O “terroir tech” dos delicados e raros vinhos japoneses

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O Japão, apesar de desafios climáticos e geográficos, tem se destacado na produção de vinhos premium, com a National Tax Agency reportando apenas 3,3 milhões de litros de Japanese Wine anualmente, representando 20% da produção total.

Esses vinhos, vendidos em butiques exclusivas, têm preços comparáveis aos grandes vinhos da Borgonha e conquistaram reconhecimento internacional, como o Suntory From Farm Tomi Koshu, premiado em 2024.

A produção é marcada por uma combinação de técnicas de precisão industrial e artesanato, seguindo a filosofia do Sistema Toyota, que busca desperdício zero. Métodos inovadores, como a extração do umami em vinhos jovens e o estágio sur lie, diferenciam os vinhos japoneses.

Além de grandes vinícolas, produtores independentes, como o Domaine Takahiko, também se destacam, gerando alta demanda e preços elevados no mercado secundário.

A crescente atenção de viticultores internacionais ao modelo japonês sugere um futuro onde a inteligência agrícola pode superar tradições.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Nem os tufões, nem a umidade sufocante, nem as montanhas íngremes conseguiram deter o Japão. De um território improvável nasceu um vinho premium que deixou de ser curiosidade exótica e está se tornando referência no setor.

Segundo a NTA, agência reguladora e fiscalizadora da indústria de bebidas alcoólicas japonesa, o legítimo Japan wine, elaborado exclusivamente com uvas cultivadas no país, é de cerca de 16,5 milhões de litros anuais — o que representa apenas 18,1% da produção total. Sem grande volume comercial e com uma parcela pequena destinada à exportação, os vinhos premium japoneses já nascem como ativos de escassez.

“Produzir vinho fino japonês é quase um exercício de obsessão”, afirma ao NeoFeed Pedro Valente, sommelier-chefe do restaurante Satori Omakase, recém-inaugurado em São Paulo.

A saída para garantir a sustentabilidade econômica da vitivinicultura japonesa tem sido obter margens elevadas no varejo de alto padrão e no mercado secundário de investimentos, apostando na combinação entre gestão de precisão, artesania e qualidade.

Na prestigiada Hedonism Wines, em Londres, por exemplo, mesmo os rótulos mais acessíveis, como o Chateau Mercian Iwasaki Koshu, não saem por menos de £ 25 (R$ 170, aproximadamente).

Na Dekantā, plataforma de exportação de bebidas de luxo japonesas, edições limitadas (e hoje esgotadas), como o Suntory Tomi No Oka White Wine 2017, custavam em torno de US$ 170 (quase R$ 900), valor comparável ao dos celebrados vinhos brancos Premier Cru da Borgonha.

Os Japan wines não apenas conquistaram paladares mundo afora como já garantiram seu espaço em alguns dos concursos mais importantes. Em 2024, por exemplo, o Suntory From Farm Tomi Koshu 2022 foi o primeiro vinho japonês a receber o prestigiado Best in Show, premiação máxima do Decanter World Wine Awards.

Dez anos antes, a Grace Wine levou o ouro na mesma competição com sua Cuvée Misawa Akeno Koshu 2013. Suas safras subsequentes de 2015 e 2016 alcançaram medalhas de platina.

“Existe uma delicadeza muito particular nos vinhos japoneses, uma espécie de transparência aromática que combina muito com a cozinha contemporânea e com um consumidor que hoje parece menos interessado em vinhos musculosos e mais seduzido por frescor, tensionamento e elegância”, explica Valente. “É quase como trocar o impacto pelo detalhe.”

Cultivando uvas como se fabrica carros

A excelência das principais vinícolas japonesas baseia-se em um rigoroso controle de qualidade: a mentalidade Kaizen, princípio de melhoria contínua que consagrou o Sistema Toyota de Produção. A busca obstinada para mitigar o desperdício (muda) e potencializar a produção dita o ritmo em cada etapa do processo.

Não por acaso, gigantes como Suntory e Mercian Corporation (subsidiária do grupo Kirin Holdings desde 2006), tratam o manejo dos vinhedos de forma meticulosa para garantir que 100% dos bagos cheguem sãos à adega, sem dar margem a perdas estatísticas que costumam ser aceitas em modelos tradicionais de viticultura.

Para evitar que a chuva dilua os açúcares e apodreça os frutos, os produtores realizam um manejo criterioso do dossel de folhas para favorecer a circulação de ar sob a tana – tradicionais pérgolas altas japonesas. Com isso, eles adaptam os vinhedos ao extremo clima de monções.

A artesania aparece no Kasagake, aplicação manual de um pequeno chapéu de papel encerado grampeado sobre cada cacho para protegê-lo das intempéries. Algoritmos preditivos cruzam dados de radares em tempo real para abrir janelas precisas de colheita durante a madrugada.

Na adega, há uma obsessão em limpar os tanques de aço inox com gás nitrogênio sob pressão para expulsar o oxigênio. Embora a prática seja um padrão global na viticultura moderna, no Japão ela se tornou uma regra de sobrevivência.

No caso da uva nativa Koshu, esse cuidado é crucial: ela possui uma enzima mais ativa do que a de outras castas, o que acelera sua oxidação ao menor contato com o ar úmido.

Como a uva nativa Koshu tem a casca muito fina e é rica em compostos fenólicos, que oxidam e escurecem em questão de minutos ao menor contato com o ar úmido, seu manejo exige todo o cuidado

A Mercian Corporation foi uma das primeiras a adotar o Sistema Toyota de Produção em suas vinícolas: cada planta como uma unidade de montagem de alta precisão para garantir que 100% dos bagos cheguem sãos à adega

Em 2024, o Suntory From Farm Tomi Koshu 2022 foi o primeiro vinho japonês a receber o prestigiado “Best in Show”

A francesa Domaine de Montille foi a primeira estrangeira a estabelecer uma vinícola no Japão, dando origem à Domaine de Montille & Hokkaido, em Hakodate

Rótulos como o Suntory From Farm Tomi Koshu são vendidos apenas em butiques seletas, como a Hedonism Wines, em Londres

Outra grande distinção frente ao restante do mundo vitivinícola é a extração do umami. Enquanto nas principais regiões globais o quinto sabor é uma consequência natural de anos de envelhecimento, os japoneses desenvolveram métodos para obtê-lo em vinhos jovens.

Nos brancos, a vinícola Mercian revolucionou o setor, em 1983, ao estender o estágio sur lie (contato com as leveduras mortas) para induzir precocemente a autólise — a autodestruição celular.

O processo foi amplamente adotado no Japão e virou a assinatura técnica da Koshu e de outras brancas como a Chardonnay, entregando notas de yuzu (fruta cítrica nativa) e limão siciliano com teor alcoólico contido (11% a 12%), sob medida para a culinária local.

Nos vinhos tintos, o umami é extraído das cascas e dos cachos inteiros com engaços maduros. Apesar de ser uma técnica clássica de vinificação, muito comum nos grandes Pinot Noirs da Borgonha, o diferencial não é objetivo: em vez de buscar apenas estrutura, o manejo é direcionado para obter um perfil terroso que remete ao dashi, tradicional caldo de algas e peixe que serve de pilar para a gastronomia japonesa.

Uma francesa 100% japonesa

Além das grandes corporações, o Japão também possui produtores independentes focados em microproduções artesanais. O expoente do segmento é o Domaine Takahiko, em Hokkaido, dedicado à Pinot Noir de baixa intervenção. É aqui que a escassez mostra sua agressividade. Diante da oferta limitada, a busca por suas garrafas inflaciona o mercado secundário.

Enquanto o preço inicial na vinícola se estabelece em valores acessíveis de mercado, a distribuição restrita leva a uma forte valorização. No estrelado The Fat Duck, na cidade inglesa de Bray, o Pinot Noir Nana-Tsu-Mori 2022 custa £ 460 (pouco mais de R$ 3 mil).

Em seu manifesto, o enólogo japonês Takahiko Soga detalha: “Nosso objetivo é expressar a verdadeira identidade do nosso próprio solo, criando vinhos que tragam a essência profunda do dashi e do umami”.

Viticultores de prestígio de outros países já foram atraídos pelas metodologias e pelo potencial do país. O Pacific Link, projeto estabelecido pela vinícola Mercian em parceria com a chilena Concha y Toro, promove o intercâmbio de enólogos para criar rótulos de luxo como o Château Mercian Iwade Koshu Amicis.

Outro marco é a tradicional Domaine de Montille, ícone da Borgonha, que fincou bandeira no Japão com a vinícola De Montille & Hokkaido, em Hakodate. O grupo francês tornou-se o pioneiro em investimento 100% estrangeiro em vinhedos na história do Japão, com garrafas comerciais voltadas ao mercado de luxo que chegam ao varejo internacional na faixa dos US$ 150 (ao redor de R$ 760).

“Acho inevitável que vinícolas de regiões clássicas estejam olhando para esse modelo do Japão com mais atenção. Não para copiar, mas para entender que o futuro do vinho talvez dependa menos de tradição intocável e mais de inteligência agrícola”, avalia Valente. “Não para copiar, mas para entender que o futuro do vinho talvez dependa menos de tradição intocável e mais de inteligência agrícola.”

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