As ações da AstraZeneca caíram 7% nesta segunda-feira, 3, depois que o Financial Times revelou que a farmacêutica britânica mantém conversas há meses com a americana Bristol Myers Squibb sobre uma possível fusão avaliada em cerca de US$ 400 bilhões.
Fontes ouvidas pelo jornal afirmam que as negociações podem resultar em um acordo nos próximos meses, mas também podem se arrastar ou até fracassar. Nenhuma das empresas confirmou as informações à imprensa internacional.
Os papéis da AstraZeneca (AZN) recuavam 4,94% em Londres por volta das 8h08 (horário de Brasília). Nos Estados Unidos, os da Bristol Myers Squibb (BMY) avançavam 5,27 no pré-mercado, no mesmo horário.
Se sair do papel, as duas companhias formariam a quarta maior farmacêutica do mundo em valor de mercado, em uma transação que entraria para a lista das maiores já realizadas pelo setor, segundo a CNBC.
Atualmente, a AstraZeneca é avaliada em cerca de US$ 264 bilhões e a Bristol Myers Squibb, em US$ 133 bilhões.
Mercado estranha movimento da AstraZeneca
Só que parte do mercado não vê necessidade para a AstraZeneca conduzir uma negociação desse porte. Na semana passada, o CEO Pascal Soriot havia dito que a empresa não precisa recorrer a fusões e aquisições (M&A, em inglês) para alcançar sua meta de faturar US$ 80 bilhões até 2030.
Em relatório, o Jefferies afirmou estar “perplexo” com a possibilidade de uma fusão. “Dada a força do perfil de crescimento e inovação da AZ, estamos um tanto perplexos”, de acordo com dados divulgados pela CNBC.
Para o banco, embora uma operação desse tipo possa aumentar a geração de caixa e ampliar a capacidade de investimento em pesquisa e desenvolvimento, esse não parece ser um caminho necessário para uma empresa com o perfil de crescimento da AstraZeneca.
O Citi foi na mesma linha e classificou um eventual acordo como uma surpresa, lembrando que a farmacêutica britânica já possui um portfólio considerado um dos mais fortes da indústria.
Bristol Myers enfrenta desafios que a rival não
No momento, a Bristol Myers Squibb se prepara para perder a exclusividade de medicamentos importantes, como o anticoagulante Eliquis e o tratamento oncológico Opdivo, que devem enfrentar concorrência de versões genéricas a partir do próximo ano.
A empresa também ainda convive com o legado da compra da biotech Celgene por US$ 74 bilhões, concluída em 2019, e parte dos analistas vê que a aquisição ficou aquém das expectativas e contribuiu para que a farmacêutica perdesse espaço em relação a alguns concorrentes nos últimos anos, conforme o FT.
Estados Unidos aparecem como motivação
Entre as hipóteses levantadas pelo mercado para o negócio, há o interesse da AstraZeneca em ampliar sua presença nos Estados Unidos. A companhia concluiu em junho uma listagem direta na Bolsa de Nova York, substituindo seu antigo programa de recibos de ações (ADRs, em inglês).
Os EUA respondem por cerca de 42% das vendas da AstraZeneca hoje. No caso da Bristol Myers Squibb, essa dependência é ainda maior, já que 69% da receita veio do mercado americano no último trimestre.
O principal atrativo da operação estaria na oncologia, pois elas reuniriam um dos maiores portfólios de medicamentos contra o câncer da indústria, mas há desafios.
O analista do BMO Capital Markets, Evan Seigerman, avaliou que a sobreposição entre alguns tratamentos pode chamar a atenção das autoridades antitruste. Um dos exemplos é a concorrência entre o Opdivo, da Bristol, e o Imfinzi, da AstraZeneca.
Negócio ainda enfrenta incertezas
Uma operação desse porte também tende a enfrentar resistência política na visão dos especialistas, especialmente no Reino Unido, onde existe o receio de que a AstraZeneca utilize a fusão para transferir sua sede para os EUA.
Analistas apontam que a postura mais aberta do governo do presidente Donald Trump em relação a negócios corporativos tem impulsionado o mercado americano de M&A, que caminha para um dos anos mais movimentados da última década.












Leave a Reply