Menos prateleira, mais servidores: o “motor silencioso” que levou a Multilaser do prejuízo ao caixa recorde

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Quando assumiu o comando da Multilaser, em abril de 2025, André Poroger, um veterano com 23 anos de casa, tinha um mandato claro. Era preciso recuperar o grupo de eletroeletrônicos, que, após o boom da categoria na pandemia, vinha de dois anos de prejuízos anuais, que somavam mais de R$ 1,1 bilhão.

Para reverter esses e outros indicadores, ele definiu como mantra privilegiar a rentabilidade em detrimento do volume. E elegeu como alvo dessa estratégia o portfólio B2C pelo qual a empresa ganhou fama, expresso, historicamente, em milhares de produtos e dezenas de categorias.

Enquanto a Multilaser reduziu substancialmente a marcha nas ofertas voltadas ao consumidor, outra faceta bem menos conhecida do grupo tem sido o motor silencioso por trás dessa mudança de percurso: seus negócios no B2B.

“Hoje, temos dois motores no grupo, mas muito da sustentação da nossa receita tem sido ancorada nesse segmento corporativo”, diz Poroger, ao NeoFeed. “Nós conseguimos ter um equilíbrio de forças e ela acaba sendo uma alavanca para podermos ser mais resilientes e não dependermos 100% do varejo”.

Esse protagonismo da divisão B2B vem se refletindo no balanço da Multilaser. Nos dados mais recentes, referentes ao segundo trimestre de 2026, a receita do segmento avançou 29,4%, para R$ 607,5 milhões, e representou 63,3% da receita total da companhia, que cresceu 3,2%, para R$ 959,8 milhões.

Na contramão dessas expansões, a divisão de Consumer Tech viu sua receita recuar 20% nessa mesma base de comparação, para 281,2 milhões. Já a de Consumer Especializou teve queda de 34,6%, para R$ 71,1 milhões.

“Conseguimos uma ampliação importante dentro do corporativo, o que permitiu manter o crescimento da receita total, mesmo com uma redução drástica do portfólio de Consumer”, diz Poroger. “Mas isso não foi algo que caiu do céu. Nós fomos construindo e nos especializando aos poucos no B2B”.

No balanço entre essas duas teses, outro indicador ganhou destaque no resultado do período. A Multilaser saiu de uma dívida líquida de R$ 157,9 milhões no segundo trimestre de 2025, o primeiro sob a gestão de Poroger, para um caixa líquido recorde de R$ 405,9 milhões no fim de junho de 2026.

“Antes, tínhamos que trocar o telhado no meio de uma tempestade”, afirma o CEO. “Agora, o clima é mais favorável e temos uma operação mais saudável. Obviamente, nosso mercado ainda é cheio de desafios. Nunca é uma linha reta. Mas esse caixa pode nos ajudar a acelerar algumas frentes”.

Uma dessas frentes envolve justamente o braço do B2B e, mais especificamente, a oferta de servidores. Até pouco tempo, esse portfólio estava restrito ao atendimento de empresas de diferentes portes e setores. E agora, está ampliando seu leque para provedores de data centers.

“Entendemos que esse pode ser um grande projeto para o grupo”, diz Poroger. “Vemos uma expansão grande de data centers, puxada pela inteligência artificial (IA), e grandes players internacionais do setor vindo para o Brasil, além dos projetos de clientes que já atuam no País”.

Embora ainda não revele muitos detalhes da nova linha, lançada recentemente, o CEO diz que os servidores estão sendo montados nas fábricas que a Multilaser opera em Manaus (AM) e em Extrema (MG).

As máquinas foram desenvolvidas em parceria com a chinesa ZTE, com quem o grupo já mantinha um portfólio conjunto na área de telecomunicações para provedores de serviços de internet, os chamados ISPs, com linhas como equipamentos e fibra óptica.

O portfólio do grupo no B2B também inclui segmentos como PCs e tablets para governo; memórias e componentes; equipamentos de fitness, por meio da marca Wellness, comprada em 2020; e áudio profissional, que, recentemente, foi reforçada a partir de uma parceria com a alemã Sennheiser.

Outro negócio relevante na fronteira do B2B são os contratos nos quais a Multilaser fica responsável pela produção de parte do portfólio de multinacionais no mercado brasileiro. Esses são os casos, por exemplo, dos acordos com a chinesas Oppo, de smartphones, Hisense, de televisores, e DJI, de drones.

“Além de uma fonte a mais de receita, esses projetos nos dão a oportunidade de ganhar mais expertise e eficiência na produção, o que acabamos implantando para os nossos próprios produtos”, afirma Poroger.

Fruto de uma aquisição realizada em 2022, a Watts, de mobilidade elétrica, é uma das ofertas no B2B que seguem esse percurso. Aqui, a companhia produz tanto o portfólio local da indiana Royal Enfield como tem suas próprias linhas. E, nessa combinação, o negócio tem ganho tração no grupo.

“Começamos bem focados na transição das motos como opção de elétricos. Mas isso aconteceu muito mais devagar do que imaginávamos”, diz. “Então, pivotamos o negócio mais para bikes e scooters elétricas, pois a demanda por essas categorias de baixa velocidade vem crescendo muito no mercado”.

Colchão e cautela

Embora ressalte a situação mais confortável, Poroger diz que o grupo não vai voltar a colocar o pé no acelerador. Ele projeta um cenário mais adverso à frente, tanto no Brasil, com os juros que ainda pesam no bolso do consumidor, como no exterior, com os conflitos que impactam a cadeia de fornecedores.

“Nossa toada ainda é de cautela, pois o mercado ainda não permite”, afirma. “Mas estamos mais preparados para esse momento, pois agora temos um colchão e muitos aprendizados que tiramos do que passamos.”

Uma dessas principais lições veio do que ele chama do erro de leitura feito pela companhia na pandemia, quando o consumo de eletroeletrônicos cresceu substancialmente e, na mesma proporção, a empresa expandiu seu portfólio já amplo, inclusive para outras categorias.

“Naquele momento, dobramos de tamanho, tanto em faturamento como em complexidade e estrutura. Fomos entrando em tudo basicamente porque tudo o que você fazia dava certo”, diz. “Aí veio a ressaca pós-pandemia e ficamos com muito estoque. Chegamos a ter mais de 5 mil SKUs”.

Poroger ampliou a dose que já vinha sendo aplicada para reverter essa situação. O grupo saiu de 4,4 mil SKUs, no início da sua gestão, para o volume atual de 1,75 mil. E saiu de categorias como papelaria, utilidades domésticas e produtos para pets, voltando a se concentrar nas suas raízes em tecnologia.

Como fruto dessas medidas, a empresa fechou o segundo trimestre com um lucro líquido de R$ 142,2 milhões, alta de 619,1%. A margem bruta evoluiu 9,5 pontos percentuais, para 34,3%. O Ebitda cresceu 286,6%, para R$ 119,2 milhões, e a margem Ebtida foi de 12,4%, contra 3,3%, um ano antes.

Em relatório, o Itaú BBA ressaltou a manutenção da melhoria de rentabilidade da operação e afirmou que a Multilaser reportou mais um “trimestre notável” de expansão de margem, com ganhos em suas três divisões, além de indicadores como o caixa líquido. Mas seguiu a linha de Poroger.

“Para o futuro, a empresa espera uma compressão da margem bruta no segundo semestre devido ao aumento dos custos globais de componentes e das taxas de frete internacional. Por ora, mantemos nossa recomendação neutra”, escreveu o banco, com preço-alvo de R$ 1,40 para a ação.

Os papéis da Multilaser fecharam o pregão da segunda-feira, 24 de agosto, com queda de 1,66%, avaliando a empresa em R$ 1,43 bilhão. No acumulado de 2026, as ações registram, porém, alta de quase 31%.

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