A retomada das ações de tecnologia em Nova York reacendeu também o apetite do investidor brasileiro pelos BDRs, os Brazilian Depositary Receipts, das chamadas “Sete Magníficas”. Depois de uma primeira quinzena de abril marcada pela desaceleração nas negociações, os recibos de ações de gigantes como Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla voltaram a registrar um aumento de negócios na B3 a partir de 15 de abril.
Segundo operadores, o impulso foi dado pelo rali das bolsas americanas, a melhora do ambiente macroeconômico global e os balanços do 1° trimestre deste ano.
Os dados da Quantum Finance mostram que o início de abril foi um período de “calmaria” para os BDRs de tecnologia, especialmente quando comparado à euforia observada em fevereiro. A Nvidia (NVDC34), por exemplo, havia registrado 153.891 negócios em um único pregão em 3 de fevereiro. Já em 6 de abril, o número caiu para apenas 5.508.
A Alphabet (GOGL34), que chegou a mais de 20 mil negócios em fevereiro, passou boa parte da primeira metade de abril oscilando entre 1.100 e 4.400 negociações diárias.
A virada aconteceu exatamente em 15 de abril. Naquele dia, os BDRs reagiram em cadeia ao movimento de Wall Street. A Amazon (AMZO34) saltou de 3.635 negócios no dia 14 para 11.945 no dia 15. A Apple (AAPL34) triplicou seu volume, passando de 1.464 para 4.273 negociações. A Alphabet praticamente dobrou a movimentação, indo de 2.225 para 4.380 negócios.
O movimento ganhou ainda mais força no fim do mês, quando a temporada de balanços das big techs trouxe novos sinais de que a tese da inteligência artificial continua sustentando crescimento e geração de receita. Em 30 de abril, a Alphabet registrou o maior volume do mês, com 12.158 negócios, enquanto a Meta atingiu 16.389 negociações, quase dez vezes acima do volume registrado no início de abril.
Alta no lucro do MAG7 de 60% deu validade à tese da IA
Os BDRs são certificados negociados na B3 que representam ações emitidas no exterior. Na prática, permitem ao investidor brasileiro acessar empresas globais sem precisar abrir conta em corretora internacional ou fazer remessas para fora do país.
Embora normalmente tenham liquidez menor do que as ações originais negociadas em Nova York, os dados mostram que os recibos das gigantes de tecnologia ganharam profundidade na bolsa brasileira ao longo de 2026.
A retomada do interesse local ocorreu em paralelo à recuperação das próprias ações americanas. No dia 24 de abril, a Nvidia voltou a fechar em nível recorde nos Estados Unidos, elevando novamente seu valor de mercado acima de US$ 5 trilhões, no maior fechamento desde outubro de 2025.
O Nasdaq acumulou alta de cerca de 15% no mês, seu melhor mês desde abril de 2020, enquanto o índice Philadelphia Semiconductor avançou quase 40% desde o fim de março, refletindo a volta do fluxo global para empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores.
Segundo estimativas do Goldman Sachs, os investimentos em inteligência artificial devem contribuir para um aumento de 12% nos lucros por ação do S&P 500 este ano e de 10% em 2027. A instituição prevê que o índice alcance 7.600 pontos até o final do ano.
Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, diz que a retomada de BDRs não foi provocada apenas pelos balanços, mas também por uma melhora do ambiente macroeconômico internacional.
“O que desbloqueou o apetite por risco na segunda quinzena foi a combinação de dois eventos sequenciais: primeiro, a sinalização de trégua comercial Estados Unidos e China e a percepção de que o pior cenário tarifário não se materializaria; segundo, os balanços do primeiro trimestre de 2026 chegando com força suficiente para sobrepor o ruído macro”, afirma.
Na avaliação de Saadia, o crescimento de lucro das gigantes americanas acabou funcionando como validação da própria tese de inteligência artificial. “O crescimento de lucro das Sete Magníficas (MAG7) de 60% no trimestre funcionou como evidência de que a tese de IA continuava intacta independentemente do ambiente geopolítico”, diz.
A melhora dos resultados ajudou a reduzir uma das principais preocupações do mercado desde o início do ano: o temor de que os investimentos bilionários em IA não gerassem retorno suficiente.
Dados compilados pelo jornal Financial Times apontam que Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft projetam gastar, juntas, US$ 725 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial neste ano, uma alta de 77% sobre o recorde de 2025. E os balanços do 1° trimestre ajudaram a aliviar parte do ceticismo.
A Alphabet, por exemplo, apresentou crescimento de 63% na receita do Google Cloud e um aumento superior a 400% na carteira de pedidos. A Amazon mostrou aceleração do backlog da AWS. Já Microsoft e Meta continuaram enfrentando questionamentos sobre o tamanho dos gastos em infraestrutura, embora tenham mostrado expansão relevante das receitas ligadas à IA e cloud.
“A dúvida estrutural desde o início de 2026 era se o capex absurdo que Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta estão colocando em data centers ia se converter em receita real ou virar um buraco negro de investimento sem retorno”, afirma Saadia. “Os resultados do 1T26 mostraram que a monetização começou a aparecer”.
BDR da Nvidia é o predileto dos brasileiros entre as ‘Sete Magníficas’
Para Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, a recuperação dos BDRs também reflete um comportamento típico do investidor pessoa física, principal público desse mercado no Brasil.
“A pessoa física tem essa característica de correr atrás daquilo que está tendo melhor performance”. afirma. “Essas empresas são conhecidas, estão entre as maiores do mundo e tiveram as maiores altas dos últimos anos”.
Segundo Siqueira, a correção do início do ano acabou sendo interpretada como oportunidade de entrada. “Valuation caro, resultados mais fracos no fim do ano passado, guerra comercial e incerteza macro ajudaram a provocar a correção. O que vimos nos últimos 15 a 30 dias foi muita gente aproveitando essa queda para voltar a montar posição”, diz.
Na visão dos especialistas, o padrão de concentração das negociações em dias específicos sugere mais recomposição de posições do que necessariamente entrada estrutural de novos investidores. Ilan Arbetman, analista da Ativa, observa que o aumento do número de negócios mostra sobretudo maior atividade e apetite tático.
“Não dá para afirmar expansão da base de investidores apenas olhando número de negócios. O dado aponta mais giro, recompra de posição e aumento de volatilidade”, afirma.
Entre as “Sete Magníficas”, a Nvidia segue como favorita do investidor brasileiro. O BDR da companhia acumulou 1,03 milhão de negócios entre janeiro e abril, de acordo com os dados da Quantum, praticamente o dobro da Microsoft, segunda colocada no ranking, com 514,8 mil.
“Ela virou o ativo de referência da narrativa de inteligência artificial para o investidor de varejo global”, afirma Saadia. “É o nome que aparece em todo lugar quando o assunto é IA”.
Arbetman concorda. Segundo ele, a Nvidia é vista como a forma mais “pura” de acessar o ciclo da inteligência artificial, por estar diretamente ligada à produção de chips e infraestrutura computacional.
Mas o mercado parece ter novos vencedores
Siqueira acrescenta, porém, que o mercado passou a diferenciar mais os vencedores dentro do próprio setor de tecnologia. “Nem todo mundo está subindo. Empresas de software têm tido desempenho mais fraco. O foco voltou para semicondutores, memória e infraestrutura”, afirma.
Essa rotação ajuda a explicar por que empresas ligadas à cadeia de chips e memória passaram a ganhar protagonismo globalmente. O próprio Financial Times destacou que a corrida por data centers e capacidade computacional está beneficiando toda a cadeia de semicondutores, energia e refrigeração.
A volta das big techs ao centro do mercado global também ajuda a explicar uma mudança recente de fluxo no Brasil. Os 13 primeiros dias negociação de maio foram marcados pela saída de R$ 6,4 bilhões de recursos estrangeiros.
A avaliação de parte do mercado é que o fortalecimento da tese de tecnologia e inteligência artificial tende a redirecionar capital para os Estados Unidos, reduzindo momentaneamente a atratividade relativa de mercados emergentes, como o Brasil.
Ainda assim, os especialistas avaliam que o movimento atual está menos baseado em euforia e mais em execução. A desconfiança sobre a IA não desapareceu completamente, mas perdeu protagonismo diante da melhora concreta dos resultados. “O debate mudou”, resume Arbetman. “A dúvida agora não é mais se existe demanda por IA. O mercado quer saber se o retorno sobre o capital investido será compatível com o tamanho do Capex”.












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