De bancos a farmácias e postos de combustíveis, o ‘cashback’ dominou as compras dos consumidores. Cashback é um modelo de recompensa no qual o consumidor recebe de volta uma parte do valor gasto em uma compra. Mas é necessário cuidado: comprar e ter parte do seu dinheiro de volta parece tentador, mas pode ocasionar um gasto desnecessário, explicam especialistas ouvidos pela EXAME.
“É importante que o cashback seja encarado como um benefício sobre compras que já seriam realizadas (não como um incentivo para gastar mais e gerar mais cashback). Vejo alguns clientes que chegam com o pensamento que o cashback é uma renda extra feita, mas ele na verdade é a consequência de um consumo”, diz Ana Ramalho, planejadora financeira.
A lógica por trás do cashback é diferente da do desconto tradicional. “Em vez de reduzir o preço no momento da compra, a empresa devolve parte do valor posteriormente”, comenta Fabio Martini, consultor financeiro e gestor na Mhydas Planejamento Financeiro de Ponta Grossa.
O cashback já faz parte da rotina da maioria dos brasileiros com acesso a serviços bancários. Pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pela 99Pay, conta digital da 99, mostra que 95% dos bancarizados conhecem o benefício no ecossistema de bancos e fintechs.
Entre eles, 81% dizem ter um bom nível de familiaridade com o mecanismo, enquanto 14% afirmam apenas já ter ouvido falar. Somente 5% declaram não saber do que se trata.
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O levantamento também revela que o cashback é amplamente utilizado. Entre os brasileiros que conhecem o benefício, seis em cada 10 afirmam que já usaram ou ainda utilizam esse tipo de recompensa, reforçando sua presença no cotidiano financeiro da população.
Cashback não é renda extra
Apesar de ajudar a reduzir o valor gasto em algumas compras, o cashback não deve ser encarado como uma fonte de renda extra. Especialistas alertam que o benefício só existe porque houve um desembolso anterior e, quando mal utilizado, pode até incentivar um aumento do consumo.
Para Martini, um dos principais erros é analisar apenas o percentual devolvido e ignorar o custo total da compra. “Um ponto de atenção é que o cashback pode criar uma sensação de economia maior do que a efetivamente obtida. Por isso, o cashback não substitui uma pesquisa criteriosa de preços“, afirma.
Segundo ele, nem sempre uma oferta com cashback é a mais vantajosa. Em diversas situações, um produto sem cashback pode ser mais barato e representar uma escolha financeiramente mais vantajosa do que outro que oferece a devolução de parte do valor.
A Daiane Alves, educadora financeira da Neon, também destaca que é preciso observar as regras do programa antes de considerar o benefício uma vantagem. Planos que exigem um valor mínimo para resgate, impõem prazo de validade ao saldo ou permitem o uso do cashback apenas na mesma loja podem levar o consumidor a fazer compras desnecessárias apenas para conseguir realizar o resgate.
Ela ainda recomenda comparar os preços antes de fechar negócio, já que alguns produtos podem ser vendidos por valores maiores para compensar a devolução oferecida ao cliente. “Antes de realizar qualquer compra é importante pesquisar para garantir que está realizando uma compra de qualidade por um preço justo”, aponta.
Na avaliação dos especialistas, o maior risco é o cashback estimular compras por impulso. “Quando o consumidor tem a sensação de que está ‘ganhando dinheiro’ ao realizar uma compra, ele tende a justificar mais facilmente aquela decisão de consumo”, explica Martini.
Alves faz um alerta semelhante. “O cashback pode virar um ralo por onde o dinheiro escapa de forma invisível”, afirma. De acordo com ela, acompanhar o saldo crescendo em aplicativos pode incentivar o consumidor “a gastar o que não tem, com coisas que não precisa”, apenas para atingir metas de resgate ou aumentar o valor acumulado.
“Pela sua natureza de fidelização ele influencia o consumo por impulso e gera a sensação/ilusão de que se está ganhando ou lucrando com os gastos, principalmente de itens supérfluos”, conclui.
Também é necessário se certificar que aquele programa de cashback ainda é vantajoso, já que eles podem ser alterados pela empresa a qualquer momento. “A checagem das empresas é necessária”, comenta Ramalho. Alves concorda, é preciso avaliar com cautela as regras do programa, inclusive se a adesão é paga ou gratuita.
Quando o cashback vale a pena
Se usado de forma planejada, o cashback pode representar uma economia real no orçamento. O principal benefício, segundo especialistas, é reduzir o custo de compras que o consumidor já faria, sem estimular gastos extras.
Para Martini, a devolução de parte do valor pago faz diferença quando a compra já estava prevista. Quando utilizado de forma consciente, o recurso também pode contribuir para o planejamento financeiro. Segundo ele, os valores acumulados podem ser destinados a novos objetivos de consumo ou até mesmo à formação de uma reserva financeira.
Além disso, programas que permitem combinar cashback com cupons de desconto e ações promocionais podem ampliar ainda mais a economia obtida.
Alves ressalta que o benefício só faz sentido quando não compromete o orçamento. “O cashback será vantajoso quando trouxer benefícios reais para o bolso e desde que utilizado com cautela”, diz.
Ela alerta que o consumidor não deve aumentar os gastos ou comprometer o limite do cartão de crédito apenas para receber o retorno, já que “o retorno financeiro obtido com o cashback não cobrirá os juros do rotativo no caso de não conseguir arcar com a fatura do cartão”.
Na avaliação da especialista, o cashback é mais vantajoso quando incide sobre despesas essenciais e recorrentes, como supermercado, farmácia e combustível. “Nesses casos em que o gasto já aconteceria ao utilizar o cashback é possível diminuir o custo e ter um desconto real no que importa, que são as compras essenciais”, afirma.
Outro ponto destacado por Alves é a facilidade para acompanhar e utilizar os créditos acumulados. Segundo ela, programas que permitem visualizar o saldo e resgatar o valor de forma simples facilitam o controle dos benefícios e ajudam o consumidor a avaliar se o cashback realmente está gerando economia.
Para as empresas, ao aderir o programa, o cliente tende a escolher aquele estabelecimento como primeira opção, para garantir mais cashback ou mesmo aproveitar o saldo acumulado, já que nem todos os programas permitem o resgatem em dinheiro.
“Na prática, o consumidor percebe um benefício financeiro, enquanto a empresa cria incentivos para que ele retorne ao estabelecimento e continue utilizando seus produtos ou serviços. Por isso, o cashback tem se consolidado como uma das principais ferramentas de retenção e engajamento de clientes no varejo e nos serviços financeiros”, diz Martini.












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