O Brasil chega à Copa do Mundo de 2026 com um ambiente macroeconômico diferente do visto no torneio anterior, realizado no Catar em 2022. A taxa básica de juros está em 14,5% ao ano, nível significativamente superior aos 13,75% registrados quatro anos atrás, e a incerteza global pressiona a confiança de consumidores e empresas. Ainda assim, um relatório recente do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), elaborado com base em dados da empresa de inteligência de varejo Scanntech, projeta alta no consumo durante o período do torneio e os analistas apontam razões concretas para isso.
O principal argumento do relatório é a melhora da renda real dos brasileiros, cuja média mensal subiu de R$ 3.111 em 2022 para R$ 3.508 em 2026. Por outro lado, a inflação recuou de 5,8% para cerca de 4,1% no mesmo período. A combinação de mais dinheiro no bolso com preços subindo menos cria uma margem de poder de compra que, segundo os analistas, tende a se manifestar com força justamente em momentos de grande mobilização emocional coletiva, como os jogos da seleção brasileira.
Segundo o relatório, eventos de futebol geram um incremento de aproximadamente 4,7% no consumo do varejo em relação a períodos normais sem jogos. Esse aumento não se concentra em um único dia ou fim de semana, mas se distribui ao longo de várias semanas, cada rodada de jogos funciona como um novo gatilho de compras. Para a Copa de 2026, esse efeito tende a ser ainda mais intenso. O torneio estreia com um formato ampliado, passando de 32 para 48 seleções participantes, o que eleva o número de partidas de 64 para 104, distribuídas ao longo de 39 dias. Mais jogos, por mais tempo, significa mais ocasiões de consumo — e mais oportunidades para o comércio.
Para o BTG, o ponto central é que a Copa do Mundo não compete com o crédito ou com a confiança econômica da mesma forma que uma compra de bem durável. Ao contrário de uma geladeira ou de um automóvel, decisões que dependem da avaliação do custo do financiamento, a cerveja, o salgadinho e a carne para o churrasco da tarde do jogo são itens de consumo imediato, de baixo valor unitário e fortemente influenciados pelo calendário esportivo. Juros altos deprimem o crédito, não necessariamente o supermercado.
Outro fator que sustenta o otimismo dos analistas é o perfil do consumo esperado. A pesquisa da Scanntech aponta que 65% dos brasileiros pretendem assistir aos jogos em casa, e não em bares ou restaurantes. Isso redireciona o gasto para o varejo alimentar, aumentando o volume de compras em supermercados e empurrando para cima categorias como carnes, bebidas, snacks e produtos de conveniência. O consumo que em outras ocasiões iria para o setor de serviços acaba migrando para as prateleiras do varejo físico e digital.
Há ainda um componente comportamental difícil de ignorar: 95% dos brasileiros se engajam com o futebol ao menos durante a Copa do Mundo, segundo o levantamento. Esse alcance de massa cria um senso de ocasião que ultrapassa barreiras econômicas. Famílias que controlam rigidamente o orçamento ao longo do ano tendem a fazer exceções em datas de forte apelo emocional — e o BTG Pactual avalia que a Copa funciona, nesse sentido, como uma válvula de consumo que resiste à pressão dos juros.
O relatório reconhece que os riscos macroeconômicos não desapareceram: a volatilidade geopolítica global e a Selic elevada seguem como ventos contrários. Mas a avaliação final dos analistas é que, para as categorias diretamente ligadas ao “efeito-jogo”, a Copa de 2026 representa uma janela real de demanda. E que varejistas atentos ao calendário de jogos, à composição de seus estoques e ao comportamento antecipatório dos consumidores têm boas condições de capturar esse impulso, independentemente do cenário de crédito.












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