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A cannabis medicinal está entrando em uma nova fronteira de inovação: a nanotecnologia. Encapsulados em estruturas microscópicas, os canabinoides ficam mais protegidos no organismo, o que reduz perdas, aumenta a absorção e pode permitir doses menores e ação mais rápida.
A médica mineira Mariana Maciel, cofundadora da biotech canadense Thronus Medical, foi uma das pioniras em ofertar os nanocanabinoides no Brasil. Ela pretende fabricar os medicamentos no país.
A tecnologia, porém, ainda exige cautela. Boa parte das pesquisas está em estágio pré-clínico, e faltam estudos robustos em humanos para comprovar eficácia e segurança.
O avanço ocorre em meio à expansão da cannabis medicinal.
No Brasil, cerca de 873 mil pessoas usam a planta para fins terapêuticos, em um mercado de quase R$ 1 bilhão por ano, com potencial para chegar a R$ 9,5 bilhões.
Entre entusiasmo e ressalvas da comunidade médica, o desafio é demonstrar se os nanocanabinoides conseguem entregar os benefícios prometidos.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Aos 35 anos, a médica mineira Mariana Maciel integra sociedades internacionais de pesquisa em cannabis medicinal e já escreveu um livro sobre o assunto — A revolução endocanabinoide. Mas ela teve de sair de sua zona de conforto para chegar até aqui.
Mariana tinha preconceito contra o uso terapêutico da planta quando, em 2018, se mudou para o Canadá. À espera da validação do diploma e impedida de exercer a medicina no novo país, começou a trabalhar como garçonete. “Tive de calçar as sandálias da humildade”, lembra, em conversa com o NeoFeed, durante uma visita recente ao Brasil. “Mas continuei distribuindo currículo e procurando oportunidades.”
Três meses depois, surgiu uma proposta para atuar como consultora científica em uma empresa de cannabis medicinal. Não foi fácil aceitar. “Fui obrigada a rever minhas convicções”, conta. “Quando comecei a estudar, me apaixonei e me encontrei.” O que antes despertava desconfiança se transformou em profissão e, hoje, ela está no centro de uma das principais apostas para o futuro dos tratamentos com cannabis: os nanocanabinoides.
A próxima fronteira de inovação da indústria de cannabis medicinal depende menos da planta e mais da engenharia farmacêutica. Se a primeira onda foi marcada pela investigação dos canabinoides e de suas aplicações terapêuticas, o avanço agora se concentra também no desenvolvimento de ferramentas capazes de aumentar a eficiência dessas substâncias.
A baixa absorção dos medicamentos administrados por via oral é uma das limitações das terapias atuais. E uma das frentes dessa transformação é a nanotecnologia. Encapsulados em estruturas microscópicas, os princípios ativos ficam mais protegidos durante o percurso pelo organismo, reduzindo a perda do composto antes que ele seja absorvido.
Quanto maior a quantidade de composto disponível, maior tende a ser a absorção.E isso, em tese, possibilita obter os mesmos efeitos terapêuticos com doses menores e em menos tempo. Segundo Mariana, é possível reduzir o início da ação dos compostos convencionais de cerca de duas horas para dez a 30 minutos.
Da epilepsia ao câncer, passando por doenças neurodegenerativas, dor crônica e transtornos mentais, os nanocanabinoides vêm ganhando destaque na pesquisa científica. Cerca de 500 estudos conduzidos no mundo investigam seu uso em 117 condições médicas, conforme dados da plataforma ClinicalTrials.gov, mantida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.
A nanotecnologia já impulsiona uma nova geração de empresas. E, entre elas está a Thronus Medical, cofundada por Mariana em Vancouver e uma das pioneiras em trazer a tecnologia para o Brasil.
Por enquanto, os produtos chegam ao país via importação. Mas a médica mineira aguarda o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercializar os remédios nas farmácias brasileiras. Ela também planeja instalar uma fábrica de nanocanabinoides em território nacional.

Embora estudados há mais de uma década, os nanocanabinoides ganharam força nos últimos anos e boa parte das pesquisas ainda está em estágio pré-clínico. Faltam estudos mais robustos em humanos para comprovar a eficácia e avaliar a segurança das diferentes formulações.
“Cada nanotecnologia tem suas especificidades e há relatos de problemas com algumas delas”, diz ao NeoFeed a pesquisadora Micheline Donato, com pós-doutorado pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido.
Uma das preocupações está justamente na capacidade dos nanocanabinoides de atravessar com mais facilidade as barreiras biológicas. A mesma característica que favorece sua absorção pode aumentar o risco de acúmulo em órgãos mais suscetíveis à intoxicação, como o fígado. “Por isso, cada formulação deve ser avaliada individualmente e prescrita com moderação”, completa a especialista.
Enquanto a pesquisa sobre os nanocanabinoides avança, o mercado mais amplo de cannabis medicinal vive um momento de expansão. Avaliado globalmente em US$ 19,7 bilhões em 2025, o setor deve movimentar US$ 97,2 bilhões em 2033, segundo a consultoria Grand View Research.
No Brasil, as vendas de medicamentos à base da planta cresceram 35,6% no primeiro quadrimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. Hoje, cerca de 873 mil brasileiros fazem uso medicinal da cannabis, movimentando um mercado de quase R$ 1 bilhão por ano.
E há espaço para avançar. Segundo a consultoria Kaya Mind, o setor tem potencial para alcançar R$ 9,5 bilhões em faturamento anual e 6,9 milhões de pacientes. A expansão ganhou novo impulso em janeiro, quando a Anvisa aprovou um novo marco regulatório que permite a empresas e instituições de pesquisa cultivar a planta e produzir medicamentos com insumos obtidos no país.
Apesar do avanço regulatório, a cannabis ainda desperta reservas em parte da comunidade médica. Um dos críticos é o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor titular aposentado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
“Só posso entender todo esse esforço da indústria farmacêutica do ponto de vista do mercado, para vender um produto que dará muito lucro. Do ponto de vista médico, as evidências são muito fracas”, afirma, em entrevista ao NeoFeed. “Daqui a pouco isso vai virar que nem Maracugina!”
Entre o entusiasmo e a cautela, a nanotecnologia desponta como uma das principais apostas para o futuro das terapias com a cannabis. O desafio agora é demonstrar se os nanocanabinoides entregam, de fato, o que prometem.











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