Um mercado de US$ 22 trilhões: ETFs de gestão ativa avançam no Brasil

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Os Exchange Traded Funds (ETFs) vivem um momento de expansão no Brasil. Os fundos desses ativos captaram R$ 36,7 bilhões em 2026, ficando atrás apenas dos fundos de renda fixa e dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

O crescimento acontece em meio à busca dos investidores por produtos mais eficientes e diversificados. Os ETFs têm como objetivo replicar um índice de referência, como o Ibovespa ou o S&P 500, em uma estratégia conhecida como gestão passiva.

Agora, o mercado começa a discutir uma nova etapa dessa indústria: os ETFs de gestão ativa.

Em outros países, esse modelo já é uma realidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, ETFs ativos ganharam espaço ao combinar a estrutura de negociação em bolsa com estratégias em que o gestor tem liberdade para selecionar ativos e buscar retornos acima de um índice de referência.

No Brasil, ETFs ativos ainda não são permitidos pela regulamentação. Mas o tema começou a avançar. No início de agosto, a JPMorgan Asset Management recebeu aval da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para listar o JPMorgan U.S. Tech Leaders, sob o ticker JTEK39 — um BDR que replica um ETF ativo estrangeiro.

A operação é uma das primeiras exposições desse tipo para investidores brasileiros.

Segundo a CVM, a autarquia acompanha a evolução dos ETFs em outras jurisdições e as diferentes estruturas adotadas internacionalmente, incluindo os modelos de ETFs de gestão ativa.

“O tema está contemplado na Agenda Regulatória CVM 2026 e vem sendo estudado pela autarquia, considerando a evolução do mercado brasileiro e a experiência internacional”, diz a CVM à EXAME.

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) também participa das discussões.

“A possibilidade de regulamentação dos ETFs de gestão ativa foi um tema que levamos ao debate com o regulador, como parte de uma agenda voltada à evolução do mercado de capitais e ao fortalecimento do mercado de ETFs no Brasil”, comenta Soraia Barros, gerente-executiva de Fundos de Investimento da Anbima.

Por que os ETFs têm agradado?

Os ETFs chegaram ao mercado com a proposta de permitir diversificação de carteira sem que o investidor precise analisar ativo por ativo ou fazer toda uma análise fundamentalista para escolher posições individuais.

Isso não significa, porém, que o investidor possa ignorar a estratégia do produto. É necessário entender qual índice o ETF replica, qual geografia está exposta e quais setores fazem parte da carteira.

Além da diversificação, outro fator que ajudou no avanço desses produtos foi a mudança no modelo de distribuição de investimentos. O mercado brasileiro passou a discutir com mais intensidade o modelo fee-based, em que o profissional é remunerado principalmente por uma taxa pelo serviço de assessoria ou gestão do patrimônio, e não por comissões relacionadas à venda de determinados produtos financeiros.

“Com isso, a remuneração que antes era focada em produto e comissão passa a estar mais alinhada com a evolução do patrimônio do cliente. Nesse cenário, os ETFs acabam permitindo um portfólio bem ajustado aos objetivos, de forma transparente e simples”, explica Anderson Moreira, head de conteúdo da DEX e especialista de investimentos.

A estrutura também ajuda a explicar o custo menor desses produtos em comparação com fundos tradicionais.

Segundo Moreira, nos fundos de investimento tradicionais de prateleira, uma parcela relevante da taxa de administração — além da taxa de performance, quando existe — pode ser direcionada para remunerar redes de distribuição, como plataformas, bancos e assessores.

“Nos ETFs, como as cotas são negociadas diretamente no pregão da B3, essa taxa de intermediação deixa de existir, e o controle de escrituração e liquidação é centralizado na bolsa, reduzindo custos operacionais do fundo”, explica.

Segundo dados mais recentes da indústria, os ativos sob gestão (AUM, na sigla em inglês) de ETFs ao redor do mundo estão em torno de US$ 22 trilhões, com os Estados Unidos respondendo por cerca de US$ 15 trilhões e se consolidando como o maior mercado global.

No Brasil, a indústria ainda está em estágio inicial. O patrimônio dos ETFs gira em torno de R$ 130 bilhões, equivalente a aproximadamente US$ 25,4 bilhões pela cotação de 10 de agosto. Com isso, o mercado brasileiro representa cerca de 0,11% do patrimônio global dos ETFs.

Para Renato Nobile, CEO e CIO da Buena Vista Capital, o avanço dos ETFs no Brasil precisa ser analisado considerando o tamanho atual da indústria.

“Está crescendo bastante porque a categoria ainda é muito pequena. Acho que está tendo muito mais visibilidade, e não acredito que seja uma questão de o brasileiro ter descoberto os ETFs. É um conjunto de fatores ligados à evolução do mercado brasileiro”, afirma.

Apesar do crescimento, o especialista destaca que os ETFs não eliminam riscos. A vantagem está na eficiência da estrutura, e não em uma garantia de retorno.

“Os ETFs são baratos, eficientes, transparentes e flexíveis, mas isso não significa que são livres de riscos”, diz.

ETF de gestão passiva versus ativa

A principal diferença entre um ETF passivo e um ETF ativo está no objetivo da gestão.

O ETF passivo busca replicar o desempenho de um índice de referência, seguindo uma carteira baseada em regras previamente definidas. Já o ETF ativo dá maior autonomia ao gestor para selecionar ativos, alterar posições e fazer ajustes táticos com o objetivo de superar um benchmark.

“Já o ETF ativo dá autonomia ao gestor para selecionar ativos, alterar alocações táticas e gerenciar caixa com a intenção explícita de superar um índice de mercado”, explica Moreira.

Essa liberdade adicional pode aumentar os custos em relação aos ETFs tradicionais, já que exige uma equipe dedicada à análise de investimentos. Ainda assim, a estrutura negociada em bolsa reduz parte das despesas quando comparada aos fundos ativos tradicionais.

“O ETF ativo consegue entregar uma gestão dinâmica por uma fração do custo de um fundo ativo tradicional”, afirma Moreira.

Outro diferencial dos ETFs é o acesso a diferentes mercados por meio de uma única aplicação. Hoje, existem produtos que investem em setores como inteligência artificial, defesa, terras raras e economia espacial — os chamados ETFs temáticos.

A variedade, porém, também pode dificultar a escolha do investidor.

“É claro que existe muita opção, o que pode deixar o investidor um pouco confuso na hora de escolher. Mas é por isso também que acredito que ele deve ter um assessor de investimentos ou um consultor de investimentos para ajudá-lo a alocar os recursos de acordo com o seu perfil”, pontua Nobile.

Para a Anbima, a eventual chegada dos ETFs de gestão ativa exigirá uma estrutura regulatória adequada.

“Por conferirem flexibilidade aos gestores na seleção de ativos, esses produtos podem adotar estratégias mais sofisticadas. Por isso, é importante que sua eventual introdução no mercado brasileiro seja acompanhada por um arcabouço regulatório adequado, que garanta transparência e permita ao investidor compreender claramente o funcionamento e os riscos desses ETFs”, afirma Soraia Barros.

Segundo a entidade, o crescimento da indústria mostra que o Brasil já possui uma regulação e uma infraestrutura capazes de sustentar a expansão do segmento.

“Esse cenário cria condições para a discussão de novas estruturas, como os ETFs de gestão ativa, em linha com o que já se observa em mercados mais desenvolvidos”, diz.

No fim, a discussão sobre ETFs ativos representa uma nova etapa de amadurecimento do mercado brasileiro.

“Os ETFs foram concebidos, no Brasil, para replicar índices de referência. A possibilidade de incorporar estratégias de gestão ativa representa uma evolução natural desse produto, que passa a ser discutida agora diante do crescimento e do amadurecimento da indústria de ETFs no país”, conclui Barros.

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