A Trump Media & Technology Group, controladora da rede social Truth Social, perdeu seu CEO esta semana. A saída ocorre em meio à forte desvalorização das ações da companhia e reforça o contraste entre a influência política da plataforma, frequentemente usada por Donald Trump para dar declarações públicas, e seus resultados financeiros limitados. Isso também vem ocorrendo com outras empresas associadas ao ecossistema político do presidente .
Devin Nunes deixou o cargo de diretor-presidente da Trump Media sem apresentar explicações detalhadas. O executivo havia assumido a liderança da companhia há pouco mais de quatro anos e recebeu US$ 47 milhões em remuneração referente a 2024, majoritariamente em ações, segundo a Bloomberg.
Para seu lugar, foi indicado interinamente Kevin McGurn, executivo com passagem por empresas de mídia e telecomunicações e ligado a outros negócios próximos à família Trump. “Estou comprometido em gerar valor de longo prazo para os acionistas, ao mesmo tempo em que continuo fortalecendo e ampliando as plataformas Truth Social e Truth+”, disse McGurn em comunicado.
O executivo também ocupa posição de liderança em outro empreendimento ligado ao entorno empresarial da família Trump. Ele é CEO de uma empresa de aquisição de propósito específico (SPAC) da qual Eric Trump e Donald Trump Jr. atuam como conselheiros.
A troca ocorre em um momento delicado para a companhia. Desde o pico de US$ 97,54 em 2022 — impulsionado pelo entusiasmo típico das chamadas meme stocks — os papéis acumulam queda de cerca de 90%, fechando em US$ 9,17 no pregão desta quinta-feira, 22.
Mesmo após o recuo expressivo, o valor de mercado ainda gira em torno de US$ 2,7 bilhões, apesar de a empresa registrar receita anual de apenas US$ 3,7 milhões e prejuízos acumulados de centenas de milhões de dólares.
O desempenho evidencia um paradoxo central do negócio: embora a Truth Social tenha relevância política significativa, especialmente após o retorno de Trump à Casa Branca, essa influência não tem se convertido em geração consistente de receita ou crescimento sustentável da base de usuários. No ano passado, os papéis chegaram a recuar mais de 60%.
A Truth Social foi criada por Donald Trump após seu banimento do Twitter — hoje X — na esteira dos eventos no Capitólio em 2021.
Desde então, a plataforma tem sido usada pelo presidente para anunciar políticas, comentar negociações internacionais e divulgar posicionamentos capazes de provocar oscilações em mercados globais. Ainda assim, essas publicações tendem a se disseminar rapidamente por outras redes, o que reduz o potencial de retenção de audiência e monetização direta.
Na tentativa de ampliar sua atuação, a Trump Media também explorou novas frentes de negócios — incluindo mercados de previsão, criptomoedas, investimentos e até fusão nuclear, por meio de uma combinação planejada com a TAE Technologies —, mas nenhuma dessas iniciativas conseguiu sustentar o interesse dos investidores individuais.
Outro fator que pesa sobre a percepção do mercado é a perda de força do chamado “efeito meme”. Em novembro de 2024, mês da vitória eleitoral de Trump, investidores pessoa física chegaram a comprar mais de US$ 2 milhões por dia em ações da companhia, segundo dados da Vanda Research divulgados pela Bloomberg. Mais recentemente, esse fluxo se inverteu, com vendas líquidas próximas de US$ 7 mil por dia, sinalizando redução relevante do interesse especulativo no papel.
“Nada do que ele faz como presidente tem impacto direto, e eu acho que o lado ‘meme’ da ação praticamente desapareceu”, afirmou Matthew Tuttle, diretor‑presidente da Tuttle Capital Management, à Bloomberg.
O movimento acompanha a trajetória de outras empresas associadas ao universo político ligado ao slogan Make America Great Again (MAGA), que também perderam valor de mercado após o entusiasmo inicial. Entre elas estão a GrabAGun Digital Holdings, a American Bitcoin, a Phunware e a PSQ Holdings — casos que reforçam a avaliação de que capital político nem sempre se traduz em desempenho financeiro consistente.
A Phunware, por exemplo, é uma empresa de software que desenvolveu o aplicativo da campanha presidencial de Donald Trump em 2020 e segue operando com resultados pressionados. Já a PSQ Holdings lançou um marketplace on-line voltado ao público descrito como “americanos amantes da liberdade”, apostando em um posicionamento ideológico como diferencial competitivo — estratégia que ainda enfrenta desafios para se converter em crescimento sustentável de mercado.
Empresas MAGA
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GrabAGun Digital Holdings
O diretor de operações da GrabAGun Digital Holdings vendeu 2.043 ações da companhia no dia 16 de abril deste ano, por cerca de US$ 6 mil, segundo documento apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC) e divulgado pela Investing. A operação ocorreu enquanto os papéis permanecem próximos da mínima de 52 semanas e acumulam queda de 72,5% em 12 meses.
A venda foi realizada para cobrir obrigações fiscais ligadas a ações restritas, reduzindo a participação direta do executivo para 2,5 milhões de ações, de acordo com informações da Investing.
Nos resultados do 4º trimestre de 2025, a empresa reportou receita de US$ 29,6 milhões (+14,1% em um ano), mas lucro por ação de US$ 0,01, abaixo das estimativas. Apesar da expansão da receita, o desempenho das ações segue pressionado.
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American Bitcoin
A American Bitcoin combina expansão operacional com forte queda das ações, evidenciando um descompasso entre fundamentos e percepção de mercado. Segundo dados divulgados em fevereiro de 2026, referentes ao 4T25, a empresa registrou receita de US$ 78,3 milhões, alta de 22% sobre o trimestre anterior, e ampliou suas reservas de Bitcoin em 58%, embora tenha reportado prejuízo líquido de US$ 59,5 milhões e EBITDA ajustado negativo de US$ 77,6 milhões, conforme informações da Investing.
Neste fim de março, conquistou posição entre as maiores companhias abertas detentoras do ativo, com reservas superarando 7.000 BTC, correspondente a cerca de US$ 474 milhões. Os números apontam para um crescimento superior a 35% no ano, mas com queda de mais de 50% das ações em 2026, passando a negociar abaixo de US$ 1 e entrando em território de penny stock, sob risco de pressão de listagem na Nasdaq.
Cofundada por Eric Trump, com participação de Donald Trump Jr. e parceria operacional com a Hut 8, a empresa segue ampliando capacidade e reservas, mas ainda enfrenta resistência de investidores quanto à governança e à volatilidade do setor — o que limita a conversão do crescimento em valorização das ações.
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Phunware
A Phunware passa por uma reorganização estratégica com foco nos setores de hospitalidade e inteligência artificial, após um período de receitas pressionadas. Segundo a Investing, no 4º trimestre fiscal de 2025, a empresa reportou US$ 0,8 milhão em receita, alta de 33% em um ano, com melhora sequencial pelo segundo trimestre seguido, embora a receita total do ano tenha recuado.
Analistas da InvestingPro projetam crescimento de 82% da receita em 2026, apoiado no lançamento de soluções para hotéis, no avanço da plataforma AI Concierge e no aumento dos investimentos comerciais. A companhia também mantém mais de US$ 100 milhões em caixa, o que pode sustentar expansão e eventuais aquisições.
Apesar da melhora recente, o desempenho das ações ainda depende da execução dessa estratégia para consolidar crescimento e recuperar o interesse do mercado.
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PSQ Holdings
A PSQ Holdings registrou forte crescimento de receita em 2025, impulsionado pelo segmento de fintech, embora ainda enfrente desafios operacionais relevantes. Segundo a Investing, a companhia encerrou o ano com US$ 18,2 milhões em receita, alta de 81% em relação a 2024, enquanto a divisão financeira — incluindo PSQ Payments e Credova — avançou 109% no 4º trimestre.
Após os resultados, as ações subiram 16,43% no pré-mercado, e o volume bruto de mercadorias (GMV) cresceu 411%, com redução de US$ 9,7 milhões no prejuízo operacional, sinalizando melhora de eficiência. Ainda assim, o papel permanece bem abaixo da máxima de 52 semanas.
Para os próximos anos, a empresa projeta expansão adicional da receita com foco na infraestrutura fintech e atuação em nichos pouco atendidos, com estimativa de US$ 30,32 milhões em 2026. Ainda assim, persistem desafios como a queda da margem bruta, de 96% para 69%, a redução do caixa operacional e impactos da reestruturação em curso.
Segundo divulgado pela Investing, o CEO Dusty Wunderlich, afirmou que a estratégia inclui ampliar investimentos em inteligência artificial, eficiência operacional e possíveis desinvestimentos em ativos não essenciais para fortalecer a posição financeira no médio prazo.











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