A carta que incendiou Paris: Bernard Arnault nega “fissura” na família e ataca o Le Monde, de seu genro

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Guerra familiar no mercado de luxo. O bilionário Bernard Arnault, fundador e presidente da gigante francesa LVMH, dona de marcas como Louis Vuitton, Dior e Tiffany & Co., que sempre adotou um estilo discreto ao longo de sua carreira, veio a público responder acusações sobre a disputa familiar pela sua sucessão, publicadas pelo jornal francês Le Monde.

O detalhe mais interessante desta história: o Le Monde tem como acionista majoritário Xavier Niel, simplesmente seu genro. Ele é casado com Delphine Arnault, e tem dois filhos com a primogênita de Arnault. Niel também é bilionário e maior acionista da gigante de telecom Vodafone.

Em tom de ironia, Arnault escreveu, em sua conta na plataforma X, sua versão sobre uma série de reportagens realizadas pelo jornal francês. Ele começa dizendo ser o chefe da “última família real da França” (leia a íntegra da carta ao fim da reportagem). E termina negando qualquer fissura familiar por causa do comando do conglomerado.

As reportagens trazem detalhes de uma possível rivalidade entre os cinco filhos de Arnault, de dois casamentos, assim como os atritos entre sua segunda esposa, Hélène Mercier, e Xavier Niel.

O material do Le Monde mostra uma disputa silenciosa entre os cinco filhos de Bernard Arnault — cuidadosamente preparados para sucedê‑lo, mas colocados em posições que os transformam em rivais diretos.

O jornal descreve uma família marcada por mise‑en‑scènes calculadas do patriarca, como reuniões coreografadas e mudanças de agenda de última hora, destinadas a exibir unidade enquanto, na prática, alimentam tensão.

Delphine e Antoine, do primeiro casamento, formam um bloco discreto; Alexandre, Frédéric e Jean, do segundo, outro — separados até na mesa durante entrevistas.

A competição é constante: cada filho tenta provar competência diante do pai, que os convoca para apresentações improvisadas e os coloca em funções estratégicas que se sobrepõem.

O resultado, segundo o Le Monde, é uma dinâmica de rivalidade permanente, onde gestos sutis – a roupa escolhida, o tom da fala, a ordem de entrada numa sala – revelam uma disputa de poder que fragiliza tanto a família quanto o grupo LVMH.

A série “L’Empire Bernard Arnault” foi publicada no Le Monde entre os dias 19 e 24 de julho, resultado de seis meses de investigação.

A resposta ácida e irônica do empresário ao Le Monde foi a primeira incursão na rede social. Na mensagem aberta, ele respondeu sobre suas conexões políticas, e suas propriedades de veículos de comunicação.

“Aparentemente, entre os Arnault, não discutimos, planejamos; não deliberamos, competimos”, escreveu na plataforma. “Ele não nega nada. Isso é o mais importante para nós”, diz Raphaëlle Bacqué, uma das jornalistas do Le Monde que escreveu as reportagens, em entrevista ao jornal americano The Wall Street Journal.

Arnault sempre foi visto como uma figura controversa na França. Seus admiradores o consideram responsável por transformar marcas como Louis Vuitton e Dior em potências globais e por ajudar a consolidar a França como a força dominante na indústria do luxo.

Mas, na visão de críticos, o empresário é um símbolo da desigualdade. Seu rosto apareceu em cartazes durante protestos contra a reforma da previdência do presidente Emmanuel Macron.

Em abril deste ano, durante assembleia geral da LVMH, Arnault, que tem 77 anos, respondeu a um acionista da companhia, ao trazer o tema na reunião, que havia reconduzido à liderança do grupo com 99% dos votos. E sugeriu que ele voltasse a tratar do assunto “daqui a sete ou oito anos”.

O bilionário ainda não definiu publicamente quem será seu sucessor, mas todos os seus herdeiros trabalham para o grupo, e quatro deles integram hoje o conselho de administração. Dois deles, Antoine e Delphine, integram o comitê executivo da LVMH.

Arnault ocupa atualmente a nona posição entre os mais ricos do mundo na lista da Forbes, e a liderança na França, com um patrimônio estimado de US$ 142,7 bilhões. Seu genro está na 183ª posição, com US$ 15,8 bilhões de patrimônio.

Na carta, Arnault afirmou que o luxo é um dos raros setores que pensa em termos de gerações, e não de trimestres, sem falar do contexto macroeconômico desafiador para a sua companhia.

O balanço do segundo trimestre, que foi divulgado pela companhia nesta segunda-feira, 27 de julho, reportou receita de € 19,5 bilhões, com alta de 3%. No acumulado do semestre, o faturamento alcançou € 38,6 bilhões.

Durante muitos anos, a LVMH foi a companhia mais valiosa da Europa. Mas perdeu este posto em setembro de 2023 para a dinamarquesa Novo Nordisk, dona das canetas emagrecedoras Ozempic e Wegovy.

No acumulado de 2026, as ações da empresa de luxo na Bolsa de Paris registram queda de 27,3%. Em 12 meses, a desvalorização é de 4,6%. O valor de mercado da LVMH é de € 226,8 bilhões. Hoje, a companhia mais valiosa da Europa é ASML, que atua no mercado de semicondutores, e vale € 600 bilhões.

Veja a carta de Bernard Arnault, publicada no X, em resposta ao Le Monde:

Obrigado

Ao que parece, sou o chefe da “última família real da França”.

Soube disso lendo o Le Monde, entre duas xícaras de chá. Meus filhos, avisados ​​pelo WhatsApp, perguntaram se isso significava que agora teriam de fazer uma reverência para mim. Respondi que um simples “olá, Monsieur” bastaria, como de costume. Eles caíram na gargalhada. Esse foi, acredito, o melhor momento da semana.

O Le Monde decidiu, então, usar a artilharia pesada: seis meses de investigação, dois jornalistas em tempo integral, seis episódios de página dupla, uma série que terminou na sexta-feira. Isso merece uma palavra, e ela será… obrigado.

Eu não recebia tal tratamento desde a aquisição da Boussac, em 1984. Naquela época, chamavam-me de “O Exterminador”. Prefiro “a última família real”: mais elegante e melhor para as vendas da Dior.

Não ignoro que, ao responder, estou dando a essa série o destaque que ela talvez desejasse: um último episódio, assinado por mim. Que assim seja.

Que isso sirva, pelo menos, para um propósito: poupar a energia de todos aqueles que, em outros lugares, saem à caça de algum escândalo familiar para vender jornal. Eles vão esperar muito tempo.

Continuemos.

Primeiro, soube que meus colegas estavam impecavelmente vestidos e que nenhum deles estava acima do peso. Peço desculpas aos leitores por essa falha na diversidade corporal e tratarei do assunto na segunda-feira com o restaurante da empresa. Também soube que as gravatas Hermès dos visitantes são confiscadas. Isso é falso: nós as deixamos com eles. Simplesmente oferecemos uma segunda gravata, mais discreta, para o elevador. Questão de etiqueta. Acrescento, sob sigilo, que eu mesmo possuo várias.

Depois, ao que parece, sussurro no ouvido de todos os presidentes. Confesso a culpa: Mitterrand, Chirac, Sarkozy, Hollande, Macron. Eu deveria ter ficado na Avenue Montaigne conversando apenas com meu cachorro. Para completar, além de cinco presidentes americanos, também sussurrei para três primeiros-ministros britânicos, dois chanceleres alemães e um Imperador do Japão. Nenhuma linha sobre esses sussurros. Devemos entender que apenas os sussurros franceses são escandalosos? Para um grupo que realiza 75% do seu faturamento fora da Europa, a hierarquia editorial me escapa.

Em seguida, vem a “estratégia de prioridade aos negócios”. Que um grupo que exporta a maior parte de seus produtos fabricados na França inclua o comércio em sua estratégia seria, portanto, uma grande revelação. Aguardo as próximas: a L’Oréal vende produtos de beleza, a Danone interessa-se por alimentos, a Renault fabrica carros, etc. Chegaremos ao Natal.

Mas atenção: a LVMH vender seus produtos é aceitável, mas não em qualquer lugar! Entre todos os grandes exportadores para a China, apenas um, ao que parece, merece ser cobrado quanto à natureza do regime — aquele que leva o luxo francês para lá. A Airbus, por exemplo, com suas 2.200 aeronaves entregues a companhias aéreas chinesas — assim como muitos outros grupos exportadores franceses na China —, aparentemente não despertou a mesma vigilância da sua parte. Continua…

Mais adiante, diz-se que pressiono a mídia. Li esse trecho com atenção especial. Ele aparece em um jornal diário cujo único acionista individual, na vida privada, é meu “genro”. Um dia, alguém terá de me explicar, com calma e sem ironia, a geometria exata da independência editorial francesa. Acho fascinante. Eu pagaria de bom grado por esse treinamento.

Depois, a minha favorita: “amante das artes e de isenções fiscais”. Contribuí com 200 milhões de euros para a reconstrução de Notre-Dame. Estou financiando um instituto de pesquisa em matemática de 50 milhões de euros na Polytechnique. Dei a Paris e à França a Fundação Louis Vuitton e seus 1,5 milhão de visitantes anuais. De fato, financiei a Fundação Louis Vuitton dentro da estrutura aprovada em 2003 pelo Parlamento francês, por proposta do Ministro da Cultura. Em outras palavras: a lei da República convida empresas ou indivíduos a fazerem doações em prol do interesse geral; eu doei, e isso parece suspeito. Se o mecanismo é tão condenável, resta convencer o legislador a revogá-lo. Enquanto isso, assumo a responsabilidade. Ninguém me obrigou.

Por fim, o argumento decisivo: a família. Não se escreve sobre um homem durante seis meses sem acabar se convidando, em pensamento, para sentar à mesa dele. Lá encontrei meus cinco filhos, minha esposa, meus sobrinhos. Eu gostaria de ter visto uma nuance: aquela que permite a cinco personalidades fortes trabalharem na mesma casa sem que tudo se transforme em uma ópera italiana. Com os Arnault, ao que parece, não se discute, trama-se; não se celebra, rivaliza-se. É algo digno de um romance. No mundo real, meus filhos comandam Maisons, formam equipes, tomam decisões e — um sacrilégio — ligam uns para os outros aos domingos. O que, numa família comum, chama-se domingo, aqui é visto como intriga. É uma questão de vocabulário. Nós preferimos os domingos.

Uma palavra mais séria, se me permitem.

O luxo é um dos raros setores que pensa em termos de gerações, e não de trimestres. Um conhaque repousa entre 10 e 50 anos antes de ser comercializado. Um vinhedo é transmitido ao longo de oitenta anos. O savoir-faire de um seleiro ou de um vidreiro leva vinte anos para ser consolidado e três para se perder. Não se administra isso como uma plataforma digital: é preciso preservar, preparar e transmitir. É uma perspectiva de longo prazo….um ofício e uma responsabilidade — tanto mais séria por não me pertencer. Ela pertence ao savoir-faire dos 220.000 colaboradores do grupo, dos 40.000 que trabalham na França, das famílias que dele vivem e das Maisons das quais somos apenas os guardiões.

Sobre tudo isso — centenas de oficinas de produção em solo nacional, milhares de aprendizes formados anualmente nos ofícios artesanais —, a série não julgou necessário escrever uma única frase. Preferiu inventar guarda-roupas e dissecar um jantar em família. É uma escolha editorial. Respeito-a. Em um país livre, pode-se preferir a fofoca às oficinas. É mais instigante; admito prontamente.

Uma última observação sincera para as senhoras Bacqué e Schneider. Sua série anterior terminou abordando os Wertheimer, proprietários da Chanel: “discretos”, “mecenas”, “acompanhando a quarta geração, longe dos holofotes”. Esta, sobre os Arnault: “corte”, “terror”, “rivalidades”. A diferença entre essas duas famílias? Os Wertheimer não as receberam. Nós, sim.

Durante seis meses, vários executivos dedicaram tempo, a seu pedido, para encontrá-las, apresentar seu trabalho e o que é necessário para administrar um grupo global. Minha família fez o mesmo: meus cinco filhos, minha esposa — com dedicação e atenção — e eu mesmo. Todos presentes, todos disponíveis, todos unidos.

Suspeito, muito claramente, que vocês puniram a transparência. Que isso sirva de lição para seus próximos temas.

Uma pergunta, para concluir, com um sorriso. Em 1984, quando assumi a Boussac, seu jornal teria apostado sequer um franco simbólico no fato de que, quarenta anos depois, a França abrigaria o líder mundial do luxo, ostentando a bandeira da excelência francesa em quase 100 países e tendo contribuído com mais de 40 bilhões de euros para os cofres públicos?

Não tenham pressa para responder. Convido-as para um aperitivo na Fundação. Os vinhos serão franceses. Vocês poderão encontrar por lá alguns personagens da sua série. Verão que são pessoas mais apresentáveis ​​do que imaginam. Quanto a mim, fiquem tranquilos: continuarei fazendo as palavras cruzadas do Le Monde, que são excelentes.

Bernard Arnault

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