Ações brasileiras em Nova York desabam até 19% na noite da reeleição de Lula

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Todas as 20 ações e ADRs de empresas brasileiras com negócios no pregão noturno de Nova York caíam na madrugada desta segunda-feira, 26

PagSeguro e XP lideravam as perdas, com quedas perto de 19,5%; Itaú recuava 17,8% e Petrobras, 15,9%

Exportadoras como Embraer, Vale e Gerdau caíam bem menos, amortecidas pela alta do dólar

EWZ perdia 19,6% e o contrato de real em Chicago apontava para um dólar de R$ 5,57

As empresas brasileiras negociadas em Nova York passaram a noite de domingo, 25, devolvendo em poucas horas o que haviam ganhado em semanas. No pregão noturno que se seguiu à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 20 ações e ADRs de companhias brasileiras registraram negócios, e todas operavam no vermelho por volta de 1h desta segunda-feira, 26 (horário de Brasília), em relação ao fechamento de sexta-feira, 23. As perdas iam de 1,20%, na Embraer, a 19,49%, na PagSeguro, segundo dados do Investing.com e do Yahoo Finance.

Desde o primeiro turno, em 4 de outubro, quando o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, o mercado tratou a vitória dele como o cenário mais provável.

Na sexta-feira, último pregão antes da votação, quase todos esses papéis subiram em Nova York. A XP avançou 3,61%, a Petrobras, 2,11%, e o Itaú, 1,90%. A virada de Lula na apuração inverteu o sinal.

“A bolsa vai devolver tudo e mais um pouco”, disse Alfredo Menezes, CEO da Armor Capital, sobre a bolsa brasileira, em entrevista à EXAME durante a transmissão da apuração.

Bancos, corretoras e fintechs lideram a queda

As maiores perdas da noite se concentraram no setor financeiro. A PagSeguro recuava 19,49%, para US$ 9,21, e a XP, 19,47%, para US$ 24,49. A Stone perdia 16,11%, a US$ 9,63, e a gestora Vinci Partners, 14,53%. O Nubank chegou a cair mais de 12% no início da noite.

Entre os bancos tradicionais, o Itaú cedia 17,79%, a US$ 7,95, e o ADR das ações preferenciais do Bradesco, 17,69%, a US$ 3,35. O papel das ordinárias do banco recuava 10,08%, e o Santander Brasil, 9,91%.

Foram justamente os setores mais sensíveis aos juros que puxaram o rali entre os dois turnos. Nesse período, o Ibovespa subiu quase 7% e superou pela primeira vez os 200 mil pontos, com varejo e construção civil na liderança.

Para Menezes, a principal preocupação dos investidores é a trajetória das contas públicas. O gestor ressalta, porém, que os dois candidatos apresentaram propostas de gastos sem indicar claramente como seriam financiadas.

Petrobras recua quase 16%

A Petrobras teve uma das quedas mais fortes entre as grandes companhias. O ADR das ações ordinárias caía 15,90%, a US$ 22,00, e o das preferenciais, 15,81%, a US$ 19,81. Na visão de Menezes, a petroleira até poderia se beneficiar do câmbio, por vender petróleo no mercado internacional, mas a condição de estatal acrescenta fatores específicos à avaliação dos investidores.

A Braskem perdia 12,94%, a US$ 1,48, a TIM, 10,22%, e a Ambev, 10,00%. A Afya, de educação médica, recuava 14,91%.

Exportadoras amortecem o tombo

Na outra ponta da lista ficaram as empresas que faturam em dólar. A Embraer caía apenas 1,20%, a US$ 69,99, segundo o Yahoo Finance. A Vale recuava 4,19%, a US$ 11,88, a Gerdau, 6,86%, e a CSN, 7,63%, depois de ter disparado 13,46% na sexta-feira.

Para essas companhias, um real mais fraco aumenta o valor das receitas em moeda brasileira. Menezes cita a Vale e o setor de papel e celulose entre as possíveis beneficiadas, mas pondera que o desempenho delas pode não ser suficiente para compensar uma queda mais ampla da bolsa.

As empresas de serviços públicos também caíram menos que a média. A Sabesp recuava 5,00%, a Ultrapar, 5,04%, e a Cemig, 4,35%. Os ADRs de Suzano e Vivo não registraram negócios no pregão noturno até o fechamento deste texto.

Veja o desempenho das ações brasileiras em Nova York

Empresa Código Fechamento de sexta (US$) Pregão noturno (US$) Variação
PagSeguro PAGS 11,44 9,21 -19,49%
XP XP 30,41 24,49 -19,47%
Itaú Unibanco ITUB 9,67 7,95 -17,79%
Bradesco PN BBD 4,07 3,35 -17,69%
Stone STNE 11,48 9,63 -16,11%
Petrobras ON PBR 26,16 22,00 -15,90%
Petrobras PN PBR.A 23,53 19,81 -15,81%
Afya AFYA 15,09 12,84 -14,91%
Vinci Partners VINP 11,49 9,82 -14,53%
Braskem BAK 1,70 1,48 -12,94%
TIM TIMB 19,17 17,21 -10,22%
Bradesco ON BBDO 3,67 3,30 -10,08%
Ambev ABEV 3,30 2,97 -10,00%
Santander Brasil BSBR 5,55 5,00 -9,91%
CSN SID 1,18 1,09 -7,63%
Gerdau GGB 5,10 4,75 -6,86%
Ultrapar UGP 7,74 7,35 -5,04%
Sabesp SBS 6,40 6,08 -5,00%
Cemig CIG 2,30 2,20 -4,35%
Vale VALE 12,40 11,88 -4,19%
Embraer EMBJ 70,84 69,99 -1,20%

Fontes: Investing.com e Yahoo Finance (Embraer). Cotações por volta de 1h de segunda-feira, 26, horário de Brasília, comparadas ao fechamento de sexta-feira, 23.

EWZ e real completam o quadro

O movimento das ações individuais se refletiu no EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras negociado em Nova York. Por volta de 1h20, ele recuava 19,61%, a US$ 34,24, aprofundando a queda registrada no início da noite, quando a apuração ainda estava em curso.

Em Chicago, o contrato futuro contínuo de real perdia 10,14%, a US$ 0,17940 por real. Convertida para o padrão brasileiro, a cotação equivale a um dólar de cerca de R$ 5,57, ante R$ 5,01 implícitos no fechamento de sexta-feira.

Menezes trabalha com uma desvalorização do real de 10% a 12% no curto prazo, levando o dólar à faixa de R$ 5,60 a R$ 5,65. Para a bolsa, a projeção é mais longa. “Eu estou trabalhando com um cenário de índice de 175 mil, 180 mil para o ano que vem”, disse.

O pregão noturno nos Estados Unidos funciona com poucos participantes, e ordens pequenas movem os preços com força. A leitura mais precisa virá com a abertura do mercado brasileiro nesta segunda-feira, às 9h para o dólar futuro e às 10h para o Ibovespa, e do pregão regular em Nova York, às 10h30 de Brasília.

Perguntas frequentes

O que são ADRs?

ADRs (American Depositary Receipts) são certificados negociados nas bolsas americanas que representam ações de empresas estrangeiras. Um banco americano mantém as ações originais em custódia e emite os recibos, cotados em dólar. Por isso, o preço de um ADR de empresa brasileira reflete ao mesmo tempo a ação em São Paulo e a taxa de câmbio. Quando a bolsa cai e o real se desvaloriza juntos, o investidor em dólar perde duas vezes. Nem toda empresa brasileira listada lá fora usa ADRs. XP, PagSeguro, Stone, Vinci, Afya e Nubank listam as próprias ações diretamente na Bolsa de Nova York.

O que é o pregão noturno nos Estados Unidos?

Além do horário regular e das sessões estendidas antes da abertura e depois do fechamento, algumas ações americanas e ADRs podem ser negociados de madrugada em plataformas alternativas, como a Blue Ocean, que funciona das 20h às 4h de Nova York, de domingo a quinta-feira. A liquidez é baixa, nem todos os papéis são negociados, e as cotações variam conforme a fonte de dados. Por isso, alguns ADRs brasileiros não registraram negócios na noite de domingo.

O que é o EWZ?

O EWZ, ou iShares MSCI Brazil, é um fundo de índice (ETF) da BlackRock negociado em Nova York que replica uma carteira de grandes e médias empresas brasileiras. Como é cotado em dólar e pode ser negociado quando a B3 está fechada, virou um termômetro do humor dos estrangeiros com o Brasil, especialmente em fins de semana e feriados.

O que é o contrato de real negociado em Chicago?

É um contrato futuro de câmbio negociado na CME, a bolsa de derivativos de Chicago, que permite apostar na valorização ou desvalorização do real frente ao dólar. Diferentemente do padrão brasileiro, ele é cotado em dólares por real. Para chegar à cotação usada no Brasil, basta dividir 1 pelo preço do contrato. Um valor de US$ 0,17940 por real, por exemplo, equivale a um dólar de cerca de R$ 5,57. Como a negociação começa ainda no domingo à noite, o contrato antecipa a reação do câmbio antes da abertura da B3.

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