 horas por dia, sete dias por semana”.
Hoje, segundo a empresa, todas as apresentações do medicamento, de 2,5 mg a 15 mg, estão disponíveis no país. O resultado dessa corrida colocou o Brasil em uma posição estratégica dentro da Lilly. A operação brasileira, que por anos esteve distante dos maiores mercados da companhia, agora já integra o grupo das dez maiores afiliadas globais.
“A afiliada brasileira já faz parte do top 10 global da Lilly, com expectativa de entrarmos no top 5 mundial nos próximos anos”, disse Berigo.
O movimento ajuda a explicar por que a farmacêutica revisou suas expectativas para o país. A previsão é que a receita da operação brasileira mais que dobre em 2026 na comparação com 2025. No ano passado, o faturamento já havia mais que triplicado frente a 2024.
Os números da operação doméstica não são abertos. A nível mundial, contudo, a Eli Lilly reportou no balanço de 4° trimestre uma receita de US$ 19,3 bilhões no quarto trimestre, representando um aumento de 43% em comparação com o mesmo período de 2024. Num movimento que seguiu no 1° trimestre deste ano, quando a receita aumentou 56% para US$ 19,8 bilhões, também por conta da crescente demanda por suas “canetinhas”.
Os resultados agradaram os investidores e, em novembro do ano passado, a companhia ainda se tornou a primeira empresa do setor de saúde a ultrapassar o valor de mercado de US$ 1 trilhão, entrando em um clube seleto de companhias dominado pelas big techs. Com isso, o valor das ações quintuplicou em cinco anos.
Mas o fenômeno Mounjaro não é apenas uma história de vendas. Ele é também uma fotografia da transformação do mercado brasileiro de obesidade e diabetes, onde as “canetinhas” estão presentes em 4,6% dos lares, segundo a Nielsen, e que movimentou R$ 10 bilhões, no ano passado, e pode chegar a R$ 50 bilhões até o fim da década.
Segundo Berigo, os produtos lançados recentemente já respondem por mais de 90% da receita da subsidiária brasileira, impulsionados principalmente pelo Mounjaro, que, segundo a empresa, já impactou quase 3 milhões de pacientes no país.
O desempenho da tirzepatida também reforça uma mudança importante dentro do mercado brasileiro de GLP-1. Se nos últimos anos a expansão da categoria foi puxada pela semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, agora a liderança passou para uma nova geração de medicamentos.

Felipe Berigo: “A companhia estima que o Mounjaro já tenha impactado quase 3 milhões de pacientes brasileiros” (Eli Lilly/Arte Exame/Divulgação)
“O primeiro ano de Mounjaro no Brasil já deu uma boa pista sobre o tamanho dessa oportunidade. Mesmo com outras opções de tratamento da classe GLP-1 disponíveis há anos no país, a resposta do mercado foi ainda mais expressiva do que se esperava, sinal de que a necessidade médica não atendida era ainda maior do que se imaginava”, afirma o diretor-executivo da unidade de Cardiometabolismo da Eli Lilly.
Essa liderança, no entanto, tende a conviver com um ambiente competitivo mais complexo. Em março, a patente da semaglutida expirou no Brasil, abrindo espaço para a entrada de genéricos e similares. Desde então, ao menos sete novos medicamentos injetáveis à base de semaglutida foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Cinco deles, apenas nesta quarta-feira, 29.
Para Luiz Guanais, analista de varejo e consumo do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), a Lilly ainda mantém vantagem tecnológica, mas essa posição começa a ser pressionada.
“A tirzepatida é mais efetiva que a semaglutida. Nesse sentido, ela ainda tem um posicionamento confortável. Mas a empresa já precisa reduzir preços porque há medicamentos menos efetivos, porém muito mais baratos. Além disso, existe um mercado informal relevante, formado por produtos manipulados e medicamentos trazidos ilegalmente do exterior.”
O BTG estima que a entrada de genéricos e similares da semaglutida pode acrescentar R$ 3,6 bilhões ao mercado brasileiro ainda em 2026, elevando o setor para R$ 15,6 bilhões.
Mercado pararelo ‘preocupa mais do que dispita de mercado’
Ao mesmo tempo em que o mercado formal cresce, avança também um circuito paralelo que preocupa indústria e autoridades sanitárias.
Na Operação Heavy Pen, realizada pela Anvisa e pela Polícia Federal, em abril, considerada a principal ação contra a falsificação e o comércio ilegal de canetas emagrecedoras, foram apreendidos 3,5 quilos de tirzepatida em farmácias de manipulação de 12 estados — quantidade suficiente para produzir mais de 1 milhão de canetas injetáveis.
A investigação também identificou substâncias experimentais sem registro regulatório, como a retatrutida e um glucagon ainda em fase de estudos clínicos. Para Berigo, ampliar o acesso passa por fortalecer o mercado regular, e não por uma guerra de preços.
“Temos conhecimento de amostras com contaminação, impurezas e até substâncias completamente diferentes do que anunciavam. Esse é o problema de saúde pública que nos preocupa — muito mais do que qualquer disputa de mercado”, afirmou o executivo.
Dona da Mounjaro prioria o desenvolvimento de novas soluções
A estratégia da companhia para manter a liderança também passa pela inovação. Berigo afirma que a diferenciação do Mounjaro está na própria molécula.
“Os genéricos que chegam ao mercado serão baseados em semaglutida, uma terapia com ação única sobre o receptor GLP-1. Já o Mounjaro inaugura um novo mecanismo de ação, com ação dupla sobre os receptores GIP e GLP-1. Essa diferenciação científica, e não a ausência de concorrência, é o que sustenta nossa posição de liderança”, disse Berigo.
O próximo passo dessa estratégia já está em desenvolvimento. A empresa aguarda a avaliação regulatória da orforgliprona no Brasil e segue investindo em novas moléculas, como a retatrutida.
“Continuamos priorizando o desenvolvimento de novas soluções para ampliar as opções dentro de indicações aprovadas. É esse pipeline, e não uma guerra de preços, que sustenta nossa capacidade de atender mais pacientes com segurança no longo prazo”.
A aposta no Brasil vai além das vendas. Em 2025, a Eli Lilly elevou em 493% os investimentos em pesquisa clínica no país na comparação com o ano anterior, totalizando mais de R$ 230 milhões. Atualmente, a empresa mantém 59 estudos clínicos, cerca de 8 mil pacientes ativos e mais de 300 centros de pesquisa distribuídos pelo país.
“Nosso compromisso de longo prazo com o Brasil é baseado em ciência, pesquisa clínica e investimento sustentado em inovação”.
No cenário global, a farmacêutica afirma ter investido mais de US$ 50 bilhões desde 2020 na construção e modernização de fábricas para ampliar a produção de medicamentos incretínicos. Hoje, opera sete unidades fabris, entre instalações em funcionamento e em construção, para atender à demanda crescente por tratamentos cardiometabólicos.
Novo Nordisk investe para recuperar terreno
A Novo Nordisk também aposta em um pipeline de novas terapias, incluindo moléculas como CagriSema, Zenaglutide, Icodec, IcoSema e Ziltivekimab. À EXAME, a farmacêutica destacou que a perda da exclusividade faz parte do ciclo de vida de medicamentos inovadores, mas ressaltou que pretende preservar seu mercado por meio da diferenciação dos produtos, do suporte a pacientes e de novos investimentos em pesquisa.
“O ponto mais importante é que medicamentos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus são resultado de décadas de pesquisa científica e de investimentos significativos”, afirma a empresa.
O movimento acontece em meio à disputa judicial aberta contra a Eli Lilly na semana passada nos Estados Unidos, com a Novo processando a concorrente por anúncios que, segundo a empresa, fariam comparações enganosas entre os medicamentos das duas farmacêuticas. A Lilly nega irregularidades.
No Brasil, a Novo Nordisk busca ampliar sua presença com investimentos em produção e pesquisa. A companhia anunciou R$ 6,4 bilhões para expandir a fábrica de Montes Claros, em Minas Gerais, unidade que já responde por cerca de 25% da produção global de insulina da empresa e exporta para mais de 70 países. A farmacêutica também aguarda a análise da Anvisa para a versão oral do Wegovy e mantém investimentos em estudos clínicos no país.












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