Aconteceu algo que o mercado americano só tinha visto uma vez nos últimos 25 anos. Na quarta-feira, 19, as ações da Moderna saltaram 176,97%, a maior alta diária já registrada pelo papel, após a empresa avançar em uma vacina contra o câncer em parceria com a Merck.
A última vez que uma ação do S&P 500 mais do que dobrou de valor em um único pregão foi em dezembro de 2008, quando a seguradora Hartford Insurance Group protagonizou algo parecido em plena crise financeira.
Nesta semana, a Moderna anunciou dados positivos de Fase 3 mostrando que sua vacina experimental contra o câncer, combinada ao Keytruda, medicamento da Merck, é mais eficaz do que o Keytruda isolado para evitar que o melanoma volte a aparecer depois da remoção cirúrgica do tumor.
O estudo acompanhou 1.100 pacientes, e quem recebeu as duas terapias juntas ficou livre do câncer por mais tempo do que o grupo tratado apenas com o protocolo padrão. Com o resultado, a Moderna pode pedir aprovação comercial da vacina às autoridades regulatórias.
As ações da Merck também reagiram bem e fecharam o dia com alta de 12,60%. Na manhã desta quinta-feira, 20, porém, os papéis (MRK) devolvem parte dos ganhos e recuam 1,39%. O que também acontece no caso da Moderna, com os ativos (MRNA) caindo 8,62%.
Uma virada que já vinha sendo construída
Antes do anúncio, a ação da Moderna já acumulava valorização de 114% em 2026, sustentada pela aposta de que a vacina contra o câncer daria certo. Ainda assim, mesmo com esse otimismo prévio precificado, os dados do estudo pegaram investidores de surpresa.
Depois da disparada, o papel soma alta de 491% no ano, ficando atrás apenas da fabricante de dispositivos de armazenamento Sandisk entre os melhores desempenhos do S&P 500 em 2026. É a única ação de fora do setor de tecnologia a aparecer entre as cinco maiores altas do índice, ao lado de Dell, Micron e Seagate.
Em junho, a farmacêutica e a Merck divulgaram dados de acompanhamento de cinco anos de um estudo de Fase 2 igualmente favoráveis, que já haviam derrubado pela metade a taxa de recorrência do câncer ou morte entre os pacientes tratados com a combinação.
Houve até um episódio mais especulativo em maio, quando a ação subiu em meio a um surto de hantavírus, com investidores apostando que a Moderna pudesse desenvolver rapidamente um imunizante. Quem comprou o papel naquele momento, dificilmente imaginava embolsar esse retorno, segundo dados da Barron’s.
Empresa da pandemia à aposta em oncologia
Por trás da euforia da bolsa está uma tentativa de reposicionamento que a Moderna vem tentando emplacar há tempos. A empresa ficou mundialmente conhecida no auge da pandemia, quando desenvolveu a segunda vacina contra a covid-19 aprovada pelos reguladores dos Estados Unidos.
A Spikevax, nome comercial do imunizante, ainda é o principal produto do portfólio da companhia, mesmo com receita em queda; e as vacinas contra a gripe seguem contribuindo de forma relevante para o faturamento.
O problema é que, para o mercado, isso não bastava mais. Os investidores queriam um produto capaz de devolver à ação os patamares vistos em 2021, no pico da pandemia, e a vacina contra o câncer surge como a candidata mais forte a cumprir esse papel.
Para o analista do banco Jefferies, Andrew Tsai, ouvido pela Barron’s, o resultado desta semana vai além de validar um único produto. O avanço reforça a credibilidade da própria plataforma de RNA mensageiro da Moderna, em um momento de maior escrutínio regulatório sobre essa tecnologia.
Tsai projeta que a empresa pode chegar a 2027 comercializando mais de sete produtos diferentes, distribuídos entre as áreas de doenças respiratórias, oncologia e doenças raras.
O que o caso Moderna ensina para o mercado
Fica difícil repetir um movimento como o desta semana tão cedo, na avaliação de fontes ouvidas pela Barron’s, e a história recente do próprio setor de vacinas mostra por quê.
Depois que Robert F. Kennedy Jr., crítico dos imunizantes, assumiu o cargo de secretário de Saúde dos EUA no fim de 2024, as ações de fabricantes de vacinas passaram por um período difícil na bolsa. Mas o cenário vem mudando aos poucos. Nos últimos 12 meses, o fundo de índice (ETF) iShares Biotechnology acumula alta de 56%.
*Com informações da Barron’s












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