Um relatório divulgado esta semana expôs uma contradição entre Estados Unidos e Brasil, ao mostrar que o gargalo de geração de energia elétrica nos Estados Unidos ameaça estourar a ‘bolha’ de construção de data centers de IA no país.
De acordo com levantamento da corretora imobiliária CBRE Group, o número de projetos de data centers de IA desacelerou no final do ano passado nos EUA devido a problemas com licenças e atrasos na conexão à rede elétrica por falta de oferta de energia.
Peça de engrenagem essencial no atual boom de investimentos em IA, os data centers hiperescaladores – projetados para operar em escala massiva para processar volumes gigantescos de dados para servidores de IA – exigem grande quantidade de energia, 24 horas por dia e sete vezes por semana, que o setor elétrico do país pode não conseguir entregar.
Enquanto falta energia para alimentar os data centers de IA nos EUA, o Brasil enfrenta um problema oposto – a sobreoferta de energia renovável devido ao baixo consumo, que vem gerando o curtailment, os cortes de geração de usinas renováveis centralizadas pelo ONS, órgão regulador do sistema elétrico.
Para não colapsar o sistema, o excesso de energia injetada na rede das distribuidoras sem nenhuma restrição técnica pela geração distribuída (GD) – em especial pelos painéis solares instalados nos telhados – levou o ONS a jogar fora 20% da energia produzida pelas usinas centralizadas no ano passado.
O problema brasileiro, portanto, não está na geração, mas na infraestrutura da rede, já que data centers de IA exigem, além de carga contínua, mais subestações e linhas de transmissão para levar a energia renovável produzida no Nordeste para o Sudeste, onde os centros de dados estão mais concentrados.
A consultoria Volt Robotics estima serem necessários investimentos paralelos de R$ 100 bilhões a R$ 120 bilhões até 2030 em melhorias do setor elétrico brasileiro para adequar a rede. Mesmo assim, as big techs preveem investimentos massivos em data centers de IA no País, por causa da ampla oferta de energia e seu preço baixo no mercado internacional.
A previsão do Departamento de Energia dos EUA é que os data centers consumam cerca de 12% da energia gerada no país até 2028, um aumento em relação aos 2% antes de 2020. Outra estimativa, da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), indica que a demanda global de eletricidade para data centers deverá dobrar até 2030, com aumentos ainda maiores nos EUA e na China.
O tema levou o presidente Donald Trump a acenar com uma exigência às big techs para que construam suas próprias usinas de energia para alimentar os data centers de IA.
“Muitos americanos também estão preocupados com o fato de a demanda de energia dos centros de dados de IA poder aumentar injustamente suas contas de luz”, disse Trump, durante discurso do Estado da União, esta semana.
A Casa Branca já vinha discutindo com 13 governadores do Meio-Atlântico e do Centro-Oeste essa exigência para que as big techs possam operar novos data centers. Caso não queiram fazer isso, as empresas teriam que pagar tarifas de eletricidade significativamente mais altas.
Aposta nuclear
Para suprir a demanda de energia, as big techs estão estudando implementar alternativas de geração que vinham sendo descartadas nos últimos anos. A Microsoft, por exemplo, pretende reabrir a usina nuclear desativada de Three Mile Island, na Pensilvânia. A Meta anunciou acordos com startups de energia nuclear avançada para fornecer energia para seus centros de dados.
A corrida por mais energia para IA também está levando a China a usar combustíveis fósseis para expandir sua rede elétrica, em especial o carvão. O país asiático colocou em operação mais de 50 novas usinas de carvão de grande porte no ano passado, em comparação com cerca de 20 por ano na década anterior.
Para se ter uma ideia, a capacidade instalada de geração de energia a carvão na China em 2025 foi maior do que a da Índia ao longo de toda a década anterior. A retomada do uso de carvão ocorre após uma década de aposta do governo chinês em energia limpa, como eólica, solar e hidrelétrica – responsável por mais da metade do crescimento da eletricidade no período.
Apenas de 2021 para cá, a China instalou impressionantes 1.500 gigawatts (GW) de nova capacidade energética, elevando seu total para 3.891 GW. Os EUA avançaram muito pouco no período e sua capacidade atual gira em torno de 1.373 GW — menos do que a China adicionou em apenas quatro anos.
O Brasil dispõe de 217 GW de capacidade instalada, mas vive a expectativa de uma grande expansão nos próximos anos para atender justamente a demanda de data centers de IA – a carga requerida por esses centros de dados avançados deve crescer de 2,5 GW (dados de 2024) para 9 GW até 2037, segundo o Ministério de Minas e Energia.
Esse aumento de demanda previsto se deve a algumas vantagens competitivas do País: nossa matriz energética, 90% renovável e o custo baixo de energia em relação a outros países, além da capacidade ociosa da rede elétrica brasileira, que produz mais energia do que consome.
Outro fator decisivo – que levou à previsão de R$ 1 trilhão de investimentos em data centers de IA no País até 2030 – foi o anúncio, em maio do ano passado, do Regime Especial de Tributação para a Área de Data Centers (Redata), por parte do governo federal. O programa, que reduz o custo de capital em 50% ao isentar impostos sobre ativos de TI, estimulou anúncios de projetos de grande porte (500 MW a 1,5 GW), com benefícios válidos até 31 de dezembro de 2026.
Limbo jurídico
Uma lambança política do Congresso Nacional esta semana, porém, ameaça cancelar a maior parte dos projetos previstos. Com a demora do Congresso em votar a medida provisória do Redata, a solução encontrada foi transformar a MP em projeto de lei – para acelerar a votação – e votá-lo antes que a MP caducasse, na última quarta, 25 de fevereiro.
A Câmara aprovou o projeto de lei do Redata na data-limite, mas o presidente do Senado, David Alcolumbre (União Brasil-AP), recusou-se a incluir o PL na pauta do dia– ele queria retaliar politicamente o governo por causa da investigação da Polícia Federal contra políticos do União Brasil no caso do Banco Master.
Como a legislação proíbe criar novos incentivos fiscais em ano de eleição, os benefícios previstos pelo Redata correm o risco de cair – governo e empresários do setor de data centers ainda estão buscando uma saída jurídica para solucionar o problema.
“Entramos num limbo jurídico e o resultado prático é previsibilidade zero para investimentos multianuais de cloud e IA, que já estavam travados desde maio com o anúncio do Redata e continuaram paralisados pela falta de segurança jurídica”, lamenta Luis Tossi, vice-presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), que não escondeu a perplexidade com que o setor recebeu a notícia da não aprovação do PL do Redata.
Segundo ele, os investidores globais exigem marcos regulatórios estáveis para assumir compromissos bilionários de até 20 anos. Sem uma solução rápida para aprovar o Redata e aproveitar seus benefícios, afirma, os investimentos devem migrar para países vizinhos com segurança e fomento, como Chile, México e Uruguai.
“O impacto será crítico para o País, com perda de investimentos em energia renovável e gás, fontes escolhidas pelos contratantes, em conectividade, como fibra e cabos submarinos, e base tecnológica (software/hardware), com drenagem de talentos para fora”, adverte Tossi, incluindo o Redata no rol das contradições que cercam o setor elétrico brasileiro – com energia de sobra a preço baixo e potencial de investimentos internacionais engolidos por interesses políticos.









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