O plano do JP Morgan para tirar investidor do ‘Ibovespa de 20 anos atrás’

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Quando o JP Morgan decidiu transferir sua operação local de fundos para o Santander Asset Management, em 2017, a mensagem era de que disputar espaço no mercado brasileiro de fundos tradicionais fazia pouco sentido para uma gestora cuja especialidade estava em outro lugar. Oito anos depois, o banco estadunidense está de volta, mas com uma estratégia completamente diferente.

Em vez de competir com os grandes bancos em produtos atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI) ou à renda fixa doméstica, o JP Morgan, que encerrou o ano passado com US$ 4,2 trilhões em ativos sob gestão, quer convencer o investidor brasileiro a olhar para um mercado que, em sua avaliação, ainda permanece praticamente inexplorado: o das empresas globais de tecnologia.

“Eu não vou competir com os bancos locais. Quero ser o banco global do brasileiro”, afirmou Giuliano de Marchi, CEO do JP Morgan Asset Management para a América Latina, durante encontro com jornalistas nesta terça-feira, 4, em São Paulo.

O primeiro movimento dessa nova aposta do banco ocorreu em fevereiro antes mesmo de a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) concluir a regulamentação dos ETFs ativos no país. Amparado por uma autorização específica do regulador, o JP Morgan estreou na B3 com o JEPI39, primeiro BDR de um ETF de gestão ativa listado na bolsa brasileira.

O produto replica o JPMorgan Equity Premium Income ETF (JEPI), estratégia focada em geração de renda recorrente que administra cerca de US$ 45 bilhões e é a maior da categoria no mundo.

Agora a asset reforça a estratégia para o país com o lançamento do JTEK39, o segundo ETF ativo da gestora listado nesta terça na controladora da Bolsa de Valores do Brasil.

Mais do que lançar um novo ETF, o JP Morgan aproveitou o evento para apresentar sua leitura sobre o futuro da indústria de investimentos. Na avaliação da gestora, o investidor brasileiro ainda tem uma exposição limitada a ativos internacionais, cerca de 1% do patrimônio financeiro está aplicado no exterior, ante aproximadamente 50% no Chile, 40% na Colômbia e 35% no México.

Ao mesmo tempo, a indústria de ETFs ganha escala no Brasil. O patrimônio desses produtos na B3 já alcança cerca de R$ 126 bilhões, enquanto o mercado global soma mais de US$ 23 trilhões em ativos. A expectativa do banco é que esse volume chegue a US$ 35 trilhões até 2030, impulsionado principalmente pelos ETFs ativos, que crescem em um ritmo mais de duas vezes superior ao dos produtos passivos.

Diferentemente dos ETFs passivos, que apenas replicam um índice de referência, como o Nasdaq ou o S&P 500, os ETFs ativos permitem que o gestor escolha os ativos da carteira e ajuste as posições ao longo do tempo conforme sua visão de mercado. Na avaliação do JP Morgan, esse modelo busca combinar a transparência, a liquidez e o custo mais baixo característicos dos ETFs com a flexibilidade da gestão ativa para identificar empresas que ainda não ganharam peso nos grandes índices globais.

A Comissão de Valores Mobiliários deve avançar na atualização das regras para esses fundos de índice com diferenciação de produtos, mas a conclusão está prevista apenas para 2027. Segundo De Marchi, o banco passou anos conversando com a CVM até obter uma autorização específica do colegiado para listar seus ETFs ativos no Brasil e, com a isenção, conseguiu sair na frente.

“Foi simplesmente porque eu não podia fazer antes. Quando a CVM permitiu, nós listamos”, disse o executivo.

A analogia ‘do CD ao Spotify’

Para explicar por que acredita que os ETFs ativos podem mudar a indústria, o CEO do JP Morgan Asset Management para a América Latina recorreu a uma comparação fora do mercado financeiro. Segundo o executivo, investir em um fundo tradicional hoje é como “ouvir música em um CD”. Já os ETFs funcionariam como o Spotify.

“Antes você precisava pegar o CD, colocar para tocar e esperar. Hoje você aperta um botão no celular e escuta a música na hora. Com investimentos é a mesma coisa”.

A analogia resume a principal diferença entre os dois veículos. Enquanto um fundo tradicional calcula sua cota apenas ao fim do pregão, um ETF é negociado em Bolsa durante todo o dia, com transparência sobre a carteira e custos menores.

De Marchi acrescenta que um ETF equivalente costuma ser cerca de 30% mais barato do que um fundo tradicional porque elimina parte da estrutura operacional necessária para distribuir fundos.

A aposta é encontrar os vencedores antes dos índices

De fato, no Brasil, os ETFs passam por uma onda que triplicou de tamanho. O volume aplicado nesses produtos no país saiu da casa dos R$ 45 bilhões em 2024 e para alcançar o patamar atual de R$ 126 bilhões. Ao todo são 870 mil investidores nesse tipo de produto, segundo dados da B3, um número que cresceu 35% em apenas um ano.

Para se diferenciar no mercado, o lançamento do JTEK39 também representa uma mudança em relação aos ETFs mais conhecidos pelos investidores brasileiros. Enquanto um ETF tradicional apenas replica um índice, o novo produto permite que os gestores alterem continuamente a carteira para tentar superar o mercado.

O fundo investe em empresas globais do setor, em que cerca de 70% do portfólio está em tecnologia pura e os outros 30% em “tech enablers”, empresas de outros setores, como saúde ou seguros, cujo motor de crescimento é a tecnologia e a inteligência artificial.

Mas a ideia, segundo Isabela Nunes, diretora comercial do JP Morgan Asset Management, não é simplesmente investir nas chamadas Sete Magníficas. “O nosso grande desafio é entender quem serão os vencedores de 2030”, afirmou.

Para ilustrar por que a gestão ativa pode fazer diferença em um setor de rápidas transformações, Nunes aponta que a liderança da indústria de tecnologia muda a cada ciclo de inovação.

Nos anos 1980, a maior empresa do setor era a IBM, avaliada em cerca de US$ 38 bilhões. Quatro décadas depois, contudo, esse posto passou para a Apple, que atingiu US$ 2,2 trilhões em valor de mercado em 2020 e hoje supera US$ 4 trilhões. Para a executiva, essa sucessão de líderes reforça a importância de identificar quem serão os próximos vencedores, em vez de concentrar a carteira apenas nas gigantes atuais “óbvias”.

“Quando falamos de tecnologia vemos essas ondas que acontecem a cada 10, 15 anos. Em 1980 eram mainframes, depois passa para computador pessoal, internet, nuvem, inteligência artificial. Então são são ondas de tecnologia que acontecem, e o nosso grande desafio é entender quais são, quem serão os vencedores, qual é a próxima onda, quem serão os vencedores de 2030″, disse a diretora comercial.

A gestora também busca reduzir a concentração nas gigantes americanas e ampliar a exposição a empresas menos conhecidas, incluindo fabricantes de semicondutores, infraestrutura energética e fornecedores ligados à cadeia de inteligência artificial. Como exemplo, Nunes citou a Nvidia. Segundo a executiva, o JP Morgan começou a investir na companhia em 2016, quando o mercado ainda a via principalmente como uma fabricante de chips para videogames.

Imobilismo do mercado brasileiro

A defesa da internacionalização veio acompanhada de uma crítica ao mercado de capitais brasileiro.

Segundo dados apresentados pela gestora, tecnologia representa apenas cerca de 1% do Ibovespa. Já as cinco maiores empresas da Bolsa permanecem praticamente as mesmas de duas décadas atrás, é o caso de Petrobras, Vale, Itaú, Bradesco e Ambev, com a B3 surgindo como a principal novidade.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, as maiores companhias mudaram completamente de perfil, impulsionadas por empresas ligadas à tecnologia e, mais recentemente, à inteligência artificial.

“Hoje o Brasil é muito forte em commodities e financeiro, mas extremamente carente em tecnologia”, afirmou De Marchi. Na visão do banco, isso faz com que o país participe da revolução da inteligência artificial apenas como consumidor das ferramentas, sem capturar boa parte da riqueza criada por esse ciclo de inovação.

A barreira não é o investidor

Apesar do otimismo, o JP Morgan reconhece que a principal dificuldade para expandir os ETFs ativos talvez não esteja no investidor, mas na própria indústria de distribuição.

Hoje, boa parte dos assessores é remunerada por rebates pagos pelos fundos tradicionais. Já os ETFs se encaixam melhor em um modelo de cobrança por consultoria, o chamado fee based, reduzindo os incentivos para distribuição. “O investidor ainda está aprendendo sobre ETFs, mas os distribuidores também”, afirmou o CEO do JP Morgan Asset Management para a América Latina.

A gestora acredita, porém, que a mudança será gradual, acompanhando o que já ocorreu nos Estados Unidos após a regulamentação dos ETFs ativos em 2019.

Enquanto isso, aposta que a democratização será um dos principais argumentos para atrair investidores.  Qualquer pessoa poderá comprar uma cota do JTEK39 na B3 por cerca de R$ 50 e pagar a mesma taxa de administração de 0,65% cobrada de grandes investidores institucionais no exterior.

“O pequeno investidor terá acesso exatamente ao mesmo produto que grandes fundos de pensão globais”, disse Isabela Nunes.

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