Entre latas de Coca-Cola sabor cereja e investimentos na Apple (AAPL), poucas pessoas são tão importantes para Wall Street quanto o megainvestidor Warren Buffett, conhecido como o Oráculo de Omaha. Aos 95 anos, o bilionário deixou o comando de sua empresa, a Berkshire Hathaway, para curtir uma aposentadoria tardia. Ao mesmo tempo, deixou também uma dúvida: quem — ou alguém — será o próximo megainvestidor?
A pergunta pode não ser nova, mas vem ganhando força nos últimos anos pela idade avançada de Buffett. Ao longo das últimas décadas, o mercado tentou identificar nomes capazes de repetir a “fórmula Berkshire” que combinou disciplina, paciência e retornos consistentes.
Em diferentes momentos, gestores foram alçados a esse posto, enquanto outros passaram a ser analisados sob essa lente. Mas nem sempre com resultados à altura da expectativa criada.
Greg Abel e os limites da sucessão
Greg Abel assumiu como CEO da Berkshire Hathaway neste ano, em uma transição que marca a continuidade da estrutura construída ao longo de décadas.
No mercado, predomina a leitura de que seu papel se concentra na gestão operacional do conglomerado, mais do que na reprodução do histórico de investimentos de Buffett.
Ao longo de cerca de 60 anos, Buffett entregou retorno anual médio de 19,9%, com valorização acumulada superior a 5,5 milhões por cento. Hoje, a Berkshire supera US$ 1 trilhão em valor de mercado e mantém aproximadamente US$ 380 bilhões em caixa, o que reduz o universo de oportunidades capazes de gerar retornos proporcionais.
A dimensão da companhia impõe limites ao ritmo de crescimento. Operações dessa escala exigem alocação em ativos maiores e mais disputados, em um ambiente marcado por maior eficiência de mercado e competição elevada.
Abel, por sua vez, sinaliza uma abordagem centrada na preservação da disciplina de capital e na solidez das operações. Em comunicações recentes, indicou foco em fortalecer a estrutura da empresa no longo prazo, sem estabelecer metas de desempenho comparáveis às do antecessor.
O “efeito maldição” do próximo Buffett
Entre os nomes frequentemente citados para substituir o Oráculo de Omaha em seu papel de maior investidor do mundo estão Eddie Lampert, Chamath Palihapitiya e Sam Bankman-Fried, associados a episódios de forte queda de desempenho ou crises.
O padrão levou analistas a tratar o título como uma “maldição”, associada a expectativas irreais e decisões mais arriscadas para justificar comparações.
Eddie Lampert, por exemplo, ganhou notoriedade ao assumir o controle da Sears com a proposta de aplicar princípios de alocação de capital inspirados em Buffett. O resultado foi a deterioração do negócio e o colapso da varejista após anos de queda operacional.
Chamath Palihapitiya ficou conhecido durante o ciclo de alta das SPACs, sociedades de propósito específico, com forte exposição a empresas de crescimento. A reversão do mercado levou a perdas relevantes e questionamentos sobre a consistência da estratégia.
Já Sam Bankman-Fried, fundador da FTX, chegou a ser comparado a Buffett por sua atuação no mercado cripto e capacidade de captar capital. A quebra da corretora, em 2022, expôs falhas de governança e resultou em um dos maiores colapsos financeiros recentes.
Os casos, para o mercado, reforçam a leitura de que o rótulo tende a antecipar ciclos de frustração. A associação com Buffett eleva o nível de cobrança e, em alguns casos, incentiva estratégias mais agressivas para sustentar a expectativa criada pelo mercado.
Quem se aproxima do estilo Buffett?
Alguns investidores aparecem como referências parciais nesse debate, ainda que em contextos distintos. Bill Ackman, fundador da Pershing Square, busca estruturar um modelo com capital permanente e alocação concentrada, inspirado na lógica da Berkshire Hathaway, com foco em empresas de alta qualidade e horizonte de longo prazo.
Gestores como Terry Smith, do Fundsmith, e Chuck Akre seguem uma abordagem semelhante à fase mais recente de Buffett, baseada na aquisição de negócios com alto retorno sobre capital e manutenção prolongada das posições. A estratégia prioriza previsibilidade de resultados e baixa rotatividade de portfólio.
Seth Klarman, da Baupost, também integra esse grupo. Reconhecido pela disciplina em gestão de risco, mantém foco em ativos subavaliados e em assimetria entre risco e retorno, características centrais do investimento em valor.
Apesar das semelhanças metodológicas, esses investidores operam com volumes significativamente menores de capital. A diferença amplia a capacidade de explorar nichos menos eficientes do mercado e sustentar retornos percentuais mais elevados, segundo analistas.
A comparação, no entanto, encontra limites estruturais. Buffett combinou escala, acesso a capital permanente e um contexto de mercado específico ao longo de décadas.
Para Wall Street, nem Buffett seria o próximo Buffett se tentasse em 2026.












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