Brasileira por trás da CNH Digital quer virar gigante digital — e ganhar até a China

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Durante décadas, a Valid (VLID3) ficou conhecida por uma atividade essencialmente física: a produção de documentos, cartões e soluções de identificação. Agora, a companhia quer mudar a forma como o mercado enxerga seu negócio. A empresa, uma das poucas companhias brasileiras de tecnologia listadas na bolsa, está acelerando uma transformação para se posicionar como uma infraestrutura de confiança digital — um mercado que envolve identidade, pagamentos, autenticação e prevenção a fraudes.

O movimento ganhou força com uma estratégia de aquisições. A Valid concluiu recentemente a compra da HST Card Technology por R$ 73 milhões, operação que adiciona à companhia tecnologias de tokenização, autenticação de pagamentos e segurança transacional.

Antes disso, a empresa também havia adquirido a Dia Zero, companhia especializada em cibersegurança, ampliando sua presença em produtos como monitoramento de ambientes digitais e compliance de fornecedores.

A tese é combinar diferentes camadas de segurança ao identificar quem está acessando um sistema, validar se essa pessoa tem autorização e garantir que a transação realizada seja legítima.

“Esta aquisição dá escala a uma escolha estratégica, que é transformar competências que a Valid construiu ao longo de décadas — segurança em processos de identificação e biometria, pagamentos e conectividade — em uma plataforma capaz de proteger pessoas, credenciais e transações digitais”, afirma Ilson Bressan, CEO da Valid.

No segundo trimestre de 2026, a Valid apresentou receita líquida de R$ 506 milhões, alta de 3% na comparação anual. O Ebitda consolidado chegou a R$ 112 milhões, avanço de 22% em relação ao mesmo período de 2025, com margem de 22%. O desempenho foi impulsionado principalmente pela vertical de Identificação e Governo Digital, que cresceu 12% no período, beneficiada pela aceleração das emissões da Carteira de Identidade Nacional (CIN) e pelo projeto de Selos Água Digital (tecnologia de rastreabilidade fiscal aplicada em embalagens de água mineral).

O lucro líquido reportado foi de R$ 38 milhões. Considerando ajustes por efeitos tributários pontuais que impactaram a base de comparação de 2025, o crescimento recorrente foi de 15%.

Além dos negócios tradicionais, a Valid tenta ampliar sua presença em mercados globais de tecnologia. Uma das frentes é a conectividade digital, especialmente a tecnologia eSIM, que permite a ativação de linhas móveis sem a necessidade de um chip físico.

A companhia atua nesse mercado por meio do chamado canal OEM, fornecendo softwares para fabricantes de smartphones como Huawei, Xiaomi, OPPO, Vivo e Motorola. A estratégia está concentrada principalmente na Ásia, onde a empresa vê maior potencial de escala pelo volume de usuários e pela expansão da conectividade digital.

No segundo trimestre de 2026, a vertical de Mobile Digital cresceu 56% na comparação anual. Segundo a companhia, o avanço dessa frente ajudou a elevar a participação da receita digital dentro do negócio de mobile, que passou de cerca de 3% para mais de 25% em menos de três anos.

A Valid pretende ampliar sua participação nesse mercado e estima alcançar entre 35% e 40% da receita digital de mobile nos próximos ciclos. Segundo a empresa, enquanto mercados como Estados Unidos e América Latina têm maior dependência de ecossistemas dominados pela Apple, países como China e Índia apresentam maior diversidade de fabricantes, o que amplia o potencial do canal OEM.

Aquisições recentes

Apesar no avanço na estratégia de diversificação, a Valid ainda é associada principalmente aos negócios físicos e contratos públicos. Segundo Bressan, cerca de 70% da percepção atual da companhia ainda está ligada a governo e produtos físicos.

A companhia quer alterar esse posicionamento com o crescimento das receitas digitais escaláveis. Segundo Bressan, essa linha representava cerca de 8% da receita entre 2022 e 2023 e chegou a 25% atualmente. A meta é alcançar entre 40% e 50% nos próximos dois a três anos.

A estratégia está toda estruturada em uma plataforma com quatro pilares principais. O primeiro é o onboarding, que envolve o registro e a verificação de pessoas e empresas em ambientes digitais. O segundo é a governança de identidade, voltada ao acompanhamento contínuo de credenciais e permissões de usuários. O terceiro é o de antifraude transacional, que utiliza biometria e dados de contexto para validar operações. Por fim, há as wallets de identidade, baseadas em credenciais digitais verificáveis para tornar futuras interações mais seguras e fluidas.

A aquisição da HST amplia a atuação da Valid em uma etapa posterior da jornada digital, que é a própria transação. Com quase quatro décadas de atuação e cerca de 200 colaboradores, a HST desenvolve softwares para pagamentos e tokenização, tecnologia que substitui dados sensíveis de cartões por credenciais digitais protegidas.

A solução é usada em experiências como carteiras digitais e pagamentos por aproximação, reduzindo a exposição de informações financeiras. A empresa possui clientes em 19 países e sua tecnologia está presente em quatro das dez maiores instituições financeiras da América Latina, segundo a Valid.

Com a integração, a Valid passa a atuar em diferentes pontos da cadeia, desde a identificação do usuário até a autorização de pagamentos e combate a fraudes.

A compra da Dia Zero também faz parte dessa estratégia de ampliar a presença no mercado de segurança digital. A empresa adicionou à Valid produtos como o SOC (Security Operations Center), uma estrutura de monitoramento permanente de ambientes digitais com uso de inteligência artificial para reduzir dependência de operações manuais.

Outro produto incorporado foi o TPCRM, ferramenta voltada a background check e compliance de fornecedores, permitindo análises mais rápidas sobre riscos regulatórios e operacionais.

“A aquisição da Dia Zero coloca a gente com um caso de uso real de presença no mercado de cibersegurança. Botar o pé dentro desse mercado era fundamental onde a gente já pudesse ter clientes e produtos testados pelo mercado”, afirma Bressan.

Segundo o executivo, a inteligência artificial será utilizada como uma ferramenta para ampliar a capacidade de prevenção de fraudes. “A gente usa o lado bom da IA e desse poder computacional para poder prevenir fraudes e tornar nossos produtos e sistemas mais confiáveis, mais performáticos, mais acurados”, afirma.

A bolsa ainda não precifica a transformação, diz empresa

Apesar da transformação estratégica, a Valid reconhece que ainda existe um desafio de percepção entre investidores. A companhia afirma que sua liquidez em bolsa é inferior ao ideal para destravar todo o valor da tese, mas considera que a prioridade é comprovar o crescimento das novas linhas digitais.

“O elemento liquidez é baixo perto do que a gente precisa ter para destravar muito mais valor. Mas no curto prazo, essa é a menor das nossas preocupações, porque a maior delas é acelerar com a entrega do portfólio digital”, afirma Bressan.

A empresa também mantém um programa de recompra de ações. Segundo o executivo, a companhia cancelou recentemente cerca de 2 milhões de ações, por considerar que o múltiplo de negociação estava descontado.

“A gente cancelou algumas ações exatamente porque acha que o múltiplo está muito descontado, então vale muito mais a pena ter isso dentro de casa do que deixar disponível”, diz.

Com a combinação entre negócios tradicionais, aquisições e novas receitas digitais, a Valid tenta reposicionar sua história: de uma empresa associada à emissão de documentos para uma companhia que quer ser a camada de confiança por trás das relações digitais.

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