Ações de tecnologia despencam no mundo após temor de alta de juros nos EUA

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A venda massiva de ações de tecnologia que começou em Wall Street na segunda-feira, 22, não ficou restrita aos Estados Unidos. Nesta terça-feira, 23, ela se espalhou pelos mercados globais, e a Coreia do Sul foi a que mais sentiu, com o índice Kospi encerrando o pregão com queda de quase 10%, seu pior desempenho desde março.

A correção atinge um dos setores que mais impulsionaram as bolsas globais ao longo de 2026. Nos últimos meses, investidores concentraram apostas em empresas ligadas à inteligência artificial, mas o avanço dos preços passou a gerar questionamentos sobre avaliações excessivamente esticadas e sobre o ritmo de crescimento da demanda por IA.

A pressão vem do medo de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed), dos fundos de índices (ETFs, em inglês) alavancados no mercado coreano e de uma rotação intensa de investidores para fora das grandes empresas de tecnologia, de acordo com repercussões da imprensa internacional.

O Kospi, por exemplo, fechou em 8.203,84 pontos, um tombo de 910,71 pontos em um único dia. As gigantes do índice Samsung e SK Hynix afundaram mais de 12% cada. A queda foi intensa o suficiente para acionar uma paralisação automática (circuit breaker) nas negociações por 20 minutos no período da tarde.

Na véspera, o índice sul-coreano havia cruzado, pela primeira vez na história, a marca dos 9.100 pontos, impulsionado justamente pelas duas fabricantes de chips, que detêm o maior peso na bolsa por lá. Mesmo após a correção desta terça-feira, o Kospi acumula alta de quase 95% no ano, enquanto o won sul-coreano cedeu 6,5% frente ao dólar em igual período.

Alavancagem preocupa analistas

O estrategista-chefe de ações da CLSA, Alexander Redman, disse que a volatilidade não pode ser explicada sem uma participação intensa do investidor. “O que me preocupa é que os investidores estão no comando, pois utilizam muita alavancagem, embora a proporção em relação ao valor de mercado seja pequena.”

“O que é ainda mais preocupante é que os reguladores agora permitiram ETFs alavancados de ativos individuais, jogando lenha na fogueira”, detalhou à Reuters.

A estrategista-chefe de investimentos da Charles Schwab, Liz Ann Sonders, acrescentou à CNBC que a mudança no comportamento dos investidores em relação às techs não é exatamente abandono do setor.

“Não se trata de falta de interesse no setor de tecnologia ou inteligência artificial como um todo, mas sim dos veículos de investimento. Acredito que há um foco um pouco maior em ETFs de forma geral, em detrimento daquelas operações com ações individuais”, afirmou.

Ela reforçou que os resultados corporativos continuam sendo o principal suporte para as ações no momento.

De Seul a Frankfurt, queda generalizada

O Nikkei 225 japonês recuou 3,55%, fechando em 69.788 pontos e interrompendo uma sequência de oito pregões seguidos em alta. Na China continental, o CSI 300 caiu 2,77%, enquanto Hong Kong cedeu 1,82%.

Na Europa, o Stoxx 600 recuou 1% logo na abertura, com o Stoxx 600 Technology puxando as perdas ao cair 3%. A fabricante holandesa de equipamentos para semicondutores ASMI e a fabricante de chips STMicroelectronics despencaram mais de 6% cada.

Nos futuros estadunidenses, o Nasdaq 100 operava com perdas de 2,7% antes da abertura do pregão regular, enquanto o ETF iShares Semiconductor Fund caía 5,9% no pré-mercado.

O movimento amplia um mês já turbulento para as gigantes de tecnologia. Depois de dois meses de fortes ganhos impulsionados pelo entusiasmo com a inteligência artificial, investidores passaram a reavaliar os preços das ações do setor diante da perspectiva de juros mais altos e do aumento dos investimentos exigidos pela corrida da IA.

Entre as ações individuais, Micron recuava 8,4%, Intel cedia 7,8% e AMD perdia 6%. Nvidia, por sua vez, operava 3% abaixo do fechamento anterior.

Já a SpaceX, que já havia caído 16% na segunda-feira, chegou a operar 3,6% abaixo no pré-mercado, caminhando para a quarta sessão consecutiva no vermelho. A companhia foi uma das maiores vítimas da correção recente do setor e perdeu cerca de US$ 400 bilhões em valor de mercado apenas na sessão anterior. Amazon e Meta também estendiam as perdas, com recuos de 1% e 0,7%, respectivamente, antes da abertura.

O peso dos juros

O mercado está cada vez mais precificando que o Fed de Kevin Warsh pode elevar juros, o que pressiona especialmente ações de crescimento no perfil das techs.

A expectativa ganhou força após sinais recentes do banco central americano de que poderá agir para conter riscos inflacionários. Juros mais altos tendem a reduzir a atratividade de empresas negociadas a múltiplos elevados, além de aumentar o retorno oferecido pelos títulos públicos considerados livres de risco.

Na véspera, o yield do Treasury de dois anos tocou a máxima desde fevereiro de 2025, antes de recuar levemente nesta terça para 4,19%. O juro da nota de dez anos operava em 4,48%.

O mercado agora olha para a divulgação do principal indicador de inflação do Fed, o Personal Consumption Expenditures (PCE) de maio na quinta-feira, 25. Economistas consultados pelo FactSet projetam que o núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, deve subir em relação a abril.

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