Como o novo programa de renegociação com FGTS pode beneficiar bancos

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Um novo programa de renegociação de dívidas em estudo pelo governo federal pode melhorar a recuperação de crédito inadimplente no sistema financeiro — com impacto potencialmente positivo para os bancos listados na B3. Entre eles, o Nubank aparece como o nome mais exposto ao efeito da medida.

A avaliação é do UBS BB, que vê o pacote como um possível catalisador para reduzir perdas em carteiras de maior risco, especialmente nas linhas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.

A proposta prevê o uso de recursos do FGTS e garantias do Fundo de Garantia de Operações (FGO) para facilitar a renegociação de dívidas atrasadas de pessoas físicas — com foco em clientes de menor renda, justamente o segmento com maior concentração de inadimplência.

O que está em jogo no programa

Segundo o relatório do banco, o desenho preliminar do programa inclui:

  • renegociação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia;
  • garantia parcial das operações por meio do FGO;
  • teto de juros próximo de 2% ao mês para contratos refinanciados;
  • liberação de até 20% do saldo do FGTS para amortização de dívidas vencidas;
  • restrição temporária a apostas por participantes do programa.

Pelo desenho em discussão dentro do governo, divulgado pela Folha de S. Paulo, cada instituição financeira poderá consolidar em um único contrato o saldo das dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia de cada cliente, aplicando descontos que podem chegar a até 90% do valor original, dependendo do tempo de atraso. A lógica é proporcional: quanto mais antiga a inadimplência, maior tende a ser o abatimento concedido.

A proposta prevê que as dívidas antigas sejam liquidadas e substituídas por um novo contrato com valor reduzido e juros mais baixos, com taxa estimada em até 1,99% ao mês — bem abaixo da média de 6,8% ao mês observada no crédito pessoal não consignado prefixado no fim de março, segundo dados do Banco Central e informados pelo jornal.

Poderão participar pessoas físicas com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), e a renegociação deverá ser feita diretamente com cada banco onde o cliente possui débitos. Ou seja, quem tiver dívidas em diferentes instituições precisará negociar separadamente com cada uma delas.

Ainda estão em discussão os critérios de elegibilidade das dívidas. O governo defende incluir contratos com atraso entre 61 e 360 dias, enquanto os bancos propõem abranger operações com mais de 91 dias e até três anos de inadimplência. Quanto maior a cobertura do Fundo de Garantia de Operações nas operações repactuadas, menor tende a ser o risco residual para as instituições financeiras e menor a necessidade de novas provisões.

Hoje, segundo dados da Folha de S. Paulo, o estoque inadimplente nessas três linhas soma cerca de R$ 105 bilhões, dentro de um universo total de aproximadamente R$ 1,15 trilhão em crédito concedido nessas modalidades ao fim de 2025. Além do refinanciamento para pessoas físicas, o pacote em elaboração também deve incluir medidas voltadas a caminhoneiros, motoristas de aplicativos e taxistas.

Embora os detalhes finais ainda estejam sendo elaborados, a expectativa é que a iniciativa ajude os bancos a recuperar parte relevante dos créditos hoje em atraso.

Por que o impacto pode ser positivo para o setor

O principal canal de benefício para as instituições financeiras está na melhora da taxa de recuperação dessas carteiras. Segundo a Folha de S. Paulo, a estimativa é que o programa viabilize a repactuação de cerca de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões em dívidas, dentro de um universo total de atrasos que pode variar entre R$ 70 bilhões e R$ 100 bilhões — movimento que tende a aliviar parte da pressão sobre linhas de crédito mais arriscadas e apoiar a qualidade dos balanços bancários.

Clientes com renda de até cinco salários mínimos concentram 53% do crédito total às famílias e apresentam uma taxa de atraso superior à média do sistema, de 5,9%, ante 5,1% no agregado. Nas linhas de maior risco — justamente as incluídas no programa — essa concentração é ainda mais expressiva: essas modalidades somam cerca de R$ 1,1 trilhão no país, dos quais 54% estão nas mãos desse grupo de renda, que responde por 72% da inadimplência acima de 90 dias.

O papel do FGTS no refinanciamento

A liberação parcial do FGTS é um dos pilares da proposta. Segundo o UBS BB, o saldo médio por conta era de cerca de R$ 3,2 mil em 2024 e uma parcela relevante já está comprometida como garantia em operações existentes. Por isso, a liberação de até 20% dos recursos tende a funcionar mais como complemento ao refinanciamento do que como solução estrutural de desalavancagem das famílias.

Mesmo assim, combinada com garantias públicas via FGO, a medida pode melhorar significativamente o incentivo dos bancos para renegociar contratos hoje considerados de difícil recuperação. A expectativa é que as novas dívidas repactuadas contem com cobertura do fundo em caso de inadimplência dos devedores, reduzindo o risco das instituições financeiras nessas operações.

Para viabilizar o programa, o FGO deve receber um aporte orçamentário estimado entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões, segundo a Folha de S. Paulo.

Por que o Nubank aparece no centro da tese

Entre os bancos sob cobertura do UBS BB, o Nubank tende a ser o mais sensível ao programa, já que sua base de clientes é concentrada em faixas de renda mais baixas e crédito não garantido é o maior peso relativo da sua carteira. Por isso, na avaliação do banco, a fintech deve ser “mais afetada do que seus pares” pela iniciativa.

Para o Nubank, isso significa maior potencial de recuperação de crédito e possível redução de perdas esperadas — fatores que podem melhorar o resultado operacional ao longo do ciclo.

O que muda para quem investe em bancos

Para investidores, o programa tem três efeitos potenciais principais:

  • aumento da recuperação de créditos inadimplentes;
  • redução do custo de risco nas carteiras de varejo;
  • melhora marginal da qualidade dos ativos bancários.

Na leitura do UBS BB, ponto central da tese é que, mesmo sem todos os detalhes definidos, o programa tende a aumentar a probabilidade de recuperação de empréstimos em atraso e, por consequência, beneficiar os balanços do setor bancário brasileiro — com impacto proporcionalmente maior sobre instituições mais expostas ao crédito de baixa renda.

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