Os Exchange Traded Funds (ETFs) permitem investir em diversos tipos de produtos: do ouro às criptomoedas, passando pela engenharia espacial até a renda fixa. Para especialistas ouvidos pela EXAME, eles são a “porta de entrada” aos investidores, já que permitem investir em diferentes ativos sem precisar selecionar um por um. Isso porque eles replicam índices, como o Ibovespa ou S&P 500.
A ideia é diversificar, muitas vezes, apostando na renda variável — sendo uma associação frequente linkar ETF com ações.
Porém, no Brasil, a busca pela segurança ainda é um vetor importante. Dos R$ 121 bilhões de patrimônio dos ETFs listados na B3, quase metade — R$ 55 bilhões — são ETFs de renda fixa — e dos 196 fundos, 106 são de renda fixa. O principal motivo? Os juros elevados, com a Selic na casa dos 14,25% ao ano.
“Fica cômodo para o investidor brasileiro, literalmente, deixar o dinheiro estacionado atrelado ao CDI. Quando a gente compara isso com ativos de risco, favorece ainda mais o investidor ter esse crescimento praticamente linear, só para cima, do que realmente tentar ir para um mercado que pode oscilar muito mais”, diz Renato Nobile, CEO e CIO da Buena Vista Capital.
A análise é reforçada por Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, que destaca que o juro real em torno de 8% é um dos principais fatores de atração para os investidores. “O ETF, que lá fora nasceu como porta de entrada para ações, aqui virou principalmente uma forma nova, líquida e eficiente de acessar a classe que o brasileiro já prefere: a renda fixa”, explica.
O especialista pondera, porém, que o crescimento dos ETFs no Brasil não representa uma mudança no perfil do investidor brasileiro, historicamente mais conservador. Na avaliação dele, o avanço ocorreu porque o próprio mercado ampliou a oferta de ETFs de renda fixa, permitindo que um instrumento antes associado à Bolsa acompanhasse a preferência dos investidores por aplicações mais conservadoras.
“Some a isso um investidor historicamente conservador e mudanças recentes no modelo de distribuição que empurraram os ETFs. Ou seja, não é tanto que o brasileiro entrou pela porta da renda variável e ficou na renda fixa; é que o veículo ETF cresceu pegando carona na classe de ativo que já domina a preferência nacional.”
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Mas investir em ETF de renda fixa (também) é diversificar
Ainda assim, a ideia de que se manter na renda fixa não é diversificar está equivocada, garantem os especialistas. Eles citam que, em uma cota o investidor carrega dezenas de títulos, com vários vencimentos e emissores, o que dilui o risco de concentração de comprar um papel só.
“O que ele não faz é diversificar entre classes de ativos. Uma carteira 100% em ETF de renda fixa está concentrada em um único fator de risco, que é a taxa de juros brasileira. Então a intuição de que falta diversificação tem fundamento no nível do portfólio, não no do produto”, pontua Trevisan.
Para Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos. investir em ETFs é uma diversificação, sim, mas depende muito do objetivo do investidor e da carteira que ele tem. “Se ele já tem muita renda fixa na carteira e está investindo em algum ETF de renda fixa, ele está aportando na mesma classe que já tem provavelmente.”
Na outra ponta, Nobile complementa dizendo que quando o investidor fica somente na renda fixa, principalmente atrelada ao CDI, ele acaba deixando de aproveitar oportunidades de crescimento de capital disponíveis na renda variável ou em ativos alternativos.
“Claro que não precisa ser um ou outro. Acho que é possível ter os dois: tanto ETFs de renda fixa quanto outras categorias. Os ETFs vieram justamente para simplificar a elaboração do portfólio de cada investidor.”
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Carla Morais, sócia e head de Produtos e Comercial na Idex Analytics, ainda acrescenta que o ETF dessa classe de ativos acaba sendo o produto que dá a sensação de “estar na bolsa” mesmo sem sair da sua zona de conforto. “Por isso, acredito que depois que ele testa o produto ETF dentro da classe que já conhece, fica mais fácil investir em outras classes depois.”
Vantagens e desvantagens dessa classe
Um ETF de renda fixa funciona como um fundo passivo listado em bolsa que replica um índice. O investidor compra e vende cotas pelo home broker, exatamente como faria com uma ação, explica Morais. Entre os principais produtos disponíveis na B3 estão ETFs atrelados ao Tesouro Selic, como o LFTS11, aos títulos indexados à inflação, como IMAB11 e IMBB11, aos prefixados, como o IRFM11, além de fundos que investem em debêntures e crédito privado.
Segundo Trevisan, outro diferencial é o custo. “As taxas de administração hoje ficam, em geral, entre 0,19% e 0,30% ao ano, bem abaixo das cobradas por fundos ativos. Além disso, o ETF não tem vencimento: quando um título da carteira vence, ele é substituído automaticamente por outro, sem que o investidor precise fazer qualquer movimentação”.
Também existem diferenças importantes entre comprar um papel diretamente pelo Tesouro Direto e adquirir um ETF de renda fixa. No Tesouro Direto, o investidor escolhe um título específico e, caso permaneça com ele até o vencimento, sabe exatamente qual será sua rentabilidade contratada. Essa previsibilidade torna o investimento interessante para objetivos com data definida, como a compra de um imóvel.
Já nos ETFs de renda fixa, a principal vantagem está na diversificação e na praticidade. Com uma única aplicação, o investidor passa a ter exposição a uma cesta de títulos, sem precisar escolher papéis individuais nem se preocupar com o reinvestimento quando eles vencem. Além disso, os ETFs costumam oferecer custos reduzidos e maior eficiência tributária
Enquanto os títulos públicos seguem a tabela regressiva do Imposto de Renda (IR) — com alíquotas que variam de 22,5% para aplicações de curto prazo até 15% para investimentos superiores a dois anos —, os ETFs de renda fixa são tributados, em regra, com alíquota fixa de 15% sobre o ganho de capital, independentemente do prazo de permanência.
Além disso, diferentemente dos fundos tradicionais de renda fixa, os ETFs não sofrem incidência de come-cotas, mecanismo que antecipa semestralmente o recolhimento do Imposto de Renda e reduz o número de cotas do investidor.
Mas, apesar das vantagens, os especialistas ressaltam que ETF de renda fixa não é sinônimo de retorno garantido. Como os fundos são negociados diariamente em bolsa, suas cotas estão sujeitas à marcação a mercado, o que significa que podem subir ou cair de preço antes do vencimento dos títulos que compõem a carteira.
Por isso, quem busca exatamente uma rentabilidade conhecida desde o início da aplicação pode encontrar maior previsibilidade ao comprar um título público diretamente e levá-lo até o vencimento. Já os ETFs tendem a fazer mais sentido para investidores que desejam exposição diversificada à renda fixa, maior liquidez e uma gestão simplificada da carteira.












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