Rentabilidade do Tesouro dos EUA é maior em 19 anos: brasileiro pode investir?

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A rentabilidade dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos atingiram o maior patamar em quase duas décadas e recolocou a renda fixa americana no radar de investidores ao redor do mundo, inclusive dos brasileiros.

Nesta quinta-feira, 23, o rendimento do Treasury de 10 anos subiu para 4,70%, enquanto o título de 30 anos avançou para 5,165%, permanecendo próximo do maior nível desde a crise financeira global de 2007, conhecida pelo estouro da bolha imobiliária nos EUA, subprime.

O movimento ocorre em um momento de pressão sobre os juros globais de longo prazo e aumenta a atratividade dos chamados Treasuries, como são chamados os títulos emitidos pelo Tesouro americano, considerados os ativos de renda fixa mais seguros do mundo.

Desta vez, porém, a alta dos rendimentos ganhou um novo componente. Além das preocupações tradicionais com inflação, política monetária e petróleo, investidores passaram a olhar com atenção para o aumento das emissões de dívida das gigantes americanas de tecnologia, as big techs.

A mudança de percepção ocorreu após os balanços de Alphabet (GOOGL) e Tesla (TSLA) mostrarem que o ritmo recorde de investimentos em inteligência artificial começou a pressionar a geração de caixa das empresas.

Embora ambas tenham apresentado crescimento de receita, o mercado reagiu negativamente ao fluxo de caixa livre negativo registrado no segundo trimestre, levantando dúvidas sobre a necessidade de um volume cada vez maior de financiamento para sustentar os investimentos em infraestrutura de IA.

No mercado de renda fixa corporativa, o reflexo foi imediato. O rendimento do bond da Alphabet com vencimento em 2060 subiu de 5,840% para 5,924%, enquanto os Treasuries de longo prazo também avançaram.

Para parte dos participantes do mercado, a coincidência entre a deterioração do humor em relação às big techs e a alta das taxas dos títulos públicos americanos mostra que os investidores passaram a exigir retornos maiores para financiar tanto o governo americano quanto empresas que ampliam seus investimentos em inteligência artificial.

Em meio a essa desconfiança, o grupo das sete maiores empresas de tecnologia do país, conhecido como “Sete Magníficas”, viveu nesta quinta, sua pior sessão em valor de mercado desde as tarifas comerciais em abril de 2025. Juntas, as companhias perderam quase US$ 890 bilhões em capitalização, o equivalente a R$ 4,5 trilhões.

Em paralelo, os Treasuries voltaram a oferecer remunerações próximas de 5% ao ano em dólar, patamar que não era visto havia quase duas décadas e que reacendeu o interesse de investidores que buscam diversificação internacional.

O que são os títulos do governo americano?

Os Treasuries são títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos para financiar a dívida pública do país. Na prática, funcionam de forma semelhante ao Tesouro Direto brasileiro, em que o investidor empresta recursos ao governo americano e recebe uma remuneração em troca.

Considerados referência para o mercado financeiro global, esses papéis servem como taxa livre de risco para precificação de ativos em todo o mundo. Por isso, quando seus rendimentos sobem, o efeito costuma ir muito além da renda fixa, influenciando desde o custo de crédito até o desempenho das bolsas.

Para o investidor brasileiro, há uma diferença importante em relação ao Tesouro Direto local. Além da remuneração do título, a aplicação também oferece exposição ao dólar. Isso significa que o retorno final dependerá tanto da rentabilidade do Treasury quanto da variação cambial, o que faz desses papéis uma alternativa de diversificação e proteção para carteiras concentradas em ativos domésticos.

O brasileiro pode investir nos treasuries

O caminho para investir nos títulos dos EUA começa pela abertura de conta em uma plataforma com acesso ao mercado americano. Depois disso, o investidor realiza uma remessa internacional, convertendo reais em dólares, e passa a poder comprar os títulos diretamente.

O mercado de lá também ainda exige um valor mínimo mais elevado. Para investidor no Tesouro Reserva, recém-lançado, por exemplo, o investidor precisa dispor de, no mínimo, R$ 1.

Já nos treasuries, tanto a Avenue quanto Nomad afirmam que, hoje, o investimento direto costuma exigir cerca de US$ 1 mil por título, o que equivale a R$ 5.079 pela cotação desta sexta-feira, 24, com o dólar a R$ 5,080.

“Ainda não existe mercado fracionado amplamente disponível no Brasil para Treasuries. Então, na prática, o mínimo gira em torno de US$ 1.000”, afirma Shahini.

Paiva destaca que o mercado de bonds historicamente sempre foi mais restrito ao investidor institucional, mas que isso mudou nos últimos anos. “Hoje já é possível investir em Tesouro americano a partir de US$ 1.000, com incrementos adicionais de US$ 100”, afirma Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.

E além do valor do título, há custos envolvidos, de acordo com as corretoras. O principal deles é o câmbio. O investidor precisa pagar o spread na conversão de reais para dólares e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a remessa internacional — atualmente em 1,1% para envio com finalidade de investimento. Também pode haver spread de negociação e markup no preço dos títulos.

Por outro lado, há vantagens tributárias relevantes. Os especialistas destacam que os juros pagos pelos Treasuries normalmente não sofrem retenção de imposto nos Estados Unidos para investidores estrangeiros não residentes. A tributação ocorre no Brasil, dentro das regras aplicáveis a investimentos no exterior.

Outro ponto destacado pelos especialistas é a liquidez. O mercado de Treasuries é considerado o mais líquido do mundo, permitindo ao investidor vender o título antes do vencimento caso queira sair da posição, embora ele siga sujeito à marcação a mercado, como ocorre com os títulos do tesouro brasileiro. A recomendação, porém, não é enxergar os Treasuries como substitutos da renda fixa brasileira.

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