Inter: queda de 40% no ano é ‘reação extrema sobre prazo muito longo’, diz CEO

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As ações do Inter&Co (INTR), negociadas na Nasdaq, acumulam queda de mais de 40% em 2026. O desempenho chama atenção porque vem na contramão dos números do banco digital, que encadeou recordes de lucro trimestre após trimestre. Nos fóruns de investidores, o descompasso entre balanço e cotação virou assunto.

“Uma das maiores dúvidas hoje é em relação à inadimplência do crédito para varejo”, diz um analista que acompanha o papel. “É importante saber como o banco vê a evolução disso nos próximos trimestres, se tende a melhorar ou piorar.”

A pergunta foi levada pela EXAME à cúpula do banco nesta sexta-feira, 25, em coletiva de imprensa na sede do Inter, em Belo Horizonte. Alexandre Riccio, CEO do Inter no Brasil, e Rafaela Vitoria, economista-chefe, afirmaram que o pico da inadimplência está sendo formado agora, no terceiro trimestre, e que os indicadores internos já mostram sinais de melhora.

“Às vezes a reação pode parecer um pouco extrema em função de prazos muito longos de perspectiva de resultado. Você acaba tendo uma incerteza que movimenta mais o preço do que o que se observa no dia a dia, que é um dia a dia sólido de execução”, afirmou Riccio.

Lucro recorde, ROE em alta

No segundo trimestre de 2026, o Inter registrou lucro líquido de R$ 421 milhões, alta de 33,6% sobre os R$ 315 milhões do mesmo período de 2025. O retorno sobre o patrimônio (ROE) chegou a 16,3%, avanço de 2,4 pontos percentuais em um ano. A receita líquida cresceu 31,7%, para R$ 2,6 bilhões, e o índice de eficiência caiu para 42,1%, o melhor da série histórica do banco.

Em 2025, o lucro somou R$ 1,31 bilhão, crescimento de 45% sobre o ano anterior, com ROE anual de 13,8%. A carteira de crédito avançou 36% no ano e seguiu crescendo 29% na comparação anual no 2T26, para R$ 51,9 bilhões, ritmo que o banco afirma ser três vezes superior ao do mercado.

Onde está a pressão

O mesmo balanço mostra o ponto que incomoda o mercado. O índice de inadimplência acima de 90 dias (NPL 90) subiu de 4,6% no segundo trimestre de 2025 para 5,3% no segundo trimestre de 2026. Os atrasos entre 15 e 90 dias, que antecipam a tendência, passaram de 4,1% para 4,8%. As despesas com provisão para perdas cresceram 51% em um ano, para R$ 860 milhões no trimestre. O índice de cobertura recuou de 143% para 134%.

O consignado privado responde por 0,53 ponto percentual da alta anual do NPL 90 nesse intervalo de um ano. O restante vem principalmente do cartão de crédito, cuja carteira que rende juros cresceu com a oferta de mais opções de parcelamento. O banco também informou que um ajuste na política de baixa contábil (write-off) de cartões teve impacto não recorrente de 0,30 ponto no indicador.

Riccio afirmou que a carteira do Inter foi montada para atravessar ciclos como o atual. Cerca de dois terços do crédito têm garantia, como financiamento imobiliário e home equity. O terço sem colateral tem o cartão como carro-chefe.

“A inadimplência aumenta para o mercado inteiro e aumenta para a gente também, mas numa magnitude que deixa o nosso resultado confortável”, disse o executivo. “É simplesmente um ciclo de inadimplência maior que a gente tem que passar por ele.”

Segundo ele, não há mudança nos planos de longo prazo. O banco mira crescimento da carteira entre 25% e 30% em 2026, abaixo dos cerca de 40% do ano passado.

Pico no terceiro trimestre

Rafaela Vitoria atribuiu a piora ao ciclo da política monetária. A Selic atingiu o pico de 15% no ano passado, e o pico da inadimplência costuma vir entre nove e 12 meses depois.

Desta vez, segundo a economista, o ciclo se alongou porque a Selic tem caído mais devagar do que o esperado e porque estímulos fiscais e de crédito do governo deram fôlego às famílias, o que fez o crédito crescer acima do previsto. O efeito prolongado dos juros altos é uma crítica antiga do fundador do grupo, Rubens Menin.

“A gente está vendo um pico de inadimplência se fazendo agora, no terceiro trimestre. Mas a gente já começa a ver nos nossos indicadores uma marginal melhora”, afirmou a economista. “É lenta essa melhora, porque o ajuste na Selic ainda é bastante gradual e moderado.”

Ela ponderou que há incerteza para 2027. A curva de juros precifica uma Selic acima de 14%, enquanto o boletim Focus aponta algo mais próximo de 12%. No cenário de estresse, com disparada do dólar ou um anúncio fiscal que decepcione, o Banco Central poderia voltar a subir juros e a inadimplência ficaria alta por mais tempo. “Não é o cenário base”, ressalva.

Riccio acrescentou que as safras de crédito concedidas desde janeiro têm se comportado dentro do esperado, o que indica arrefecimento da inadimplência “num prazo relativamente curto”.

O nó do consignado privado

O produto que está pesando nos números consignado privado, lançado pelo governo em 2025 para trabalhadores com carteira assinada. No Inter, a carteira saltou de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões em 12 meses.

Segundo Rafaela, boa parte dos atrasos tem origem operacional. Quando o trabalhador troca de emprego, o desconto em folha se perde e precisa ser revinculado ao novo empregador pelo eSocial, sistema gerido pela Dataprev. Esse mecanismo demorou a ser implementado, e cada troca sem revinculação vira inadimplência. Pelos dados do Banco Central, o índice do produto no sistema está em torno de 10%.

A revinculação começou a ser aplicada em setembro. “A gente deve ver uma regularização começando em outubro ou novembro”, disse a economista. O banco também passou a priorizar clientes de menor risco desde o segundo trimestre e está lançando um seguro atrelado ao produto.

Para Riccio, a melhora operacional deve reduzir tanto a inadimplência quanto os juros cobrados.

Ação, liquidez e fim do BDR

O Inter está em meio a mais uma mudança no acesso às suas ações no Brasil. O BDR patrocinado INBR32 deixa de ser negociado na B3 em 16 de outubro e será substituído por um BDR não patrocinado, o INBR34, que começa a ser negociado em 19 de outubro.

Riccio afirmou que o impacto para o investidor pessoa física é mínimo e que hoje cerca de dois terços da liquidez da ação estão nos Estados Unidos, onde o banco também recebeu aval do Fed para ampliar a operação.

Segundo ele, uma base maior de acionistas estrangeiros de longo prazo tende a reduzir a volatilidade e aproximar os múltiplos do Inter aos de outras fintechs listadas no exterior.

A reportagem viajou para Belo Horizonte a convite do Inter

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