A poucas horas da definição de quem será eleito presidente da República e em uma disputa extremamente acirrada, a constatação é que a agenda econômica não foi tratada com a seriedade que deveria nem por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e nem por Flávio Bolsonaro (PL) nesta campanha.
A avaliação é do cientista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria. Para ele, os dois optaram pela campanha do desgaste do adversário, especialmente no segundo turno, e por contratar ainda mais despesas, a partir de promessas de novos programas sociais.
“Eles disseram muito pouco sobre como pretendem tratar a economia, sobretudo a questão fiscal. Lula e Flávio fizeram o contrário, com a contratação de novas despesas a partir de uma série de programas, como o novo Perse ou ampliação do Pé-de-Meia”, diz Cortez, em entrevista ao NeoFeed.
Para o especialista, o segundo turno migrou para uma direção muito diferente da primeira etapa, que terminou com a vitória de Flávio, com 47% contra 45% de Lula. Agora, as pesquisas mostram empate técnico.
Segundo Cortez, o crescimento de Lula na etapa final é explicado justamente pela mudança do perfil da mensagem, agora com um tom um pouco mais propositivo e um discurso mais afinado sobre os possíveis riscos de uma nova gestão.
“Foi a mudança dos termos. O segundo turno foi mais favorável a uma campanha de reeleição. Por isso que o Flávio precisou, de alguma forma, recuar de algumas posições no debate econômico e social para evitar esse desgaste. Foi um segundo turno mais favorável a Lula, por isso que houve a diminuição da diferença”, analisa o especialista.
Para o sócio da Tendências, o chamado “pacote de bondades” da gestão Lula, em especial a aprovação do fim da escala 6×1 e a nova fase do programa Desenrola, contribuíram para esta guinada no humor do eleitorado e que trouxe a disputa para um cenário imprevisível.
Na visão dele, seja quem for o vencedor, já está precificada a necessidade de uma reforma no Judiciário, dado o protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente no primeiro turno.
“O Caso Master exacerbou a necessidade de uma construção institucional, para que os ministros prestassem contas. Me parece que algum desenho de reforma deve acontecer. Há a questão institucional e a demanda por impeachment de ministro”, afirma.
E, seja quem for escolhido pelo eleitorado brasileiro, dificilmente haverá uma pacificação no Brasil. “Ainda deve haver um longo caminho para chegar a esta pacificação. Há uma divisão que não é só fruto das figuras de Lula e Bolsonaro, tem enraizamento social.”
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
A poucas horas do segundo turno, qual é a fotografia que fica desta eleição?
A eleição de 2026 guarda uma relação muito íntima com a disputa de 2022. Principalmente pelo protagonismo de forças políticas que permaneceram, o lulismo e o bolsonarismo, e pela semelhança nos principais temas. Também mostrou um País muito dividido. Ainda não apareceu um caminho para solucionar estes conflitos. Isso está evidente nas rejeições altas tanto de Lula como de Flávio Bolsonaro. A minha percepção é que a eleição de agora não encerra essa discussão para 2030. Ainda não estou seguro se teremos mudança significativa para a próxima eleição.
Ainda assim, foi possível enxergar algum fato novo que tenha influenciado na disputa?
Sim. O ponto novo foi a discussão institucional. Por diversos caminhos, a eleição de 2026 mostrou que o Brasil ainda tem um debate institucional a ser realizado. O País ainda terá uma agenda relativa à questão democrática e como tratar a tentativa de interrupção democrática [em 8 de janeiro de 2023]. Isso apareceu na campanha. No caso de vitória do Flávio, certamente teremos discussão sobre anistia e indulto. Neste sentido, a novidade foi o Supremo Tribunal Federal (STF) como objeto de ação política. E isso apareceu muito forte no primeiro turno. E quem perdeu foi o Centrão.
“Os resultados eleitorais vêm mostrando que os partidos grandes, como PT e PL, têm mais destaque, com mais acesso a recursos eleitorais”
Isso significa que, mesmo sem Lula ou Jair Bolsonaro em 2030, as duas forças políticas vão seguir dominando a disputa eleitoral?
É isso. Não acredito que haja algum movimento de fragmentação. Os resultados eleitorais vêm mostrando que os partidos grandes, como PT e PL, têm mais destaque, com mais acesso a recursos eleitorais. Se não houver nenhuma mudança de regras, os partidos do Centrão tendem a diminuir de protagonismo, mesmo sem Lula ou Bolsonaro. Pode existir uma renovação de nomes, mas dentro destes campos.
Por que não houve espaço para a cristalização de uma terceira via, mesmo com dois ex-governadores na disputa?
Foi uma combinação de fatores. A eleição presidencial, via de regra, já é uma disputa concentradora de forças. Essa é a lógica do sistema eleitoral. Há também o mecanismo do voto útil, que o eleitor costuma adotar. A tendência natural é ser uma eleição concentrada. Especificamente em 2026, o Brasil teve uma terceira via que não conseguiu construir um projeto unificado. Então, a rigor, não existiu uma terceira via, com um projeto de alcance nacional. E os que foram lançados não tinha unidade nos próprios partidos. Também há uma razão social, com conflitos cristalizados na sociedade. Essa ideia de que existe um centro órfão não é necessariamente verdade. O debate político segue polarizado.
Na sua avaliação, seja quem vencer, a reforma do Judiciário já está precificada?
É inevitável que haja uma alteração, principalmente pela ação do Supremo Tribunal Federal. O Supremo se mostrou muito exposto, por conta desse ambiente político. E me parece legítima uma leitura de que os ministros não tenham conseguido uma unidade em relação aos seus procedimentos, de maneira a mantê-los responsivos em relação aos demais órgãos institucionais. O Caso Master exacerbou a necessidade de uma construção institucional, para que os ministros do Supremo prestassem contas. Me parece que algum desenho de reforma deve acontecer. Há a questão institucional e a demanda por impeachment de ministro. É possível que exista esta agenda institucional, independentemente de quem vencer.
“O Caso Master exacerbou a necessidade de uma construção institucional, para que os ministros do Supremo prestassem contas”
Qual foi o ponto da virada do primeiro para o segundo turno?
Foi a mudança dos termos. O segundo turno foi mais favorável a uma campanha de reeleição. Uma campanha que se voltou para o debate com mais ideias e objetivos sobre temas que afetam mais o eleitorado, como regras de salário-mínimo e gastos sociais. Também houve a estratégia de desgastar o adversário como uma maneira de preservar capital político. O governo Lula conseguia vencer as disputas porque colocava a percepção de risco em caso de mudança. Isso aconteceu nas demais campanhas, mas não entrou no primeiro turno. Agora no segundo turno, ele conseguiu. Por isso que o Flávio precisou, de alguma forma, recuar de algumas posições no debate econômico e social para evitar esse desgaste. Foi um segundo turno mais favorável a Lula, por isso que houve a diminuição da diferença.
A questão dos grupos de WhastApp e os atritos com a Justiça tiveram importância nesse cenário de segundo turno?
Sim. Houve uma inversão do papel do Judiciário. Saiu do STF, no primeiro turno, para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no segundo turno. O protagonismo da Justiça eleitoral pode ter ajudado nesta mobilização. De ter transformado a campanha de Lula em uma campanha anti-mainstream, em uma leitura em que a disputa não estava sendo só com o Flávio, mas contra a influência das big techs e de ministros que estariam tomando um lado. Isso ajudou e muito um pouco o tom da eleição. Isso também favoreceu Lula, que deu este caráter de resistência.
O pacote de bondades de Lula, em especial o Desenrola e o fim da escala 6×1, fez diferença a favor do presidente?
Foi um dos elementos que ajudaram nessa recuperação da popularidade. Com isso, o governo permaneceu competitivo, mesmo saindo atrás no primeiro turno. Foram importantes, mas ainda não resolveram para a campanha. Mostrou que o cenário de virada ainda é possível.
“Eles (Lula e Flávio) disseram muito pouco sobre como pretendem tratar a economia, sobretudo a questão fiscal”
Faltou discussão econômica nas duas campanhas?
Faltou, sim. Eles não trouxeram algo mais propositivo sobre economia, a não ser a lógica do medo. Foi uma campanha que não trouxe essa agenda econômica. Eles disseram muito pouco sobre como pretendem tratar a economia, sobretudo a questão fiscal. Neste sentido, o segundo turno, deixou ainda mais agudo os problemas de natureza fiscal no Brasil. Eles fizeram o contrário, com a contratação de novas despesas a partir de uma série de programas, como o novo Perse ou ampliação do Pé-de-Meia. Lula e Bolsonaro foram tímidos na agenda de campanha e preferiram a campanha do desgaste do adversário.
No dia seguinte ao primeiro turno, o mercado financeiro reagiu com euforia e a Bolsa disparou. Qual foi a mensagem naquele momento?
O mercado tem um olhar com a expectativa de que a alternância de poder no governo é fundamental para mudar a agenda econômica. Me parece que o mercado ainda tem um otimismo sobre o que deve significar esta transição. Mas foi uma reação a partir da ideia de que o governo não era favorito e que o resultado surpreendeu no primeiro turno. Isso explica a euforia.
Ela tende a diminuir?
A questão passa a ser a duração desta euforia e como o mercado vai precificar os ativos brasileiros a partir de uma possível frustração, e de uma agenda mais concreta, ganhe um ganhe outro. No caso de vitória do Flávio, há uma questão sobre em quanto tempo ele conseguiria preparar um plano que sustentasse esta euforia esperada.
Seja quem for o vencedor, pode haver pacificação no País após a eleição?
Não. Ainda deve haver um longo caminho para chegar a esta pacificação. Há uma divisão que não é só fruto das figuras de Lula e Bolsonaro, tem enraizamento social. É uma agenda de difícil absorção política. Não vejo mudança em curto prazo. Esta pacificação não me parece estar no radar, independentemente de quem vença.












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