Como a guerra com o Irã afeta a corrida global por infraestrutura de IA

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O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã começa a gerar preocupação para um setor que não é imediatamente associado à guerra: o de infraestrutura de Inteligência Artificial (IA).

Nos últimos anos, gigantes de tecnologia passaram a investir bilhões de dólares no Oriente Médio para construir data centers e infraestrutura voltada à IA, atraídas pelo baixo custo da energia e de terrenos, além de incentivos oferecidos pelos governos locais.

Com a escalada de tensão e a maior instabilidade geopolítica, crescem as dúvidas sobre o futuro da construção de data centers e sobre o ritmo dos avanços tecnológicos na região.

A preocupação, porém, deixou de ser apenas especulativa: infraestruturas de tecnologia foram alvos de ataques recentes. A onda de retaliação do Irã contra países que abrigam bases militares norte-americanas atingiu instalações da Amazon Web Services (AWS) nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, causando interrupções em serviços bancários, de pagamento, empresariais e de consumo.

Nos Emirados Árabes, drones iranianos atingiram duas instalações da Amazon. “Essas descargas elétricas causaram danos estruturais, interromperam o fornecimento de energia à nossa infraestrutura e, em alguns casos, exigiram ações de combate a incêndios que resultaram em danos adicionais causados ​​pela água”, afirmou a AWS.

Ainda que o conflito dificilmente leve os provedores de hiperescala (hyperscales)— grandes empresas de computação em nuvem que operam data centers em escala massiva — a abandonar a infraestrutura de IA já instalada na região, a escalada das hostilidades pode afetar decisões de investimento no futuro. Caso as ofensivas se prolonguem ou se ampliem para outros países, companhias de tecnologia tendem a adotar uma postura mais cautelosa na expansão de novos projetos.

Isso ocorre porque a construção de data centers voltados à inteligência artificial exige investimentos bilionários e planejamento de longo prazo. Instalações desse tipo dependem de estabilidade política, fornecimento contínuo de energia e segurança física, fatores que podem ser colocados em xeque em cenários de conflito prolongado.

Em entrevista à CNBC, o diretor executivo da unidade geopolítica da Hilco Global, Patrick J. Murphy, afirmou que é possível que haja uma “mudança em relação a onde a próxima onda de capacidade será construída”. Para Murphy, o conflito pode deslocar projetos para áreas mais estáveis.

“Se o risco geopolítico continuar a aumentar no Golfo, as empresas poderão acelerar projetos em locais como o Norte da Europa, a Índia ou o Sudeste Asiático, onde o fornecimento de energia, os quadros regulamentares e as condições de segurança são mais previsíveis”, explicou o executivo.

Oriente Médio como polo para IA

A rápida consolidação do Oriente Médio como polo estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir a infraestrutura necessária para sustentar o avanço da inteligência artificial se apoia em um esforço de governos da região para atrair investimentos estrangeiros. Nos últimos anos, países do Golfo também passaram a reduzir vínculos tecnológicos com a China, em parte para atender às exigências dos Estados Unidos.

Esse movimento já mobiliza algumas das maiores empresas do setor. Companhias como Oracle, Nvidia e Cisco participam do campus de IA da OpenAI nos Emirados Árabes Unidos, conhecido como Stargate. O projeto, desenvolvido em parceria com a empresa local G42, deve ocupar cerca de 26 quilômetros quadrados e alcançar capacidade de até cinco gigawatts.

Outros projetos também avançam na região. A empresa saudita Humain planeja investir bilhões de dólares na construção de infraestrutura de IA, enquanto a Microsoft afirmou que pretende aplicar US$ 15 bilhões nos Emirados Árabes Unidos até 2029.

Porém, com o aumento das tensões no Oriente Médio, cresce o questionamento sobre a segurança de infraestruturas digitais na região. Data centers e redes que sustentam serviços de nuvem e inteligência artificial passaram a ser vistos como alvos estratégicos e potencialmente vulneráveis em cenários de conflito prolongado. Inclusive, Murphy acredita que as Big Techs já estejam elaborando planos de contingência diante do risco geopolítico. Entre as medidas discutidas estariam o reforço da segurança física de instalações existentes e futuras, incluindo a adoção de sistemas de defesa antimíssil e antidrone.

Apesar das preocupações, a região ainda oferece vantagens relevantes para empresas que buscam expandir infraestrutura de IA. O Oriente Médio combina acesso a capital de grandes fundos soberanos, apoio governamental, ampla disponibilidade de energia e uma posição estratégica como porta de entrada para mercados emergentes do chamado Sul Global. Também é provável que governos da região se mobilizem para tranquilizar investidores estrangeiros e incentivar empresas norte-americanas a manter seus compromissos de investimento.

“Os Emirados Árabes Unidos consideram o desenvolvimento da IA ​​fundamental para o seu futuro e estão apostando fortemente nessa tecnologia”, afirmou Aalok Mehta, diretor do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

“O país está investindo bilhões de dólares para apoiar a transição para a IA”, concluiu Mehta. Mesmo assim, empresas podem optar por reduzir o ritmo de novos aportes ou suspender parcerias planejadas como forma de proteger investimentos, em vez de abandonar completamente a região.

Questão energética

A questão energética, porém, também pode se tornar um ponto de pressão caso o conflito se prolongue. Para operadores de data centers, a eletricidade não é apenas um custo operacional, é o principal insumo do negócio. Segundo análise da techUK, a energia pode representar até 60% dos custos operacionais de uma instalação.

Esse cenário já vinha se tornando mais desafiador mesmo antes das tensões geopolíticas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os preços da eletricidade subiram 6,9% em 2025, mais que o dobro da inflação geral, segundo estimativas do Goldman Sachs.

Um eventual agravamento do conflito no Golfo — rota por onde circula cerca de 20% do petróleo consumido no mundo e quase um quinto do comércio global de gás natural liquefeito (GNL) — pode adicionar uma nova camada de pressão aos custos de energia que sustentam a infraestrutura digital.

Isso ocorre porque muitos data centers na América do Norte e na Europa passaram a depender cada vez mais do gás natural para geração de energia, seja como fonte primária em regiões onde a conexão à rede elétrica é limitada, seja como backup para garantir operação contínua.

Com concessionárias de energia em diversos mercados relatando prazos de até sete anos para novas conexões à rede, geradores a gás natural se tornaram uma solução rápida para viabilizar novos complexos de data centers voltados à inteligência artificial.

Outro ponto de preocupação é uma eventual interrupção no fluxo de GNL pelo Estreito de Ormuz, rota crítica para o comércio global de energia. Apenas o Catar transportou cerca de 81 milhões de toneladas de GNL pela passagem em 2025, o que corresponde a, aproximadamente, 20% do fornecimento mundial. Qualquer interrupção tende a pressionar os preços internacionais, à medida que Europa e Ásia passam a competir por cargas disponíveis.

Além do gás, os custos com combustível de emergência também podem subir. Apesar das metas de descarbonização anunciadas por empresas como Microsoft, Google e Amazon para eliminar o uso de diesel até 2030, geradores movidos a esse combustível ainda são amplamente utilizados como backup em grandes data centers, o que aumenta a exposição do setor à volatilidade do petróleo em momentos de crise geopolítica.

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