Para Kinea, IA é como ‘Game of Thrones’: big techs estão criando dragões

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A Kinea, braço de investimentos alternativos do Itaú, usou uma metáfora de Game of Thrones para explicar sua leitura sobre a inteligência artificial no mercado global. Na carta ao investidor de fevereiro de 2026, divulgada nesta segunda-feira, 2, a gestora afirma que a tecnologia representa a volta dos “dragões” — uma força capaz de reprecificar ativos e alterar a lógica competitiva de setores inteiros.

Para a Kinea, a IA não é apenas uma inovação incremental, mas uma ruptura que muda as regras do jogo econômico. Assim como na série da HBO, em que castelos deixam de ser fortalezas impenetráveis diante do fogo dos dragões, modelos de negócio antes protegidos por barreiras tecnológicas passam a ser questionados.

Na leitura da casa, o equivalente moderno à criação desses seres é o avanço dos investimentos em IA. A última temporada de balanços surpreendeu o mercado com a reaceleração dos investimentos pelas grandes empresas de tecnologia, impulsionadas pelo crescimento de ferramentas como ChatGPT e Anthropic. O investimento em capital deve saltar para US$ 748 bilhões em 2026.

A receita recorrente anualizada da Anthropic serve como termômetro da demanda, saltando de US$ 1 bilhão em dezembro de 2023 para US$ 14 bilhões em fevereiro de 2026.

Google, Meta, Amazon e Microsoft estariam direcionando praticamente 100% do fluxo de caixa operacional para expansão de infraestrutura, inclusive recorrendo a dívida. A Kinea avalia que esse movimento marca uma nova fase da corrida tecnológica, mais intensiva em capital e infraestrutura.

Com agentes de IA ganhando autonomia para executar tarefas complexas, a gestora vê impacto direto sobre o software tradicional, cujo modelo baseado em códigos proprietários e bases instaladas passa a ser desafiado.

A carta cita reflexos já perceptíveis em setores como jogos, software jurídico, seguros, gestão de patrimônio, logística e cibersegurança, todos pressionados pela expectativa de maior automação.

Apesar do alto custo do Capex, as Magnificent Seven apresentam um crescimento de lucro por ação (LPA) de 24%, contra 12% do restante do S&P 500, embora seus preços tenham sofrido ajuste recente.

As previsões da Kinea

A estratégia da Kinea concentra-se nas áreas de escassez, descritas como os “criadores e alimentadores de dragões”. A tese é que quem controla os insumos críticos da IA detém o poder econômico do ciclo.

Nesse mapeamento entram fabricantes de memória, como Micron e Samsung; a TSMC, com quase monopólio na produção em nós avançados; empresas de energia como Constellation, Talen e Vistra, diante da demanda crescente de data centers; e fornecedores de equipamentos, como GE Vernova e Siemens Energy.

A gestora afirma ainda que o mercado subestima as chamadas Magnificent Seven, que não apenas compram infraestrutura, mas controlam ecossistemas, dados e monetização. A carta lembra que Microsoft, Amazon e Google detêm participações relevantes em líderes de IA, como OpenAI e Anthropic.

Cenário macro

No cenário macro, a Kinea descreve a economia americana como resiliente. Apesar da desaceleração do PIB no quarto trimestre de 2025, atribuída ao shutdown do governo, o crescimento subjacente seria sustentado por consumo de serviços e investimentos em IA.

O mercado, segundo a casa, começa a precificar um choque desinflacionário associado à automação e ao possível aumento do desemprego em serviços qualificados. A Kinea, porém, adota tom mais construtivo: avalia que a fase atual da revolução tecnológica é intensiva em infraestrutura, com geração de empregos na construção de data centers e na expansão energética.

Vale lembrar que o texto foi escrito antes dos conflitos que se instalaram no Oriente Médio nesse último fim de semana.

No campo geopolítico, a carta destaca a decisão da Suprema Corte dos EUA que limitou o uso de tarifas com base na IEEPA. Em resposta, o governo Trump teria adotado uma tarifa de 15% com base em dispositivos alternativos da legislação comercial.

A gestora afirma que essa mudança reduz cenários extremos de uso arbitrário de tarifas. Em moedas, mantém posição comprada em yuan, aposta no won sul-coreano como proteção à cadeia de semicondutores e segue vendida em libra esterlina, diante da fragilidade econômica do Reino Unido.

Um olhar sobre o Brasil

No Brasil, a Kinea avalia que a Selic está em nível restritivo e projeta cortes de 50 pontos-base por reunião, com inflação próxima de 3% no meio do ano — embora a inflação de serviços permaneça pressionada.

Em ações, a casa trabalha vendida em índices, sob o argumento de que a alta recente não reflete a evolução dos lucros. Mantém posições em utilities, no programa habitacional e em Embraer. Também segue aplicada em juros curtos e com posição comprada tática em real.

Em commodities, a leitura é de estabilidade no petróleo, com risco de queda caso o prêmio geopolítico se dissipe. A gestora reduziu exposição em ouro, vê minério de ferro em sobreoferta e mantém posição vendida em grãos e soft commodities.

Para a Kinea, ignorar a inteligência artificial não seria uma estratégia viável.  Afinalobreviver à mudança estrutural exige não resistir ao fogo, mas aprender a controlá-lo.

Para a gestora, o ciclo atual não é apenas tecnológico, mas estrutural — e deve reorganizar vencedores e perdedores nos mercados globais.

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