A corrida pelos remédios para emagrecer cria vencedores e fracassos na bolsa

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O avanço dos medicamentos para perda de peso abriu uma das maiores frentes de oportunidade da indústria farmacêutica, mas também expôs investidores a alguns dos riscos mais elevados do mercado de biotecnologia.

Nesse segmento, um único resultado de estudo clínico pode impulsionar o valor de uma empresa, apagar anos de valorização na bolsa ou até comprometer sua continuidade. Isso porque o desenvolvimento de um novo medicamento segue uma sequência de etapas rigorosas.

Primeiro, o tratamento precisa demonstrar segurança. Depois, deve comprovar eficácia em pacientes e repetir esse desempenho em estudos mais amplos antes de ser avaliado pelas autoridades regulatórias para eventual comercialização, e poucos projetos chegam ao fim desse processo.

Levantamento da Biotechnology Innovation Organization (BIO), que analisou programas de desenvolvimento entre 2011 e 2020, mostra que, de cada 100 medicamentos que entram na fase inicial de testes clínicos, apenas oito conseguem aprovação para chegar ao mercado.

Dos 100 candidatos que iniciam a Fase I, cerca de 52 avançam para a Fase II. Nessa etapa, quando o medicamento passa a ser testado em pacientes, apenas 15 seguem para a Fase III, considerada o estudo decisivo. Em seguida, nove empresas chegam a solicitar autorização de venda aos órgãos reguladores, mas somente oito obtêm aprovação.

A Fase II costuma ser o maior ponto de eliminação dos projetos, justamente porque é quando surgem as primeiras evidências concretas sobre a eficácia do tratamento. Em média, todo o percurso entre o início dos testes clínicos e a aprovação regulatória pode levar cerca de dez anos.

Os ganhadores e os perdedores na bolsa

Essa dinâmica ajuda a explicar por que empresas que perseguem o mesmo mercado podem apresentar desempenhos tão distintos na bolsa, como mostra um levantamento do Yahoo Finance.

As ações da Viking Therapeutics (VKTX), por exemplo, empresa de biotecnologia com sede em San Diego, Califórnia, Estados Unidos, acumula valorização superior a 500% nos últimos cinco anos após seu candidato a medicamento contra obesidade apresentar resultados positivos em um importante estudo de fase intermediária e avançar para a etapa final dos testes clínicos.

No centro do portfólio de produtos da farmacêutica está o VK2735, um agonista duplo dos receptores GLP-1/GIP com potencial para ser o primeiro agonista duplo disponível em formulações oral e injetável.

De acordo com a companhia, o VK2735 demonstrou eficácia convincente em ensaios clínicos e está agora na Fase 3 de estudos para obesidade. “Com suas opções exclusivas de dosagem e administração, ele pode oferecer um tratamento flexível, desde a perda de peso inicial até o acompanhamento contínuo, projetado para auxiliar os pacientes na melhoria da saúde geral”, afirmam.

No caminho oposto, porém, está a Skye Bioscience (SKYE), também sediada em San Diego, que perdeu aproximadamente 99% de seu valor de mercado no mesmo período. O principal candidato da companhia, o nimacimab, não atingiu o objetivo estabelecido quando avaliado isoladamente, provocando uma queda superior a 60% das ações em apenas um pregão. A empresa continua testando o tratamento em combinação com o Wegovy da dinamarquesa Novo Nordisk.

Além da incerteza científica, empresas de biotecnologia em fase clínica enfrentam outro desafio: manter recursos suficientes até a divulgação dos próximos resultados.

Como esses estudos podem consumir anos sem gerar receita, companhias com caixa limitado frequentemente precisam recorrer à emissão de novas ações para financiar suas pesquisas. Esse movimento dilui a participação dos acionistas atuais, reduzindo sua fatia em eventuais ganhos futuros.

O levantamento revela que, para quem investe nesse segmento, algumas questões são determinantes, como qual é o próximo marco clínico, quais são as chances de sucesso e se o caixa disponível será suficiente para levar o projeto até essa etapa.

Fusões e aquisições também garantem retorno aos investidores

As operações de fusões e aquisições também representam uma fonte potencial de retorno para investidores, segundo o estudo. Nem sempre uma empresa de biotecnologia leva seu medicamento ao mercado de forma independente. Em muitos casos, um programa promissor acaba sendo adquirido por uma grande farmacêutica antes da comercialização.

Na quinta-feira, 16, por exemplo, a Eli Lilly anunciou a compra da AtaiBeckley, desenvolvedora de medicamentos psicodélicos, por US$ 2,8 bilhões em dinheiro, além de prever até US$ 1 bilhão adicional condicionado ao cumprimento de marcos clínicos e regulatórios futuros. Na prática, parte do valor da transação depende justamente do sucesso de etapas que ainda serão concluídas.

Segundo Jared Holz, estrategista de ações do setor de saúde da Mizuho, o mercado deve continuar aquecido. “Acredito que estamos em um ritmo em que haverá mais de 30 transações no setor de biotecnologia acima de US$ 1 bilhão”, afirmou durante participação no programa Catalyst, do Yahoo Finance.

Embora esse movimento amplie as possibilidades de retorno para investidores, antecipar qual empresa será alvo de aquisição pode ser tão desafiador quanto identificar o próximo medicamento de sucesso.

No fim, investir em desenvolvedores de biotecnologia exige avaliar simultaneamente o potencial do tratamento, as chances de aprovação nas próximas etapas clínicas e a capacidade financeira da empresa para chegar até elas. Para muitos investidores, distribuir esses riscos por meio de ETFs pode representar uma alternativa menos concentrada do que apostar no sucesso de um único medicamento ou em uma eventual aquisição.

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