O plano do Mercado Livre de avançar sobre o varejo farmacêutico no Brasil foi visto pelo mercado financeiro como um movimento estratégico que pode consolidar a companhia como uma plataforma de “consumo essencial”.
Em relatório divulgado nesta quarta-feira, 25, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), apontou a entrada do marketplace em medicamentos como uma das últimas grandes categorias ainda pouco exploradas no e-commerce.
“Em nossa opinião, isso reforça a ambição de longo prazo do Mercado Livre de evoluir para uma ‘superplataforma’ para categorias de consumo essencial, aumentando a frequência de compra e a fidelização do cliente”, afirmou a equipe do BTG liderada por Luiz Guanais.
“O setor farmacêutico se destaca devido à sua alta recorrência, natureza defensiva e capacidade de impulsionar vendas cruzadas em serviços de fintech e logística”, complementou.
A meta é avançar na venda de medicamentos ainda este ano, disse, à EXAME, Fernando Yunes, vice-presidente executivo de commerce do Mercado Livre.
No ano passado, o gigante do marketplace começou a preparar terreno para entrar na venda de medicamentos. Comprou, em agosto, uma farmácia no Jabaquara, na zona sul da cidade de São Paulo, que pertencia à Memed, healthtech de prescrições médicas digitais.
Ter um estabelecimento físico é condição para qualquer empresa que se proponha a comercializar esse tipo de produto pela internet.
“Em breve a gente começa um piloto para avançar e trazer medicamentos para a plataforma”, afirmou Yunes.
A lei que permite a instalação de farmácias e drogarias dentro de supermercados, sancionada esta semana, trouxe expectativas de que o negócio pode por fim avançar.
“É a única categoria de comércio em que não atuamos no Brasil. México, Argentina, Chile e Colômbia comercializam medicamentos com e sem receita. Agora, com esse movimento, essa atualização da lei, a gente está se organizando para trazer novidades neste ano”, diz Yunes.
A estratégia, segundo o executivo, não passa pela verticalização ou pela criação de uma rede própria de drogarias. Em vez disso, a companhia pretende integrar estabelecimentos licenciados à sua plataforma — abordagem que, na visão do BTG, “replica o modelo bem-sucedido adotado em outras categorias”.
“Nesta fase, acreditamos que a empresa está criando opções: mesmo uma penetração limitada pode gerar dados valiosos, tráfego incremental e oportunidades de monetização”, disse o banco no documento.
“Com o tempo, o setor farmacêutico pode emergir como um importante impulsionador de engajamento, particularmente nos segmentos de medicamentos sem prescrição médica e de saúde e cuidados pessoais, onde a adoção digital é mais escalável e menos restringida pela regulamentação”.
Fatores limitantes no curto prazo
Por outro lado, o BTG aponta que o principal entrave está na regulação. As regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialmente a RDC 44, determinam que a venda e entrega de medicamentos só podem ser feitas por farmácias licenciadas.
Isso impede, por exemplo, que produtos sejam despachados a partir dos centros de distribuição do Mercado Livre — um pilar central do seu modelo logístico. Na prática, isso obriga a empresa a operar em um formato híbrido, em que a plataforma faz a intermediação digital, enquanto farmácias parceiras ficam responsáveis pelo estoque e pela dispensação.
Além disso, há barreiras estruturais do próprio mercado, segundo o BTG. “Aproximadamente 60 a 70% das transações estão ligadas a condições agudas que exigem atendimento imediato, enquanto as regras de retenção de receitas continuam a limitar a penetração online”, afirmou o banco.
“Como resultado, é provável que o Mercado Livre adote um modelo híbrido, atuando como uma interface de marketplace enquanto depende de farmácias terceirizadas para a dispensação de estoque e conformidade”, complementou.
O avanço do Mercado Livre também ocorre em um momento de mudanças regulatórias, como a recente autorização para que supermercados operem farmácias em espaços dedicados. Ainda assim, o BTG avalia que o impacto competitivo no curto prazo tende a ser contido.
A leitura é que o setor deve passar por uma fase de “mais ruído do que efeito prático”, com manchetes sobre novos entrantes superando, por ora, mudanças estruturais no desempenho das operações estabelecidas.
O banco ressalta que redes tradicionais como Raia Drogasil e Pague Menos ainda se beneficiam de vantagens importantes, como capilaridade física e capacidade de atender demandas urgentes.
Vantagem competitiva no longo prazo
Apesar da disrupção inicial gradual, o BTG é enfático ao apontar que o Mercado Livre reúne vantagens competitivas relevantes para, no futuro, disputar e, potencialmente liderar, o varejo digital de saúde.
“Nesse contexto, a iniciativa do Mercado Livre avisa menos ganhos imediatos de participação de mercado e mais o posicionamento para um futuro em que a profundidade do ecossistema — e não apenas a presença física — defina a vantagem competitiva”, disseram os analistas.
Mesmo com uma penetração inicial limitada, o banco destaca que o projeto cria “opcionalidade”: permite ao Mercado Livre coletar dados, testar o comportamento do consumidor e construir uma base relevante para expansão futura. Na visão do banco, a capacidade de agregar demanda, aumentar a transparência de preços e integrar pagamentos e crédito via fintech são diferenciais competitivos do Mercado Live.
“Com o tempo, se as restrições logísticas forem flexibilizadas, o Mercado Livre poderia replicar seu modelo de marketplace com fulfillment, oferecendo vantagens tanto em termos de conveniência quanto de custo. É importante ressaltar que essa iniciativa se alinha a temas estruturais mais amplos, incluindo a expansão do comércio eletrônico para categorias regulamentadas e a convergência dos ecossistemas de varejo, saúde e financeira”, concluem os analistas.
Investimento bilionário
Um dos pilares que sustentam a visão positiva sobre os planos da empresa é a capacidade de execução do Mercado Livre — reforçada pelo anúncio de um investimento de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026.
O plano prevê expansão logística, com a abertura de 14 novos centros de distribuição, além de aportes em tecnologia, marketplace e serviços financeiros. A empresa também planeja contratar 10 mil funcionários, ampliando sua presença no principal mercado da companhia, que já responde por mais da metade da receita.
Na avaliação do Santander Brasil, a magnitude do investimento sinaliza um compromisso claro com crescimento de longo prazo, mesmo que isso implique priorizar expansão em detrimento da rentabilidade no curto prazo. O banco mantém uma visão construtiva sobre a empresa, destacando o potencial de crescimento tanto no e-commerce quanto nos serviços financeiros digitais.












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