El-Erian: a paixão do mercado por IA tem um preço, e ele aparece nos juros dos EUA

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O mercado de capitais americano “se apaixona por inovações e as financia de um jeito que nenhum outro lugar do mundo faz”. Hoje o objeto dessa paixão é a inteligência artificial, e o entusiasmo tem um preço que já aparece na ponta longa da curva de juros dos Estados Unidos. A avaliação é de Mohamed El-Erian, um dos economistas mais influentes do mercado global, em conversa com André Esteves no Macro Day do BTG Pactual.

A demanda das grandes empresas de tecnologia por captação no mercado de dívida saltou. O mercado não se limita a torcer pela tecnologia. Ele também despeja capital nela numa escala que quadruplicou em doze meses.

A IA como novo fator de produção

O que justifica uma paixão dessa magnitude, na leitura do economista, é o que a IA representa. El-Erian a trata não como mais uma inovação, mas como um novo fator de produção. Uma tecnologia de propósito geral, comparável à eletricidade, capaz de mudar tudo o que se faz, e ao mesmo tempo uma “máquina de invenção para invenções”.

O mercado, nessa leitura, não aposta em um produto. Aposta em uma mudança da própria função de produção da economia. El-Erian citou James Manyika, do Google, para quem a IA equivale à “revolução industrial somada ao iluminismo”.

A corrida que vira pressão

O entusiasmo se transforma em pressão sobre os juros por causa da forma como as gigantes disputam esse mercado. El-Erian descreve uma atitude de “o vencedor leva tudo” entre os hyperscalers, as empresas que operam a infraestrutura de nuvem e IA em larga escala.

Ninguém quer ficar para trás, e todas captam ao mesmo tempo.

É essa corrida que está por trás do salto na demanda por financiamento. A paixão vira corrida, e a corrida vira demanda por capital numa escala que o mercado precisa acomodar.

Estimativas de analistas de Wall Street colocam os gastos de capital das big techs entre US$ 800 bilhões e US$ 900 bilhões só em 2026, e as empresas já emitiram volumes recordes de dívida para bancar essa expansão.

O outro lado da conta

A demanda das big techs cresce exatamente quando os grandes compradores de títulos americanos recuam. El-Erian aponta que três deles deixaram de ser “confiáveis”.

A China reduziu as compras por razões geopolíticas. Os países do Golfo passaram a precisar de recursos internamente, com a Arábia Saudita em busca de US$ 10 bilhões em novos empréstimos. O Japão virou vendedor: toda vez que intervém no câmbio para sustentar o iene, precisa de dólares e vende títulos americanos.

As empresas de tecnologia emitindo dívida e o governo americano emitindo Treasuries competem pelos mesmos bolsos. Com menos compradores, o preço do crédito sobe, e o juro precisa ser maior para atrair comprador. E como o Tesouro precisa pagar mais, a pressão começa a se concentrar nos juros mais longos.

Não é a primeira vez que El-Erian adverte sobre riscos sistêmicos que se acumulam enquanto o dinheiro flui para ativos mais arriscados.

Para o Brasil, a leitura tem um lado favorável. No mundo que El-Erian descreve, a diversificação de recursos para fora dos Estados Unidos tende a beneficiar economias emergentes, desde que o investidor seja seletivo.

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