O Pix tirou 70 milhões de brasileiros do papel-moeda. O próximo passo é o crédito

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O dinheiro em espécie tem um defeito que não aparece no bolso: ele não deixa história. Pense na vida de quem paga e recebe só em dinheiro vivo. A fila da lotérica que consome a manhã de trabalho. O caixa do dia voltando para casa na mochila. A poupança guardada debaixo do colchão. E o custo mais cruel de todos é a invisibilidade.

A diarista que recebe em notas no fim da semana e o microempreendedor que junta a receita do dia podem ter uma vida financeira intensa e organizada, mas, para o sistema financeiro, essa vida nunca existiu. Sem registro, não há histórico; sem histórico, não há score; sem score, não há crédito.

Os meios de pagamento tiraram milhões de brasileiros dessa condição em três ondas. A primeira foi a dos cartões de crédito, débito e pré-pago, a partir da estabilização da economia brasileira. A segunda foi a das contas digitais, que ajudaram a levar a bancarização de 56% para 84% dos adultos em uma década, segundo o Global Findex, levantamento do Banco Mundial que acompanha o tema no mundo inteiro.

A terceira onda foi o Pix, no qual, segundo o Banco Central, cerca de 70 milhões de brasileiros fizeram a primeira transferência eletrônica da vida. Pare um instante nesse número. É um terço do país. A tese deste artigo é direta: o Pix resolveu a primeira parte da inclusão financeira, a do acesso e do pagamento. A segunda, a do crédito, ainda está em andamento.

E nenhum caminho é tão óbvio quanto o Pix para completá-la. Ele já está em praticamente todas as contas do país, não custa nada para quem paga e virou o gesto de pagamento mais praticado pelo brasileiro. A segunda parte da inclusão não precisa abrir uma estrada nova até essa população. A estrada existe, e ela já a percorre todos os dias.

O Brasil saiu do papel-moeda mais rápido que seus vizinhos

A velocidade dessa transição fica evidente na comparação regional. O Global Payments Report 2026, da Worldpay, mostra que o dinheiro em espécie respondia por 12% do valor transacionado nos pontos de venda do Brasil em 2025, o menor índice da América Latina. No Chile, são 16%; na Argentina, 17%; no Peru, 30%; na Colômbia, 32%; no México, 40%. A média regional, de 23%, segue bem acima da mundial, de 14%. E essa média mundial já carrega os extremos do norte da Europa.

Na Noruega, o banco central do país estima que notas e moedas respondem por apenas 3% a 4% das transações. A América Latina ainda é uma região de dinheiro vivo. O Brasil está deixando de ser, já opera abaixo da média do mundo e caminha na direção do pelotão que praticamente aposentou o papel-moeda.

O mesmo relatório dimensiona o que ocupou esse espaço: os pagamentos de conta a conta, puxados pelo Pix, chegaram a 42% do e-commerce e a 34% do valor transacionado no varejo físico em 2025. Em julho, a avaliação do sistema financeiro brasileiro publicada pelo FMI em conjunto com o Banco Mundial tratou o Pix como instrumento de inclusão financeira, de concorrência e de digitalização do mercado bancário. E o reconhecimento não veio só dos organismos oficiais.

No mesmo mês, o Nobel de Economia Paul Krugman classificou o Pix como um dos sistemas de pagamento digital mais bem-sucedidos do mundo e, ao comentar as tarifas americanas, perguntou por que seria injusto um país oferecer aos seus cidadãos uma maneira melhor de fazer compras e pagar contas. Não é pouco para um trilho que completa seis anos em novembro.

A bancarização avançou, a inclusão não

Os números domésticos contam a mesma história com mais detalhe. O Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, mostra que 96,4% dos adultos brasileiros têm conta bancária ou de pagamento e que 88% são usuários ativos do sistema financeiro. Somados os que não têm conta e os que têm mas não a movimentam, cerca de 21 milhões de adultos seguem de fora.

Eles estão em todo o país, mas alguns traços aparecem com mais frequência nesse grupo: o trabalho sem vínculo formal, a idade mais avançada e, em termos proporcionais, a concentração maior nas regiões Norte e Nordeste. É a última milha do acesso, e é a mais difícil de percorrer.

O próprio relatório, porém, desloca a régua. Com o acesso praticamente universal, a discussão que o regulador propõe agora é sobre a qualidade do uso, e é aí que o quadro muda de figura. Dos cerca de 175 milhões de adultos com relacionamento no sistema, cerca de 130 milhões têm alguma linha de crédito disponível. No mesmo levantamento do Banco Mundial, apenas 4 em cada 10 adultos brasileiros declaravam ter cartão de crédito em 2021.

O próprio Banco Central trabalha com esse retrato. Ao lançar o Pix Automático, em junho de 2025, o presidente Gabriel Galípolo estimou em 60 milhões o número de pessoas sem cartão de crédito no país, e o diretor Renato Gomes lembrou, na mesma ocasião, os consumidores excluídos do comércio eletrônico por só terem uma conta ou por terem um limite pequeno.

Quem não tem cartão não assina nem um serviço de streaming. São medições diferentes, que não devem ser somadas, mas todas apontam na mesma direção: ter conta deixou de ser o problema. Ter crédito adequado, não.

O crédito do varejo não muda, o trilho sim

Para entender por que o crédito é o próximo capítulo, vale lembrar quem sempre financiou o consumo neste país: o lojista. Foi a caderneta de fiado, com o dono do armazém anotando o que o freguês levava. Foi o carnê, o crediário, o cheque pré-datado, o parcelado sem juros. O crédito do varejo nunca mudou de natureza. O que muda, de geração em geração, é o trilho que carrega esse crédito.

E o Pix tem uma característica que nenhum trilho anterior teve: ele não pede relacionamento na entrada. O fiado pedia que o dono conhecesse o freguês. O cheque pedia conta bancária. O cartão pede um limite aprovado. O Pix pede apenas uma conta, que hoje praticamente todo adulto brasileiro tem.

Esse consumidor, agora digital, deixa um rastro de pagamentos que não existia. É esse histórico que, com o consentimento do cliente, permite à empresa que concede o crédito, seja o próprio varejista, seja a instituição financeira ou fintech parceira que aparece no momento do pagamento, avaliar de um jeito diferente: pelo comportamento real de compra e de pagamento, em vez do score que essa pessoa nunca pôde construir. E a aposta por trás desse desenho vai mais longe, financiando uma compra específica, a geladeira, o tênis, em vez de abrir um limite para gastar onde quiser.

Crédito amarrado a uma transação é mais fácil de dimensionar dentro do orçamento de quem toma e, na minha leitura, mais difícil de virar bola de neve quando se observa a dívida das famílias brasileiras. Para quem nunca teve limite, essa diferença não é técnica: é a diferença entre entrar ou não no crédito formal. E até o calendário das parcelas pode ser redesenhado sobre esse trilho, assunto que merece artigo próprio.

A demanda existe, e o obstáculo também. Um estudo da PiniOn divulgado em julho aponta que 74,4% dos entrevistados dizem que o parcelamento via Pix viabilizou compras que não conseguiriam fazer por outros meios, mas só 12,5% já usaram; 23% temem perder o controle financeiro e 19,8% temem golpes.

O dado pede leitura cuidadosa. Pesquisa da CNDL com o SPC Brasil, por exemplo, aponta que 38% dos consumidores já usaram ou experimentaram o parcelamento via Pix, o triplo do número anterior; a redação da pergunta, que inclui a experimentação, e as diferenças de amostra explicam boa parte da distância.

A mensagem central, porém, resiste nas duas medições. A percepção de valor corre à frente da confiança. Fechar essa distância é tarefa de desenho de produto e de transparência, não apenas de comunicação. Foi assim com o cartão, foi assim com o próprio Pix: toda novidade em pagamentos depende de uma única coisa, a confiança de quem usa.

Quem está mais perto dessa população é o varejo

O elo que falta nessa história não é um banco: é o balcão. Quem vende para o brasileiro sem cartão é o mercadinho, a loja de material de construção, a farmácia do bairro. Pesquisa do Sebrae indica que o Pix já é a principal forma de recebimento para quase 6 em cada 10 donos de pequenos negócios; esse lojista conhece o trilho, confia nele e o vê funcionar no caixa todos os dias.

O crédito nesse trilho é um segundo capítulo, e vale ser preciso sobre o que muda. O trilho é o mesmo do Pix à vista; o produto, não. Numa venda parcelada, o dinheiro chega ao lojista conforme o arranjo escolhido: quem concede o crédito por conta própria recebe no ritmo das parcelas e carrega o risco de cada uma; quem trabalha com uma instituição parceira transfere a ela o risco e, em geral, negocia receber o valor de uma vez.

O que o trilho garante não é o prazo do repasse. É alcançar o cliente que o cartão não alcança e converter a venda no momento em que ela acontece. Para quem vende, isso quer dizer uma coisa só: mais cliente comprando. Para quem compra, é parcelar sem depender de um limite que nunca chegou.

O varejo brasileiro sempre esteve mais perto dessa população na hora de conceder crédito; mudou o instrumento, não o papel. E o caminho já percorrido merece ser comemorado. Em pouco mais de cinco anos, uma multidão que vivia do papel-moeda passou a pagar, receber e deixar história no sistema financeiro, um avanço que muitos países ainda perseguem.

O próximo capítulo é transformar essa história em crédito que caiba na vida de quem a escreveu. Ele já começou, e o varejo, como em todas as gerações anteriores do crédito ao consumo, está na primeira fila.

*Edson Santos é fundador e sócio da Colink, conselheiro, advisor e investidor-anjo, com mais de 26 anos de experiência em meios de pagamento e serviços financeiros. É autor de Do Escambo à Inclusão Financeira e coautor de Payments 4.0 — As forças que estão transformando o mercado brasileiro. Seu novo livro, Trilhos Invisíveis, está no prelo.

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