A Netflix encerrou o primeiro trimestre de 2026 sem a Warner, mas com uma nova estratégia e gente a menos no conselho. As ações da companhia caíam cerca de 9% após a divulgação do balanço do primeiro trimestre de 2026, nesta quinta-feira, 16, com o anúncio da saída de Reed Hastings do conselho administrativo. Curiosamente, a empresa nunca foi tão lucrativa quanto neste momento.
A receita saltou 16%, para US$ 12,25 bilhões, e o lucro líquido quase dobrou, na casa dos US$ 5,28 bilhões.
É verdade que o salto no lucro tem um componente inusitado: um “xeque-mate” que não aconteceu. Após a Paramount atravessar a negociação pela Warner Bros. Discovery (WBD) com uma oferta hostil de US$ 110 bilhões, a Netflix, que tinha já quase certeza de que seria a nova dona do estúdio centenário, retirou o time de campo. O lucro recorde, portanto, vem mais da taxa de rescisão (termination fee) de US$ 2,8 bilhões, que caiu direto no caixa da empresa, do que pelas estratégias dos primeiros três meses do ano.
Mas a gigante do streaming está longe de se sentir abalada pela perda da Warner. Ou pelo menos é o que quis passar o co-CEO Ted Sarandos durante a entrevista pós-divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026, acompanhada pela EXAME.
“WBD era uma coisa legal de se ter, não necessária. Acredito que o maior risco que tínhamos aqui era perder o foco no DNA da Netflix enquanto estávamos no processo de aquisição”, disse Sarandos. “Como vocês podem ver pelos nossos resultados, nós não perdemos o foco. Historicamente nós somos construtores, não compradores, e sabíamos que havia muito ruído sobre se seríamos habildosos o suficiente para fechar esse negócio. E o que aprendemos, e o que mostramos, é que nosso time está mais do que preparado para desafios como esse.”

Ted Sarandos, co-CEO da Netflix
Rumo a 1 bilhão de pessoas conectadas
Passadas as águas (e mágoas) da Warner, como é de praxe da esrtratégia da empresa, a Netflix já mudou a estratégia. Existem outras prioridades no horizonte, e as outras frentes da companhia além do conteúdo que estão gerando uma rentabilidade interessante.
No anúncio referente aos resultados de 2025, a Netflix anunciou 325 milhões de assinantes globais. No novo balanço financeiro, o novo número de 2026 não foi divulgado — seguindo a estratégia já anunciada da companhia de focar em números maiores, como lucro e receita.
Mas diante dos novos resultados da empresa, que tiveram força não só no conteúdo, mas também na área de podcats e conteúdos ao vivo, os co-CEOs estão mais de olho em reter os assinantes existentes e ampliar o acesso aos novos para atingir a marca dos 1 bilhão de usuários conectados.
“Já informamos que temos 325 milhões de assinantes. Se esse número continuar a crescer, teremos uma audiência que se aproxima de 1 bilhão de pessoas. É um marco empolgante de perseguir e alcançar, claro. Mas mesmo com esse número, ainda temos muito espaço para crescer dentro da casa das pessoas. No caso de TVs inteligentes e outras tecnologias semelhantes, ainda temos 45% de penetração. É um número que queremos crescer ao longo desse ano”, explicou Greg Peters.
A estratégia vai ao encontro da disputa pela audiência com o YouTube, hoje um dos principais concorrentes da Netflix. A plataforma de vídeos do Google, pedra no sapato não só dos streamings como das redes sociais, atingiu o valor de mercado de US$ 550 bilhões em 2025 e mantém 12,5% da audiência de TV nos EUA — contra 7,5% da gigante dos streamings, segundo dados da Nielsen.
No começo deste ano, Peters esteve em São Paulo e concedeu uma entrevista à EXAME. O recado foi claro: “Não buscamos competir com conteúdo gerado pelo usuário, porque não é nesse espaço que vamos ganhar [do YouTube]. Existe o espaço que chamamos de conteúdo profissional”, pontuou o co-CEO. “O que realmente queremos dizer é: quem é ótimo em contar uma história? Queremos competir por eles, mesmo que tenham começado no YouTube ou no TikTok.”

Publicidade, ‘ao vivo’ e podcasts
Para prender a atenção desse 1 bilhão de pessoas, a Netflix entendeu que precisa ir além das séries e filmes tradicionais. No primeiro trimestre de 2026, a empresa colheu os frutos da incursão em eventos ao vivo. O destaque absoluto foi o World Baseball Classic, que quebrou recordes de visualização no Japão com 31,4 milhões de espectadores e se tornou o programa mais assistido da história da plataforma no país.
A meta é clara: criar eventos que gerem conversas em tempo real, algo que o YouTube domina com maestria. “Vimos que conteúdos ao vivo não apenas atraem novos assinantes, mas garantem uma retenção muito maior”, afirmou Peters. Outro exemplo desse sucesso foi a transmissão de BTS: The Comeback Live, que atraiu 18,4 milhões de visualizadores globais.
Somado a isso, a companhia está expandindo seu ecossistema com os video podcasts. A ideia é capturar o tempo de tela do usuário durante o dia e em dispositivos móveis, um hábito comum no YouTube. A empresa anunciou novos programas originais com talentos como Brian Williams e Evan Ross Katz, e aposta que esse formato ajuda a criar uma “fidelidade” que vai além do entretenimento passivo.
A outra maneira de estar a frente, concluiu o conselho da empresa, é o investimento massivo em inteligência artificial.

A guerra, agora, é pela IA
Nitidamente à frente de concorrentes do mesmo setor, a Netflix parou de lutar contra Disney e Amazon na guerra pelo conteúdo. Como noticiou a EXAME no início deste ano, em entrevista com Peters durante passagem do co-CEO no Brasil, a mira agora segue no YouTube e nas Big Techs — especialmente àquelas ligadas à inteligência artificial.
No primeiro trimestre desse ano, a gigante do streaming adquiriu a InterPositive, startup de GenAI fundada por Ben Affleck, para fornecer ferramentas de inteligência artificial generativa aos seus criadores de conteúdo. Enquanto a Paramount tenta digerir a montanha de dívidas e o processo regulatório da Warner, Greg Peters e Ted Sarandos, co-CEOs da Netflix, deixaram claro em São Paulo que a competição agora é pela “atenção total”.
“Com o nosso DNA em tecnologia, nós vemos excelentes oportunidades para incorporar IA em cada parte do nosso negócios. E a IA como um todo tem o potencial de tornar nossa maior área de investimento — o conteúdo — ainda mais impactante”, explicou Peters.
A presença da tecnologia na criação de entretenimento, especialmente para filmes e séries, ainda é motivo de debate na indústria. Nos últimos anos, a maior greve da história dos atores foi motivada, em sua maioria, pelo uso desenfreado da tecnologia sem o conhecimento ou aprovação da classe artísica.
“Acreditamos que são necessários grandes artistas para criar grandes obras de arte. Não pensamos nela para substituir esses criadores, mas para empoderá-los com novas oportunidades. Essa tecnologia que compramos foi criada especificamente para a produção audiovisual para cinema e séries, é diferente do que já existe por aí”, explicou Ted Sarandos.
A iniciativa de Affleck foi fundada em 2022, de fato, para desenvolver soluções para cineastas. A startup desenvolve ferramentas para apoiar equipes em etapas de edição na pós-produção, bem como correção de problemas de continuidade, iluminação, cenário e projetos de animação no processo.
E não é exclusiva da Netflix: já atua em conjunto com empresas como a Coca-Cola, L’Oréal e Johnson & Johnson estão entre os clientes da InterPosivite.












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