O Ibovespa fechou o dia em queda pela segunda sessão consecutiva. Após a forte correção de 1,65% na véspera, o índice caiu mais 0,78%, aos 191.378 pontos, nesta quinta-feira, 23, próximo da mínima do dia de 190.929 pontos, e distante da máxima de 193.346 pontos.
O dólar, por sua vez, firmou na alta frente ao real e avançou 0,58%, cotado a R$ 5,003, voltando a ficar acima de R$ 5, 11 dias depois de ter rompido esse patamar para baixo pela primeira vez em mais de dois anos. A moeda americana oscilou entre R$ 4,94 na mínima e R$ 5,017 na máxima ao longo da sessão.
O movimento refletiu o aumento da aversão a risco no mercado global, com os novos desdobramentos da guerra no Oriente Médio pressionando ativos mais sensíveis ao cenário externo. Ao longo da tarde, o Ibovespa ampliou perdas, enquanto o dólar apagou o movimento de queda observado mais cedo.
As bolsas de Nova York também encerraram em baixa nesta quinta-feira, acompanhando a deterioração do humor global. O Dow Jones caiu 0,36%, o S&P 500 recuou 0,41% e o Nasdaq perdeu 0,89%, em meio à escalada das tensões geopolíticas e à alta do petróleo.
O tipo Brent, referência mundial, subiu 4,29%, com o barril a US$ 106,34. Já o WIT, mais usado nos Estados Unidos, subiu 4,36%, a US$ 96,99.
O que pesou sobre o Ibovespa e levou o dólar a subir?
A piora do sentimento ocorreu após a imprensa israelense repercutir a suposta saída do presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf, das negociações diplomáticas com os EUA. Considerado uma figura mais moderada dentro do regime iraniano, seu afastamento reduz as perspectivas de um acordo entre Washington e Teerã.
Mais cedo, Ghalibaf afirmou que um cessar-fogo completo só faria sentido se não houvesse violação do cerco marítimo e do que chamou de “sequestro da economia mundial”.
Em publicação nas redes sociais, o líder iraniano também condicionou a trégua ao fim das ações militares israelenses em todas as frentes. “A reabertura do Estreito de Ormuz não é possível com uma violação flagrante do cessar-fogo”, escreveu, acrescentando que os adversários não alcançarão seus objetivos por meio de pressão militar ou intimidação.
O cenário se agravou após novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou ter ordenado à Marinha americana que “atire e destrua qualquer embarcação” que esteja lançando minas no Estreito de Ormuz. Segundo Trump, não deve haver hesitação na resposta.
Trump também determinou a intensificação das operações de limpeza de minas na região e pressionou o Irã a reabrir a rota marítima, considerada estratégica para o transporte global de petróleo. O estreito está praticamente bloqueado desde o início do conflito, no fim de fevereiro.
Como parte da escalada, os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval a portos iranianos. O Comando Central americano informou que ao menos 31 embarcações foram forçadas a mudar de rota ou retornar aos portos, evidenciando o impacto direto sobre o fluxo marítimo na região.
Cenário é de incertezas
Pela manhã, o Ibovespa chegou a abrir em leve alta e o dólar recuava, chegando a renovar mínimas em mais de dois anos. No entanto, o quadro se inverteu ao longo do dia, acompanhando a piora do cenário externo.
Para Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank e especialista em câmbio, o comportamento do real ao longo do dia refletiu tanto fatores domésticos quanto externos — com uma virada clara no fim da sessão.
“Vimos o real hoje, o dia todo, praticamente ganhando força frente ao dólar, enquanto outras moedas emergentes estavam de lado ou até se desvalorizando. Isso mostra a entrada de fluxo especulativo para o Brasil, muito ligada à nossa atratividade de juros. A gente tem uma taxa elevada, que deve permanecer alta por mais tempo, segundo o Banco Central e os indicadores de inflação”, afirma.
No fim da tarde, porém, houve uma desaceleração desse movimento e o dólar ganhou força muito por conta da guerra, de acordo com Quartaroli.
“As incertezas são grandes, não se sabe se o cessar-fogo vai se sustentar ou não, e isso traz volatilidade. É isso que vimos agora no fim do dia. Se esse comportamento vai continuar, depende muito das próximas comunicações sobre o conflito”, diz a economista.
Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, também destaca que a intensificação das perdas ocorreu justamente com a piora das expectativas geopolíticas. “O mercado engatou essa queda mais acentuada na parte da tarde, quando surgiram notícias de que as tensões entre Irã e Estados Unidos poderiam ser retomadas. Nós seguimos sob esse driver”, afirma.
Segundo Mollo, o cenário tende a permanecer instável. “O mercado até avalia a possibilidade de acordo, mas o que é certo é que a volatilidade está contratada e esse período deve ser bem turbulento. Quando há mais chance de acordo, petroleiras caem, bolsa sobe, dólar cai e juros cedem. Quando aumenta o risco de prolongamento da guerra, o movimento se inverte”, diz.
Bancos e Vale pesam
Apesar da perspectiva de rotação de capital para mercados emergentes diante de frustrações com resultados de big techs nos Estados Unidos, o cenário doméstico segue pressionado pelo ambiente externo.
As principais blue chips operaram em queda, com destaque para Vale e grandes bancos. A mineradora (VALE3) caiu 1,43%, assim como Itaú (ITUB4) que tombou quase 2%, acompanhando pelo Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3). Os demais bancos como BTG (BPAC11) e Santander (SANB11) também recuaram 1,72% e 0,83%, respectivamente.
Nem mesmo a alta da Petrobras (PETR3 e PETR4), que subiu 1,35% e 1,13%, respectivamente, foi suficiente para aplacar as perdas.











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