Na esteira da ressaca que acometeu o universo de venture capital após a euforia do período pós-pandemia, as companhias brasileiras se viram obrigadas a calibrar suas expectativas e planos para investimentos em startups.
Algumas companhias que tentaram entrar no jogo, estruturando fundos corporativos para investir em startups, os chamados corporate venture capital (CVCs), pularam fora ou então tiveram que reduzir significativamente suas pretensões e alterar a estratégia, com alguns se desfazendo de portfólios.
E aquelas que sobraram estão cada vez mais seletivas, em linha com a tendência do segmento de venture capital, resultando em um mercado com menos deals em termos de quantidade, mas com cheques maiores.
Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) para o NeoFeed mostra que existem atualmente 71 CVCs ativos, um contraste em relação aos tempos áureos do venture capital, quando a quantidade de fundos proprietários ultrapassava 100 em 2021, segundo estudo feito à época pela Apex.
“Vemos alguns CVCs anunciando mudanças estratégicas, porque não é algo que funciona igual para todas as empresas”, diz Priscila Rodrigues, presidente da ABVCAP, ao NeoFeed. “Acho que isso faz parte de um processo de amadurecimento do ecossistema e desse tipo de fundo.”
Do total em operação, 42 realizaram algum investimento nos 12 meses encerrados em junho de 2025, enquanto no ano anterior foram 48 CVCs, segundo estudo feito pela associação em parceria com a consultoria EloGroup, ApexBrasil e Global Corporate Venturing (GCV).
Os últimos anos foram marcados por uma revisão desse modelo de fundos, com algumas empresas jogando a toalha e repassando adiante seu portfólio de ativos.
Uma que optou por acabar com as operações foi a Braskem. A petroquímica anunciou, no começo de 2025, que ia encerrar as atividades da Oxygea, hub de inovação lançado em 2022 com um orçamento de US$ 150 milhões para aportes. Num momento em que enfrenta dificuldades em seu core business, a Braskem justificou a decisão alegando “reavaliação e priorização de seus ativos”.
Quem também encerrou suas atividades de CVC foi a Americanas. A companhia fechou o IF – Inovação e Futuro, braço de inovação que criou a Ame Digital, como parte da recuperação judicial, em que decidiu focar a atuação no varejo, com venda de ativos.
Procurada pelo NeoFeed, a Americanas informou que o encerramento da IF – Inovação e Futuro resultou de uma “decisão do negócio, a partir do plano de transformação da Americanas com foco no varejo físico, principal atividade da companhia”.
Já quem colocou sua iniciativa de CVC sob revisão foi a Gerdau. Criada em 2019 com um capital comprometido de US$ 80 milhões, a Gerdau Next Ventures colocou sob revisão o portfólio, avaliando a venda de ativos. Procurada, a Gerdau informou que não iria comentar.
Segundo Rodrigues, no auge do otimismo, muitas companhias estruturaram CVCs buscando quem pudesse resolver dores dos negócios em tempos de digitalização, além de surfar o otimismo em torno das startups, sonhando com alto retorno financeiro num futuro não tão distante.
Algumas empresas optaram por criar uma unidade de negócios própria, de olho não somente em atrair companhias com sinergias, mas também em obter retorno financeiro com vendas de participações.
“Mas nem todos os projetos andaram bem”, afirma a presidente da ABVCAP. “Às vezes, a expectativa criada sobre quão rápido eles alocariam dinheiro, quão rápido essas companhias cresceriam acabava sendo frustrada.”
A questão da falta de paciência com as startups é fundamental para o sucesso de um CVC e explica por que muitas companhias decidiram rever suas operações. Se o fundo é um centro de custo para a companhia, no momento em que a maré vira, esperar o negócio maturar acaba custando dinheiro.
Conseguir vender fica ainda mais difícil, sobretudo em tempos de juros altos, que exigem concentrar a atenção e os recursos na atividade principal.
Segundo Frederico Wiesel, sócio da Spectra Investments, gestora de ativos alternativos, um bom número de investimentos feitos nos últimos anos foi em companhias no early stage, quando as startups ainda estão encontrando seus modelos de negócios, sujeitos a mudanças, exigindo proximidade das investidas.
“Às vezes, investir, ainda mais em early stage, buscando fit estratégico de superlongo prazo, para depois de um ano as empresas pivotarem, buscando modelos melhores, mais criativos, com melhores unit economics, acaba fugindo dos objetivos estratégicos que a empresa queria”, afirma.
A situação vivida por muitos CVCs abriu uma oportunidade para a Spectra, que está negociando a compra de participação em startups detidas por esses fundos, desiludidos pela desinflação de múltiplos e valuations.
“Temos visto CVCs querendo desmontar posições. Fizemos algumas transações secundárias e estamos em conversas ativas com outros CVCs para comprar a carteira deles, porque esse interesse em desinvestimento continua”, diz Wiesel.
Maturidade e seletividade
Com menos players e juros em alta, o número de rodadas de investimentos com CVCs caiu nos últimos anos. Por outro lado, os cheques médios aumentaram, uma sinalização de que os CVCs estão mais seletivos, dispostos a pagar mais caro por ativos com maior tração e risco reduzido.
Nos 12 meses até junho do ano passado, a quantidade total de rodadas com participação dos CVCs foi consideravelmente menor do que nos 12 meses anteriores, segundo a pesquisa da ABVCAP e parceiros – 66 contra 135, respectivamente, movimentando um total de US$ 700 milhões.
Apesar de o maior número de rodadas ter acontecido no estágio seed – 26 no total –, o mercado observou um incremento na representatividade de rodadas Série B para cima, que responderam por 27% do total de operações, contra 12% no ano passado.
O valor médio de uma rodada Série B saltou de US$ 7,4 milhões para US$ 34,6 milhões, indicando que as corporações brasileiras estão participando de negócios maiores e apoiando startups em fases de escala.
O movimento reflete a busca por maior sinergia estratégica, já que startups mais maduras têm maior capacidade de atuar como parceiras de negócios para as empresas.
“A primeira onda foi marcada pelo FOMO [fear of missing out, medo de ficar para trás], porque tinha capital sobrando, permitindo sair investindo”, afirma Jaime Frenkel, sócio da EloGroup. “Mas quando os juros subiram, quem ficou foram as empresas em que o resultado esperado dos investimentos está alinhado com a estratégia.”
Segue o jogo
Quem manteve a estratégia está dobrando a aposta em iniciativas relacionadas ao core business, além de ter aumentado o mandato. É o caso do BB Ventures.
Criado há cinco anos, o fundo do Banco do Brasil anunciou, em novembro do ano passado, R$ 300 milhões adicionais ao que já estava previsto para o programa de CVC, passando a contar com um capital de até R$ 500 milhões para aportes em companhias em estágios seed e Série A.
O BB Ventures investe atualmente em 53 startups por meio de cinco fundos, três multicotistas, geridos por SP Ventures, Astella e Indicator Capital, e dois exclusivos, sob gestão da MSW Capital e Vox Capital.
“Nos últimos dois anos, estamos conseguindo estampar valor daquilo que a gente entende ser a nossa tese, primeiro voltado para fintechs, agtechs e govtechs”, diz Rodrigo Vasconcelos, diretor de negócios digitais do BB.
Ele cita como exemplo uma iniciativa chamada BB Expenses, criada em parceria com a startup Payfy. Trata-se de uma plataforma de gestão de despesas corporativas com cartões BB que o banco está oferecendo aos clientes.
Com mais recursos em casa, o banco pretende ampliar o menu de temas investidos, agregando bioeconomia, ASG (Ambiental, Social e Governança) e DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão).
Quem também está expandindo sua atuação em venture capital é o Itaú. Em junho, o banco anunciou a internalização do Kinea Venture, fundo que cuidava de seus investimentos, que passou a se chamar Itaú Ventures.
O fundo conta com R$ 500 milhões de capital comprometido, levando em consideração o comprometimento do banco em aportar R$ 250 milhões adicionais nos próximos anos.
Com seis anos de vida e dez empresas no portfólio, o fundo proprietário do Itaú está mirando investimentos em empresas em rodadas Série A e B, buscando participações elevadas em startups sustentáveis, para ter peso em decisões estratégicas e extrair sinergias nas investidas.
“Quando a gente olha nosso portfólio de investidas, quase todas elas têm esse tipo de relacionamento. E quando a gente olha de um lado aqui do banco também, isso dá muito mais conforto de querer fazer negócio com as startups”, diz Philippe Schlumpf, superintendente do Itaú Ventures. “E o banco precisa ter conforto de que esse parceiro será um novo negócio, ou melhoria de jornada e eficiência, e que o relacionamento seja perene.”
Além deles, a Vivo Ventures aumentou o tamanho do seu fundo para R$ 470 milhões, através de um aporte de R$ 150 milhões. Ao NeoFeed, Rodrigo Gruner, vice-presidente de inovação e novos negócios da Vivo, disse na ocasião do anúncio que a ideia é estar preparado para aproveitar as oportunidades que aparecerem, que são poucas neste momento.
A Vivo Ventures aparece, ao lado da L4 Venture Builder, CVC da B3, como os CVCs que mais investiram no ano passado, cada um com oito aportes. O fundo da Vivo assinou, em 2025, o maior cheque de sua história – R$ 35 milhões para a Asaas, plataforma de gestão de PMEs.
Para Rodrigues, da ABVCAP, essa “chacoalhada” no mercado deve amadurecer o mecanismo de CVC, com as companhias encontrando os melhores formatos para si, seja com estrutura própria, seja investindo em parceria com gestoras especializadas.
“Acho que é parte natural. Num primeiro momento, houve um pico um pouco maior na quantidade de CVCs, depois eles diminuem porque os modelos se ajustam. É parte da evolução”, diz.
Procurados pelo NeoFeed, a Americanas informou que o encerramento da IF – Inovação e Futuro resultou de uma “decisão do negócio, a partir do plano de transformação da Americanas com foco no varejo físico, principal atividade da companhia”.
A Gerdau informou que não iria comentar.












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