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O governo chinês ordenou que a Meta desfaça a aquisição da Manus, uma startup de IA com raízes chinesas, avaliada em US$ 2 bilhões. A decisão da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China foi surpreendente, pois a transação já estava avançada, com funcionários da Manus integrados à Meta e recursos transferidos. A Manus, que desenvolve agentes de IA para tarefas complexas, havia alcançado rapidamente US$ 100 milhões em receita anualizada. A proibição reflete tensões geopolíticas, com os EUA restringindo investimentos em empresas chinesas de IA e a China intensificando a proteção de sua tecnologia. A situação é vista como um alerta para outras startups chinesas que tentam se internacionalizar sem romper laços com o país. A decisão também pode impactar o acesso de startups chinesas a capital internacional, especialmente de investidores americanos, em setores estratégicos para a segurança nacional.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O governo chinês ordenou que a Meta desfaça a aquisição da Manus, startup de Inteligência Artificial (IA) com raízes chinesas e sede em Singapura, em uma transação avaliada em US$ 2 bilhões. O movimento surpreendeu o mercado porque o negócio não estava apenas em fase inicial.
A decisão foi tomada pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China, a NDRC, órgão de planejamento estatal do país. Em um comunicado breve, divulgado nesta segunda-feira, 27 de abril, a autoridade afirmou que a proibição do investimento estrangeiro na Manus foi tomada “de acordo com leis e regulações” e pediu que as partes envolvidas retirem a transação.
Segundo a Bloomberg, a transação já estava praticamente concluída: funcionários da Manus já tinham se juntado à Meta, executivos da startup passaram a integrar a equipe de inteligência artificial da big tech, recursos haviam sido transferidos e investidores como Tencent, ZhenFund e HongShan já tinham recebido os valores da operação.
A ordem de Pequim, portanto, não barra apenas uma aquisição. Ela tenta desfazer um negócio que já havia avançado do ponto de vista financeiro, societário e operacional. O movimento era visto pela Meta como um atalho para ganhar força em uma das áreas mais disputadas da inteligência artificial.
A Manus desenvolve agentes de IA de uso geral, capazes de executar tarefas complexas, como pesquisas de mercado, programação, análise de dados e elaboração de apresentações comerciais.
A empresa lançou seu primeiro agente em março de 2025 e rapidamente passou a ser tratada no mercado como uma espécie de “nova DeepSeek”, em referência à startup chinesa que virou símbolo da ambição de Pequim no setor.
O crescimento foi acelerado. Em dezembro, oito meses depois do lançamento do produto, a Manus disse ter ultrapassado US$ 100 milhões em receita recorrente anualizada, e afirmou ser, naquele momento, a startup mais rápida do mundo a sair de zero e atingir essa marca.
Em abril de 2025, a empresa havia captado US$ 75 milhões em uma rodada liderada pela gestora americana de venture capital Benchmark.
Para a Meta, a aquisição serviria para acelerar sua estratégia de IA em produtos de consumo e soluções corporativas. Quando anunciou o negócio, no fim do ano passado, a companhia disse que pretendia integrar recursos avançados de automação ao assistente Meta AI e a seus produtos voltados a empresas.
Ainda não está claro como a Meta poderá desfazer a operação devido aos funcionários já integrados à empresa e aos recursos já transferidos. Os cofundadores Xiao Hong e Ji Yichao também teriam sido impedidos de deixar a China.
Nesta segunda-feira, as ações da Meta recuavam 0,2% no início do pré-mercado americano.
Negócios barrados pela geopolítica
O problema é que a transação passou a incomodar os dois lados da disputa geopolítica.
Nos Estados Unidos, parlamentares já vinham restringindo investimentos americanos diretos em empresas chinesas de inteligência artificial. Na China, o governo passou a intensificar a pressão para evitar que fundadores chineses transfiram tecnologia, talentos e estruturas empresariais para fora do país.
A compra da Manus se tornou o caso mais visível dessa tensão. Embora a startup tenha sido incorporada em Singapura e tenha transferido parte relevante de sua equipe para a cidade-Estado, suas origens chinesas foram suficientes para atrair a intervenção de Pequim.
A mídia internacional está descrevendo o caso como um alerta para o chamado “Singapura-washing”, estratégia pela qual startups chinesas mudam sede, estrutura societária ou equipes-chave para Singapura com o objetivo de reduzir o escrutínio regulatório de Pequim e Washington e facilitar o acesso a capital estrangeiro, compradores internacionais e mercados globais.
A investigação chinesa já estava em curso desde janeiro. Na ocasião, o Ministério do Comércio da China disse que avaliaria se a aquisição cumpria regras relacionadas a controles de importação e exportação de tecnologia e investimentos no exterior. Segundo a Associated Press, a revisão também envolvia temas como segurança nacional, transferência de dados e investimento estrangeiro.
A Meta tem sustentado que a aquisição cumpriu as leis aplicáveis. Em março, um porta-voz da companhia disse à CNBC que a transação estava em conformidade com a legislação e que a empresa esperava uma “resolução apropriada” para a investigação.
A decisão da China também acontece em um momento sensível da relação entre Pequim e Washington. O bloqueio foi anunciado semanas antes de uma reunião de alto nível prevista entre Donald Trump e Xi Jinping, em maio.
Para analistas, o gesto mostra que a China está tentando proteger tecnologia e talentos locais em IA ao mesmo tempo em que busca ampliar seu poder de barganha na disputa com os Estados Unidos.
O caso Manus também parece estar provocando efeitos mais amplos no ecossistema chinês de tecnologia. Autoridades chinesas passaram a orientar empresas importantes de IA, como Moonshot AI e Stepfun, a rejeitar capital de origem americana em novas rodadas, a menos que tenham aprovação explícita. Restrições semelhantes também teriam sido definidas para a ByteDance, dona do TikTok.
Esse movimento pode reduzir ainda mais o acesso de startups chinesas ao capital de venture capital internacional, especialmente de fundos, fundações, endowments e fundos de pensão americanos, que tiveram papel relevante no financiamento do setor de tecnologia chinês nas últimas duas décadas.
A preocupação de Pequim é evitar a saída de tecnologia local em setores considerados estratégicos para a segurança nacional. No caso da Manus, acadêmicos e críticos chineses reclamaram da perda de um ativo valioso para uma rival americana e temiam que a transação incentivasse outras startups a seguir o mesmo caminho.
O bloqueio acende um alerta para outras empresas chinesas de IA que vinham tentando construir uma presença internacional sem romper completamente com suas origens. A mensagem de Pequim, no caso Manus, é que mudar a sede formal pode não ser suficiente quando estão em jogo tecnologia, dados e talentos considerados estratégicos.
No setor de inteligência artificial, esse recado chega em uma área especialmente sensível. Os agentes de IA são vistos como a próxima fronteira depois dos chatbots: sistemas capazes de executar tarefas de ponta a ponta, operar softwares, analisar informações e tomar decisões em múltiplas etapas.
Foi justamente essa capacidade que tornou a Manus atraente para a Meta e estratégica demais para Pequim deixar sair sem resistência.












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