Ações de empresas de semicondutores disparam em Wall Street: é bolha?

acoes-de-empresas-de-semicondutores-disparam-em-wall-street:-e-bolha?

O rali das ações de semicondutores ganhou um novo capítulo nesta semana, reacendendo comparações com momentos extremos da história do mercado — incluindo o período que antecedeu o estouro da bolha da internet no início dos anos 2000.

A protagonista mais recente desse movimento é a Advanced Micro Devices (AMD), que saltou cerca de 20% em um único pregão após divulgar, na última quarta-feira, resultados do primeiro trimestre acima das expectativas e projetar uma receita mais forte também para o segundo trimestre. O desempenho coroou uma sequência já impressionante: a ação acumulava alta superior a 60% no mês anterior.

O movimento não ficou restrito à empresa. O avanço ajudou a impulsionar todo o setor de semicondutores, com ETFs e empresas relevantes registrando ganhos adicionais no mesmo período, reforçando a percepção de um ciclo de forte expansão. O ETF Invesco PHLX Semiconductor (SOXQ) e a Micron Technology subiram 3% e 4%, respectivamente.

Segundo dados da Bespoke Investment Group citados pela CNBC, o índice de semicondutores (SOX) está cerca de 56% acima de sua média móvel de 200 dias. Na série histórica, apenas dois momentos apresentaram leitura mais extrema: julho de 1995 e março de 2000. O primeiro marcou o início do boom da internet; o segundo, o pico da bolha.

A conclusão da casa é cautelosa. “De qualquer forma, esse tipo de leitura extrema não pode durar para sempre, então nós moderaríamos as expectativas para os semicondutores nos próximos doze meses neste ponto”, afirmou a Bespoke à CNBC.

O índice SOX acumula alta de mais de 55% no ano, impulsionado pelo renovado entusiasmo em torno da inteligência artificial. Sua avaliação também está elevada em relação ao mercado mais amplo: o índice é negociado a 26 vezes o lucro futuro, conforme dados da FactSet, divulgados pela CNBC, enquanto o S&P 500 gira em torno de 21 vezes.

IA como motor estrutural

Apesar dos alertas técnicos, o pano de fundo fundamental segue robusto. O principal vetor por trás da disparada é o avanço da inteligência artificial, especialmente em sua nova fase — chamada de “IA agêntica”, que envolve sistemas capazes de executar tarefas complexas com maior autonomia.

Nesse contexto, a AMD recebeu um importante voto de confiança do Goldman Sachs, que elevou sua recomendação para compra e aumentou o preço-alvo das ações de US$ 240 para US$ 450, o que implica um potencial de alta de 27% em relação ao fechamento desta terça‑feira, 5.

Em nota divulgada pela CNBC, o banco destaca que a expansão das cargas de trabalho de IA — especialmente em data centers — deve impulsionar a demanda por CPUs de servidores. Chips baseados na arquitetura x86, como os produzidos pela AMD, tendem a se beneficiar da alta no uso de “agentes” de IA corporativos, de acordo com o Goldman Sachs.

A expectativa é que esse movimento amplie o mercado endereçável da companhia nos próximos anos. O Goldman Sachs projeta que a AMD deve faturar US$ 21,1 bilhões em receita com CPUs para servidores até o fim de 2027, valor 24% acima da estimativa média do mercado.

O otimismo não é isolado. Dos 52 analistas que cobrem a ação, 39 têm recomendação de compra ou compra forte, segundo dados da LSEG citados pela CNBC.

Técnica aponta aceleração — não exaustão

Do ponto de vista gráfico, o comportamento do setor também chama atenção. A relação entre o ETF de semicondutores (SMH) e o Nasdaq-100 atingiu o nível mais alto em mais de duas décadas, superando patamares vistos pela última vez em 2000, no auge da bolha da internet.

Em sua coluna na CNBC, Todd Gordon, fundador da Inside Edge Capital, defende que o movimento não sinaliza necessariamente um novo estouro de bolha — ao contrário. O SMH, em relação ao conjunto mais amplo de ações de tecnologia, avança com rompimento de máximas, indicando força relativa.

Diferentemente de um cenário típico de topo, no entanto, o movimento atual não mostra sinais claros de esgotamento. Pelo contrário: o setor continua rompendo máximas relativas, o que costuma ser interpretado como indicativo de força estrutural.

Hoje, os semicondutores representam cerca de 30% do ETF Nasdaq-100 e vêm sustentando boa parte do desempenho do índice — não apenas desde a mínima de março, mas ao longo de todo o rali iniciado em 2015.

Análises de ciclos anteriores reforçam essa leitura. As duas grandes ondas de alta desde 2020 apresentaram ganhos semelhantes — acima de 230% — com inclinações próximas. “[…] estamos em um terceiro ciclo de alta a partir das mínimas do início de 2025 que percorreu ‘apenas’ 207%. Mirando outro rali de cerca de 235%, chegamos a um alvo em torno de US$ 571 para o SMH, uma zona importante de decisão”, afirmou Gordon.

Caso o padrão histórico se mantenha, há espaço para novas altas. Por outro lado, um rompimento desse comportamento cíclico poderia indicar algo mais relevante: a transição para um bull market estrutural de longo prazo no setor.

Valuation ainda sustenta narrativa

Outro ponto que sustenta o otimismo é a avaliação de algumas das principais empresas do setor. Mesmo após a forte valorização, múltiplos futuros permanecem em níveis considerados razoáveis diante do crescimento projetado.

No caso da Nvidia, por exemplo, o múltiplo de preço/lucro futuro gira em torno de 23 vezes — patamar historicamente associado a momentos de suporte, não de euforia. Esse nível já foi observado em períodos pós-correção, como 2019, 2022 e 2025.

Ao mesmo tempo, as expectativas de crescimento seguem impressionantes, com projeções de receitas multiplicando em poucos anos — algo incomum para empresas já avaliadas em trilhões de dólares.

“Em 2021–2023, a empresa faturava ‘vinte e poucos’ bilhões de dólares em receita bruta. Três anos depois, analistas esperam que traga ‘duzentos e tantos’ bilhões. […] Para uma empresa com valor de mercado acima de US$ 4 trilhões, esse ritmo de crescimento é simplesmente chocante”, destacou Gordon.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *