Elizabeth Holmes, da Theranos, troca o figurino, mas mantém o roteiro

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Nova York — Mesmo encarcerada por orquestrar uma das fraudes mais espetaculares do Vale do Silício, aos 42 anos, Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, não suporta ficar longe dos holofotes.

Condenada a 11 anos e três meses de prisão em 2022, Elizabeth convidou dois cineastas para registrar sua vida durante os 34 dias que antecederam o início do cumprimento da pena, em maio de 2023, em uma penitenciária federal no Texas. Sua voz grave, o batom vermelho e a gola rolê preta são coisas do passado.

Ao longo das três horas de filme, ela troca fraldas, “tenta” bater ovos e, vez ou outra, derrama algumas lágrimas. O olhar fixo e assustador, porém, é o mesmo. Sem arredar pé de sua alegada inocência, nunca se retratou com os prejudicados pelo colapso da Theranos e insiste que não houve qualquer erro em sua trajetória.

“Você pode ver tudo”, prometeu ela ao roteirista e humorista canadense Nathan Fielder, que, ao lado do americano Lance Oppenheim, dirige o documentário You Can See Everything (Tudo Pode ser Visto).

Famoso pelo sarcasmo e por mesclar realidade e ficção, Nathan passou dias e noites na casa à beira-mar alugada por Elizabeth e o marido, Billy Evans, na Califórnia, onde viviam com os dois filhos pequenos.

O primogênito nasceu em 2021, quando a farsa já se tornara pública. A caçula, em 2023, depois da condenação. Os advogados tentaram em vão adiar a ida para a cadeia, sob o argumento de que a recém-nascida não poderia ser afastada da mãe.

Produzido pela A24, o documentário arrecadou US$ 15,6 milhões no primeiro fim de semana nos Estados Unidos, em outubro — a melhor estreia para uma produção do gênero desde Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, em 2004. O filme chega ao Brasil em 26 de novembro.

Intimidade em cena

A intenção de Nathan era ficar atrás das câmeras, mas, ao longo das filmagens, Elizabeth e Billy interrompiam as conversas com tanta frequência que o cineasta acabou entrando em cena e se mudando para um quarto da casa em Del Mar. Ele capta imagens na praia, no quarto, na sala, na cozinha… e, sim, até no chuveiro.

Se, ao abrir sua intimidade à equipe de produção, Elizabeth pretendia convencer o público de sua inocência, não funcionou. Quem assiste ao documentário sabe que, por anos, ela mentiu para médicos, pacientes, executivos e investidores, além de ameaçar denunciantes e jornalistas com processos judiciais.

Em sessões lotadas, em plenas tardes de dias de semana, em Nova York, os espectadores riam de seus argumentos e das tentativas de se fazer de desentendida — e das reações de Nathan.

Em um determinado momento, Elizabeth e Billy, sentados no chão do porão, mostram ao documentarista como funciona o aparelho usado pela Theranos. Aquele que ela dizia ser capaz de realizar 200 exames diagnósticos com poucas gotas de sangue coletadas com apenas uma picada no dedo.

A demonstração, porém, foi contestada na imprensa por Tyler Shultz, ex-funcionário e um dos denunciantes do engodo. Segundo ele, o equipamento mostrado no filme não era o mesmo usado nos laboratórios da healthtech.

Tyler é neto de George Shultz, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, morto em 2021. Ao lado de Henry Kissinger e outros nomes influentes da política e do mundo dos negócios, ele integrava o que a revista Fortune chegou a chamar de “o conselho mais ilustre da história corporativa americana”.

Investidores de peso, como o magnata da mídia Rupert Murdoch e a família Walton, fundadora do Walmart, também se deixaram seduzir pela tecnologia aparentemente revolucionária. A empresa captou mais de US$ 700 milhões e chegou a valer cerca de US$ 9 bilhões.

A Theranos virou um unicórnio e Elizabeth estampou capas de revista como a mais jovem bilionária a construir a própria fortuna.

Jogo de manipulação

Com o documentário, a capacidade de Elizabeth de convencer figuras tão poderosas volta a alimentar discussões em podcasts e nas redes sociais sobre sua personalidade e seu comportamento. Seria ela neurodivergente, sociopata ou psicopata?

O jornalista John Carreyrou, hoje no The New York Times, não acredita em nada disso. Depois de anos acompanhando suas palestras e seus depoimentos na Justiça, ele sustenta que cada fala de Elizabeth é calculada.

Foi Carreyrou quem trouxe a falcatrua à tona com uma reportagem no The Wall Street Journal (WSJ), em outubro de 2015. Seu livro Bad Blood: Fraude Bilionária no Vale do Silício acaba de receber uma nova tiragem de 10 mil exemplares nos Estados Unidos, depois de voar das prateleiras nas últimas semanas.

Elizabeth recusou os pedidos de entrevista do jornalista e mobilizou um poderoso advogado para intimidar os envolvidos na apuração.

Também foi pessoalmente à sede do jornal em Manhattan pedir a Murdoch, dono do veículo, que impedisse a publicação. Mesmo tendo investido US$ 125 milhões na startup, o empresário recusou o pedido e preservou a independência editorial do WSJ.

Com quase três horas, o documentário acompanha a rotina de Elizabeth, o marido Billy e os dois filhos na casa à beira-mar alugada pelo casal em Del Mar, na Califórnia. (Foto: themoviedb.org)

Nathan Fielder acompanhou os últimos 34 dias de Elizabeth em liberdade (Foto: themoviedb.org)

A fundadora da Theranos chegou a ser considerada a bilionária mais jovem do mundo a construir a própria fortuna (Foto: themoviedb.org)

Condenada por fraude, Elizabeth mantém o discurso de inocência e nunca se retratou com os prejudicados pela Theranos (Foto: themoviedb.org)

É intrigante que o verdadeiro protagonista do documentário seja Billy. Em conversa com Nathan, conta ter conhecido Elizabeth em uma festa, quando a empreendedora já era suspeita de fraude. Na época, ele saía com outras três mulheres.

“Entre todas essas opções, você escolheu aquela que estava indo para a cadeia?”, pergunta o diretor, arrancando risadas da plateia.

Herdeiro da rede californiana Evans Hotels, Billy exibe traços narcisistas e controladores tão evidentes que o espectador sai do cinema se perguntando quem controla quem, quem tira vantagem de quem e quem mente para quem.

A manipulação do marido é tal que ele frequentemente interrompe falas de Elizabeth, corta uma conversa reveladora de Nathan com o pai dela e interfere na entrevista com um ex-executivo da Theranos.

E esse é um ponto relevante dado que Billy está criando uma “Theranos 2.0”, com pitacos da parceira presa. Ela tem acesso a telefone e recebe visitas semanais da família.

Em maio, o The New York Times revelou que ele busca captar US$ 50 milhões para criar a Haemanthus, uma startup de exames de sangue, saliva e urina para a detecção de doenças, primeiro, em animais de estimação e, depois, em seres humanos.

A conta da farsa

Aluna excepcional e fã de Steve Jobs, Elizabeth abandonou Stanford aos 19 anos para fundar a Theranos, em 2003.

Durante os 15 anos em que liderou a empresa, ela também esteve sob influência do então namorado, o paquistanês Sunny Balwani, COO da companhia, cerca de duas décadas mais velho. O casal escondia o relacionamento dos investidores.

Isso, lembra Carreyrou em um podcast, não a isenta da responsabilidade pelos danos financeiros, éticos e morais causados pela healthtech. Ela presidia o conselho e detinha 90% da companhia. Balwani recebeu uma pena de 13 anos.

As consequências do golpe ultrapassaram os limites da Theranos. Para a bióloga Erika Cheung, outra denunciante da fraude, o caso expôs a necessidade de discutir a ética na formação de novos líderes do setor de tecnologia. Em 2019, ela fundou a Ethics in Entrepreneurship com esse objetivo.

Ex-assistente de laboratório da startup, ela acompanhou de perto o efeito dominó da fraude sobre empreendedores do setor de diagnósticos.

Por cerca de sete anos, a retração dos investimentos freou pesquisas sérias. O escândalo também alimentou a desconfiança em relação às mulheres à frente de startups de saúde.

Em seu perfil no LinkedIn, ela nem menciona a Theranos. Registra apenas que, durante sete meses, entre 2013 e 2014, trabalhou em um “laboratório privado”.

Enquanto Erika promove a ética nos negócios, Elizabeth assume, no documentário, o figurino de mãe de família, em mais uma tentativa de convencer o mundo de sua versão da história. E dá sinais de que não pretende sair de cena.

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