A cada mês, mais de 100 empresas entram em recuperação judicial no Brasil

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A combinação de juros elevados, maior seletividade na concessão de crédito e demanda desigual entre setores tem pressionado o caixa das empresas. O resultado é que o número de negócios sob recuperação judicial, que atingiu um recorde em 2025: foram 2.466 CNPJs, o maior da série histórica iniciada em 2012. É o que mostra a última edição do ‘Indicador de Falências e Recuperações Judiciais’.

A análise mensal reforça esse diagnóstico. Ao longo de 2025, o volume de empresas em recuperação judicial permaneceu consistentemente acima da média histórica, que gira em torno de 106 CNPJs por mês. O recorde foi em outubro do ano passado, quando 345 empresas entraram em recuperação judicial, seguido por março quando 273 CNPJs estiveram nessa situação, frente a 249 em abril.

Fonte: Serasa Experian

Apesar do recorde, o ritmo de expansão perdeu força. Depois de um salto de 36,2% em 2023 e de 26,4% em 2024, o número de empresas em recuperação judicial cresceu 12,9% em 2025. Na leitura dos dados, esse movimento aponta para uma normalização após um período de forte aceleração, mas em um nível ainda elevado.

“O fato de o crescimento anual dos pedidos ter perdido fôlego em 2025 não garante que veremos o mesmo movimento em 2026. A economia deve desacelerar, o ritmo de corte de juros pode ser menor do que o projetado, mantendo a Selic em patamar restritivo e as condições de crédito apertadas”, afirma Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian.

Além disso, segundo ela, os dados de inadimplência da Serasa Experian seguem exigindo atenção: são 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de 7 restrições por CNPJ negativado. “Em geral, a inadimplência costuma anteceder os movimentos de recuperação judicial, o que nos deixa em estado de alerta para as próximas leituras”, completa a economista-chefe da datatech.

Outro ponto relevante é que o aumento das recuperações ocorre em paralelo à expansão da base de empresas no país. Entre 2023 e 2025, o número de companhias ativas (excluindo MEIs) acelerou de forma significativa, com crescimento de 6,5% em 2023, 13,4% em 2024 e 22,5% em 2025.

Esse movimento ajuda a relativizar parte da alta nas recuperações: há mais empresas operando — e, portanto, mais empresas potencialmente sujeitas a dificuldades financeiras. Ainda assim, o avanço das recuperações acima do padrão histórico mostra que o problema vai além de um simples efeito de base.

Abdelmalack explica que “esse descolamento em relação à tendência estrutural sugere que a pressão sobre o caixa das empresas — especialmente nos segmentos mais sensíveis ao crédito — continuou significativa, levando mais negócios a recorrer ao mecanismo de reestruturação judicial”.

E o estudo mostra que as empresas preferem o processo formal conduzido no âmbito do Judiciário. Nos últimos anos (2024-2025), para cada 16 pedidos de recuperação judicial, apenas 1 correspondia à alternativa extrajudicial, evidenciando a menor utilização desse mecanismo, que depende de maior convergência entre credores e de negociações diretas para sua efetivação. Ainda assim, o instrumento vem ganhando algum espaço, considerando que, em 2023, essa proporção era de 26 para 1.

Setores mais pressionados

Em 2025, os pedidos de recuperação judicial ficaram concentrados principalmente em dois setores: “Agropecuária” e “Serviços”, que praticamente empatam na liderança, com 30,1% (743 CNPJs) e 30% (739), respectivamente.

Na sequência aparecem “Comércio” (21,7%; 535) e “Indústria” (18,2%; 449). Na prática, isso mostra que o problema está mais espalhado em setores ligados ao consumo e à dinâmica do crédito, mas com destaque crescente para o agro.

Na comparação com 2024, o que chama atenção é a mudança de peso entre os setores. A “Agropecuária” ganhou espaço (+3,8 p.p.) e “Serviços” avançou levemente (+0,6 p.p.), enquanto “Comércio” (−2,4 p.p.) e “Indústria” (−2,0 p.p.) perderam participação. Ou seja, há uma migração gradual das dificuldades para atividades mais expostas a ciclos e volatilidade.

CNPJs com recuperações requeridas por setor em 2025

Fonte: Serasa Experian (Serasa Experian/Reprodução)

No longo prazo, essa mudança é ainda mais clara: a “Agropecuária” saltou de apenas 1,3% em 2012 para 30,1% em 2025, enquanto “Indústria” (de 34,4% para 18,2%) e “Comércio” (de 31,2% para 21,7%) perderam relevância. Já “Serviços” se manteve relativamente estável (de 33,1% para 30,0%). O dado sugere que o agro passou a recorrer muito mais à recuperação judicial ao longo dos anos.

“A agropecuária opera sob um conjunto de riscos climáticos e biológicos como, estiagens, excesso de chuva, geadas, pragas e doenças”, explica Camila. “A isso se somam choques de preços de commodities, insumos dolarizados como, fertilizantes e defensivos, exposição cambial e um ciclo financeiro mais longo de safra–entressafra, que amplifica a volatilidade de receita e caixa”, diz.

Ela continua: “Em cenários adversos, esses fatores comprimem margens e capacidade de pagamento ao longo de toda a cadeia, do produtor à armazenagem, logística, agroindústria e tradings, elevando a necessidade de renegociação de passivos e tornando a recuperação judicial um instrumento para preservar operação e emprego.”

Pedidos de falência recuam

Em contrapartida aos números de recuperação judicial, em 2025, o total de CNPJs com pedidos de falência caiu para 698, registrando uma redução de 19% em relação a 2024. Olhando para o histórico, esse número segue muito abaixo dos 1.810 CNPJs registrados em 2012, representando uma queda de cerca de 61% no período.

Pedidos de Falência recuam em 2025 segundo Serasa Experian

Fonte: Serasa Experian e Receita Federal (Serasa Experian e Receita Federal/Reprodução)

O cenário reflete mudanças nas práticas de cobrança e nos instrumentos jurídicos disponíveis: hoje, há alternativas mais eficazes para acionar empresas devedoras, diminuindo a necessidade de recorrer à falência como estratégia de recuperação de crédito. Por setor, a redução também foi expressiva em comparação a 2012: a Indústria caiu de 825 para 344 pedidos (‑58%), o Comércio de 530 para 182 (‑66%), Serviços de 442 para 168 (‑62%) e a Agropecuária de 13 para 4 (‑69%).

O quadro que emerge, então, é de transição. O pico de aceleração das recuperações judiciais parece ter ficado para trás, mas o nível elevado indica que a fragilidade financeira das empresas ainda é relevante. Com perspectiva de desaceleração econômica, juros possivelmente ainda restritivos e crédito seletivo, o cenário para 2026 segue desafiador. O último Boletim Focus já projeta juros ao final de 2026 em 12,50%.

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