O Mercado Livre registrou US$ 10,2 bilhões em receita líquida e rendimentos financeiros no segundo trimestre de 2026, alta de 50% na comparação anual e o trigésimo trimestre consecutivo com crescimento acima de 30%. O feito foi inédito para a companhia.
O lucro operacional chegou a US$ 683 milhões, com margem de 6,7%, enquanto o lucro líquido ficou em US$ 466 milhões.
Segundo Richard Cathcart, diretor de relações com investidores do Mercado Livre, o principal indicador da companhia não é apenas o crescimento financeiro, mas o aumento do engajamento dos usuários dentro da plataforma.
Em relatório, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) antecipou o crescimento “indiscutível”, mas mostrou preocupação com a margem, que de fato continuou pressionada. Quanto a isso, Cathcart é enfático: a queda ano contra ano é uma escolha do Meli justamente para investir em engajamento e na proposta de valor da empresa.
“Acreditamos que seria um erro apressar o negócio para chegar em um cenário de margens mais altas de forma artificial apenas para atingir uma meta imediata, pois os investimentos que fazemos reforçam um ciclo virtuoso que gera maior frequência e fidelidade”, explica.
“Continuaremos investindo com disciplina onde os retornos se justificarem, priorizando investimentos estratégicos de longo prazo em detrimento da lucratividade de curto prazo”, complementa.
O Meli anunciou recentemente o investimento recorde de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, um aumento de 50% em relação aos R$ 38 bilhões investidos no ano anterior. O montante foca na expansão da logística, no fortalecimento do marketplace e no crescimento da carteira de crédito do Mercado Pago.
Richard Cathcart descreve como gigante a oportunidade de crescer ainda mais com o Brasil. Segundo o executivo, enquanto por aqui a média de compras anuais no site é de 13 itens, nos Estados Unidos esse número passa de 50.
“A penetração do e-commerce no Brasil ainda é menos da metade da norte-americana ou chinesa. Por isso, é fundamental investir para manter e estender nossa liderança, pois ser o primeiro cria um efeito de rede — o flywheel — onde mais demanda atrai mais vendedores e escala logística, diluindo custos e fortalecendo o ecossistema”, diz.
Comércio eletrônico
A operação de comércio eletrônico foi um dos motores do trimestre. O volume bruto de vendas (GMV) chegou a US$ 22 bilhões, crescimento de 36% na comparação anual em moeda constante, um pouco abaixo da projeção do BTG Pactual. O número de compradores únicos aumentou 26%, chegando a 89 milhões, enquanto a quantidade de itens por comprador cresceu 14% no período.
No Brasil, principal mercado da companhia, o GMV avançou 39% em moeda constante, em linha com a projeção do banco, enquanto o número de itens vendidos cresceu 56% na comparação anual.
No México, o GMV cresceu 26% em moeda constante, enquanto na Argentina avançou 38%, mesmo em um ambiente de consumo mais fraco.
Um ano após reduzir o valor mínimo para obtenção de frete grátis no país, houve uma mudança no comportamento dos consumidores, com aumento de frequência de compra, maior variedade de categorias adquiridas e maior retenção dos usuários.
A estratégia de logística também avançou. No segundo trimestre, o Mercado Livre realizou 77% das entregas rápidas em até 48 horas. Um dos principais indicadores acompanhados é o crescimento dos chamados usuários ecossistêmicos — aqueles que utilizam tanto o marketplace quanto o Mercado Pago. Esse grupo cresceu 37% no segundo trimestre e se tornou o segmento de maior valor para a companhia.
Segundo o Mercado Livre, esses usuários geram 70% mais GMV por usuário do que aqueles que usam apenas o marketplace e quase 90% mais TPV por usuário do que usuários exclusivos da fintech.
A estratégia da companhia é aumentar a integração entre os serviços para criar um ciclo em que mais produtos geram maior frequência de uso e mais dados para aprimorar as ofertas.
Mercado Pago amplia papel dentro do negócio
O Mercado Pago também teve um trimestre recorde. A operação financeira ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 100 bilhões em volume total de pagamentos (TPV), crescimento de 56% em dólares na comparação anual.
O número de usuários ativos mensais chegou a 88 milhões, alta de 30%. Brasil e México foram os destaques, com crescimento acelerado de usuários.
Outro indicador que mostra a evolução da fintech é o volume de recursos mantidos pelos clientes dentro da plataforma. Os ativos sob gestão (AUM) cresceram 68%, chegando a US$ 23 bilhões.
A carteira de crédito também avançou, com alta de 75% em dólares, superando US$ 16 bilhões.
A companhia afirma que a qualidade dos ativos permaneceu controlada, com a inadimplência de 15 a 90 dias do cartão de crédito em 4,6% e da carteira total em 7%, próximas das mínimas históricas.
Publicidade como nova fonte de receita
Outra frente que ganhou relevância foi o Mercado Ads, braço de publicidade da companhia. A receita da unidade cresceu 73% em dólares na comparação anual, impulsionada pelo maior uso das ferramentas de inteligência artificial por vendedores e pela expansão para além do modelo tradicional de autoatendimento.
A participação do Mercado Livre no mercado de publicidade digital da América Latina superou 10% pela primeira vez, segundo a companhia.
A empresa também ampliou o uso de inteligência artificial para ajudar vendedores a definir orçamento e retorno de campanhas. O assessor de IA do Mercado Ads, que funciona pelo WhatsApp com recomendações automatizadas, alcançou dezenas de milhares de vendedores por mês.
A companhia informou que concluiu a implantação de uma arquitetura de busca baseada em IA nos sites dos cinco maiores mercados em que atua. Segundo o grupo, os ganhos em conversão e taxa de cliques compensaram os custos de utilização de modelos de linguagem de terceiros.
A empresa também afirmou que agentes de IA já revisaram mais de 500 mil envios de código e migraram aproximadamente 9 mil serviços no último ano. Segundo a companhia, a tecnologia acelerou o desenvolvimento de novos produtos e funcionalidades.












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