A primeira edição dos Enhanced Games, competição esportiva que permite o uso de substâncias proibidas no esporte tradicional, aconteceu no último domingo em Las Vegas. Por trás do barulho provocado pela também chamada “Olimpíadas dos Esteroides”, o que mais chama atenção não é apenas o doping liberado — é o tamanho do negócio construído ao redor da ideia.
A empresa responsável pelo evento, a Enhanced Inc., estreou na Bolsa de Valores dos Estados Unidos há menos de um mês. Desde então, suas ações acumulam alta superior a 20%, levando a companhia a atingir valor de mercado próximo de US$ 1,2 bilhão — mesmo com receita quase inexistente no trimestre.
Fundada pelo advogado australiano Aron D’Souza, a Enhanced Inc. tem como CEO o norte-americano Maximilian Martin. O principal rosto por trás da expansão financeira do evento, porém, é Christian Angermayer, investidor alemão de 48 anos que ficou bilionário após vender uma empresa de biotecnologia focada em terapia gênica. Ele é cofundador e maior acionista da Enhanced, além de ter participação em empresas de biotecnologia psicodélica.
“Acredito que os consumidores observarão os resultados tangíveis alcançados pelos atletas do Enhanced Group e procurarão aplicar essas melhorias em suas próprias vidas”, declarou Angermayer.
Os outros investidores envolvidos ajudam a explicar por que o mercado passou a olhar para os Enhanced Games como algo maior do que uma competição esportiva. Entre os nomes ligados ao projeto estão Peter Thiel, Donald Trump Jr., Balaji Srinivasan e os irmãos Winklevoss, conhecidos pelo envolvimento com criptomoedas e empresas de tecnologia.
O que são os Enhanced Games?
Os Enhanced Games nasceram com uma proposta simples — e extremamente controversa: permitir que atletas utilizem substâncias proibidas no esporte convencional, desde que aprovadas pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, e sob supervisão médica. Testosterona, hormônio do crescimento (HGH), EPO, peptídeos e esteroides anabolizantes entram no protocolo permitido.
Segundo os organizadores, o objetivo é “abraçar a ciência” e explorar os limites da performance humana de forma controlada. De acordo com eles, todos os participantes passam por exames médicos constantes e acompanhamento clínico durante o evento.
Críticos, porém, enxergam o evento como uma tentativa de normalizar o doping e transformar atletas em vitrines de uma indústria bilionária de performance e longevidade.
A competição reúne cerca de 50 atletas de 25 países em provas de natação, atletismo, levantamento de peso e strongman — modalidade de força extrema que envolve tarefas como puxar caminhões e carregar pedras gigantes.
Entre os participantes está o brasileiro Felipe Lima, ex-nadador olímpico e medalhista mundial. Aos 41 anos, ele saiu da aposentadoria para competir no evento. “Bater de frente com o esporte tradicional não tem sentido nenhum. O Enhanced Games chega para mudar a história da performance humana”, afirmou em entrevista ao Fantástico.
Muito além do esporte
Embora o evento seja vendido como uma revolução esportiva, o modelo de negócios aponta para outra direção. A edição inaugural em Las Vegas teve transmissão gratuita, ingressos sem custo para o público, premiações milionárias e uma estrutura montada para gerar atenção global nas redes sociais. Atletas podem receber até US$ 1 milhão caso superem recordes mundiais.
O nadador grego Kristian Gkolomeev virou símbolo da competição ao registrar 20s89 nos 50 metros livre, superando o tempo histórico de César Cielo (20s91). O resultado, porém, não possui reconhecimento oficial das federações esportivas internacionais.
Os próprios organizadores admitem que os Enhanced Games fazem parte de um mercado ligado à longevidade, reposição hormonal e aprimoramento humano. “O evento esportivo do Enhanced Group ampliará enormemente o mercado, conscientizando milhões e milhões de pessoas sobre o poder da melhoria de desempenho”, disse Angermayer em declaração citada pela BBC.
A empresa já promove testosterona, peptídeos, terapias hormonais e medicamentos GLP-1 em sua plataforma digital.
O apoio bilionário e o discurso transumanista
Os Enhanced Games começaram a ser estruturados em 2022 e ganharam força ao atrair investidores ligados ao Vale do Silício, ao universo das criptomoedas e ao movimento transumanista — corrente que aposta no uso de tecnologia e biotecnologia para superar limitações biológicas humanas.
Thiel há anos investe em empresas de biotecnologia, rejuvenescimento e extensão da vida humana. Angermayer também atua em negócios ligados à medicina antienvelhecimento e terapias experimentais.
A retórica dos organizadores mistura liberdade individual, inovação científica e críticas ao sistema antidoping tradicional. Para eles, o esporte já convive com doping clandestino, e uma estrutura supervisionada seria mais segura e transparente. D’Souza argumenta que o “esporte limpo” seria uma ilusão, já que parte dos atletas profissionais utilizaria substâncias de desempenho sem ser detectada.
O que dizem os críticos
O Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Agência Mundial Antidoping (WADA) classificaram os Enhanced Games como “perigosos” e “irresponsáveis”. A World Aquatics afirmou que atletas envolvidos no evento serão banidos de competições oficiais.
A presidente-executiva da UK Antidoping (Ukad), Jane Rumble, afirmou à BBC que os Enhanced Games passam uma “mensagem perigosa” ao tratar substâncias de melhora de desempenho sem destacar adequadamente os riscos à saúde dos atletas.
O professor Ian Boardley, da Universidade de Birmingham, disse que participantes podem ficar mais expostos a problemas cardíacos e transtornos psiquiátricos. Segundo ele, as promessas dos organizadores sobre segurança e supervisão médica seriam “enganosas”.
Críticos afirmam ainda que o evento banaliza substâncias com riscos importantes à saúde e pode estimular a cultura do doping entre jovens influenciados pela chamada “gym culture”. Segundo estudos recentes citados pelo The Conversation, o consumo de compostos como SARMs — usados para ganho muscular — cresce entre jovens nas redes sociais.
Em contrapartida, Byron Hyde, pesquisador associado da Universidade de Bangor, defendeu que os críticos ignoram um ponto central: o esporte profissional sempre conviveu com riscos extremos à saúde. Em entrevista à BBC, ele afirmou que modalidades tradicionais já expõem atletas a danos físicos e psicológicos severos — como o trauma cerebral no boxe. “Os Enhanced Games apenas elevam ainda mais o limite de um risco que a sociedade já aceitou”, disse.












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