Nova York — Depois de atrair bilionários, gestoras de investimentos e profissionais de tecnologia, Miami se prepara para receber um campus da Carnegie Mellon University (CMU). Financiado com uma doação de Kenneth Griffin, fundador e CEO do hedge fund Citadel, o projeto reforça um movimento que está redesenhando o mercado imobiliário do sul da Flórida.
O aporte faz parte dos US$ 3 bilhões destinados recentemente à universidade, sediada em Pittsburgh, na Pensilvânia — o maior valor já doado a uma instituição de ensino superior americana. Um terço ficará em Pittsburgh. O restante (US$ 2 bilhões) financiará o novo campus da CMU em Miami, na região de Wynwood, conhecida pelos murais e pela arte de rua.
A paixão de Griffin pela cidade não é de agora. Em 2022, ele ganhou manchetes ao transferir a sede da Citadel de Chicago para a Flórida. Até então, era tido como o homem mais rico de Illinois.
O investidor não foi sozinho. A Icahn Enterprises deixou um prédio perto do Central Park para fincar bandeira em Sunny Isles. O mesmo ocorreu com a Elliott Management, que trocou as nevascas nova-iorquinas por uma nova sede em West Palm Beach.
A mudança fez parte da onda de novos residentes que aportaram em Miami durante a pandemia. “Refugiados” de Massachusetts, Nova Jersey e Nova York chegaram em busca de apartamentos maiores, impostos mais atraentes e sol sem fim. A eles se somaram profissionais das big techs californianas, num movimento que contribuiu para esvaziar o centro de São Francisco.
Um relatório da CoStar Group, agência de análise do setor imobiliário americano, revelou que, entre 2019 e 2021, os novos moradores injetaram no sul da Flórida US$ 23 bilhões em renda familiar ajustada, principalmente em Palm Beach e Miami.
Entre 2019 e o primeiro trimestre de 2023, a média dos preços de aluguel subiu mais de 29% no sul da Flórida, enquanto no restante do país o aumento foi de 17%. Mesmo com uma desaceleração dos preços no segundo trimestre de 2023, mais de 84% dos imóveis em construção eram apartamentos de luxo.
Marina Kessler, coproprietária da Lumer Real Estate, imobiliária boutique que opera em Miami e arredores, acompanhou essa transformação. “Quando a Miami Art Basel, evento anual que reúne galerias de arte internacionais, foi inaugurada em 2002, aquela era a única semana do ano em que vivíamos em uma espécie de mini-Nova York”, diz ao NeoFeed.
Segundo ela, o movimento deixou de depender do calendário da feira. “Bairros como o Design District só floresciam durante a semana do evento. Hoje, eles têm vida o ano todo, e muitas iniciativas de revitalização foram facilitadas pelo governo”, completa Marina, que celebra a chegada da universidade.
Fugindo dos impostos
O campus da CMU Miami terá área equivalente a 20 campos de futebol e abrigará mais de 3,5 mil estudantes de graduação, mestrado e doutorado, além de quase 300 professores e cerca de 600 funcionários. A construção está prevista para começar em 2027, com os primeiros alunos chegando no segundo semestre de 2028.
Concebido para integrar diferentes áreas do conhecimento, o espaço reunirá laboratórios de pesquisa de empresas e estúdios de venture capital, aproximando estudantes e professores do setor privado e da comunidade local.
No anúncio oficial, Griffin destacou a contribuição da universidade para a liderança americana. “A Carnegie Mellon deu contribuições profundas para a liderança dos Estados Unidos em ciência, engenharia, tecnologia, artes e humanidades”, afirmou. “A CMU Miami coloca nossa cidade no centro do avanço científico e humanístico e amplia o alcance e o impacto internacional da universidade.”
Griffin, de 57 anos, não é cria da casa: formou-se em Harvard e, embora tenha feito doações à sua alma mater — recentemente suspensas por questões políticas —, nenhuma alcançou US$ 3 bilhões. Na Carnegie Mellon, que já mantém campi no Catar e em Ruanda, ele encontrou disposição para expandir o ensino e a pesquisa pelo mundo.
Do bilhão destinado a Pittsburgh, metade financiará a Escola de Ciências da Computação da CMU, uma das principais do país — agora rebatizada de Kenneth C. Griffin School of Computer Science.
Conforme o jornal The New York Times, os formandos em engenharia da computação pela CMU estão entre os mais bem pagos, com remuneração média de US$ 268 mil por ano nos primeiros empregos.
Em suas doações, o magnata deixou de fora o mestrado em Ciência da Computação Financeira que a CMU oferece em Wall Street.
Segundo o New York Post, a decisão pode estar ligada a um episódio envolvendo o prefeito Zohran Mamdani, que gravou, em frente ao prédio onde o bilionário tem um apartamento, um vídeo para anunciar o novo imposto “pied-à-terre”, voltado a imóveis usados como segunda residência.
A propriedade, em frente ao Central Park, tem 2.230 metros quadrados e foi comprada em 2019 por US$ 238 milhões.
Rotina de Nova York
Enquanto isso, em Miami, os hábitos de consumo mudam. “Além de inflacionar serviços diários, como faxina e manicure, os nova-iorquinos mudaram o modus operandi da cidade”, diz Marina. “Anos atrás, ninguém precisava reservar mesas em restaurantes. Agora ninguém sai de casa sem fazer reservas com milênios de antecedência.”
Um incorporador americano que atua em projetos de larga escala em Miami, ele mesmo ex-nova-iorquino, cita outro exemplo. “Quem um dia imaginaria uma filial do lendário restaurante Pastis, de Manhattan, abrindo em Wynwood? Esse é um dos reflexos dos nova-iorquinos nas bandas de cá”, diz ao NeoFeed.
No entanto, ele adverte que os novos residentes, mesmo na rota dos furacões, tendem a tapar o sol (e o vento) com a peneira em relação ao custo do seguro residencial.
“Muitas seguradoras deixaram a Flórida. As restantes não cobrem todos os estragos causados por inundações. Cobrem apenas danos causados por ventos e furacões”, disse ele.
O custo, explica, também reflete acontecimentos longe da região. “Estas seguradoras dependem do setor de seguros globais, constantemente inflacionado e impactado por eventos internacionais, como tsunamis e terremotos. Este custo é repassado aos donos de residências”, alerta o incorporador. “Todos sabem que um dia uma inundação ou um furacão acontecerá. Só não se sabe quando.”
Outro inimigo crônico das seguradoras é a epidemia de fraudes que assola a região, sobretudo entre os profissionais que reformam tetos e telhados. Eles inflacionam o orçamento, empilhando litígios sobre a mesa dos advogados.
O incorporador lembra ainda que a torre residencial que despencou em Surfside, matando 98 pessoas em 2021, fez com que novos códigos de construção fossem implantados, tornando mais caro construir e reformar torres no litoral. “Este custo é dividido na taxa de condomínio”, afirma. “Mas imagine assegurar casas onde vive apenas uma família.”











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