Os Exchange Traded Funds (ETFs) estão ganhando cada vez mais espaço na carteira dos investidores brasileiros. O movimento que se observou nos últimos quase 20 anos nos Estados Unidos, desde a crise de 2008, agora chega no Brasil aos poucos. “Cada ETF é lançado para atender uma demanda, portanto os lançamentos buscam resolver o problema de algum investidor”, diz Flávio Vegas, Especialista de Produtos da Global X.
Nos Estados Unidos, existem mais de 5 mil ETFs. Só esse ano, segundo dados da Morningstar, citados pelo The Wall Street Journal, 466 ETFs foram lançados até meados de maio. Já por aqui, em maio de 2026, havia 196 ETFs — um aumento de 56,80% frente aos 125 ETFs listados na bolsa brasileira no mesmo mês de 2025.
O estoque financeiro em posição em custódia na B3 praticamente dobrou ao passar de R$ 61 bilhões para R$ 121 bilhões no mesmo período. Enquanto o número de investidores saltou de 536 mil para 860 mil entre dezembro de 2022 e maio de 2026. Em volume negociado, até o acumulado de maio deste ano, foram R$ 194 bilhões. Já o número de negócios ronda os 20 milhões.
“Nos EUA o assunto ETF já é um tema mais presente na realidade do investidor. É algo bastante comum encontrar propagandas de ETFs em espaços públicos, um nível de maturidade que ainda não alcançamos aqui no Brasil”, diz Anderson Moreira, head de conteúdo da DEX e especialista de investimentos.
Entretanto, o cenário começa a mudar no Brasil. “O ano passado foi um recorde em termos de crescimento da indústria e acreditamos que o mesmo acontecerá este ano. Portanto, a questão não é se o fenômeno dos ETFs visto nos Estados Unidos vai acontecer no Brasil, mas quando”, diz Renato Nobile, CEO e CIO da Buena Vista Capital.
Poder diversificar sua carteira de investimentos “sem muto esforço” é o intuito dos ETFs. Terras raras, minerais críticos, ouro, semicondutores, empresas de defesa, criptomoedas e engenharia espacial, tudo isso é possível investir por meio desses instrumentos — e, claro, a renda fixa.
“O ETF é uma forma de acessar uma tese de investimento de maneira mais eficiente. Você não precisa escolher qual empresa comprar. Com uma única cota, você acessa todas elas”, explica Bianca Maria, gerente de Produtos da B3. Para ela, os ETFs são a “porta de entrada” para o investidor. “Imagina você ter que estudar cada ativo”, diz.
Nobile, comenta que, por ser um produto mais líquido, já que é negociado em bolsa, mais transparente, porque o investidor tem acesso a tudo o que compõe o ETF e, muitas vezes, mais eficiente do ponto de vista fiscal, a experiência do cliente e o custo acabam atraindo tanto o investidor quanto o alocador.
A receita que dá certo
No Brasil, os ETFs são chamado ‘ETFs de gestão passiva’, ou seja, eles replicam igualmente a composição de um índice, como Ibovespa — o mais famoso é o BOVA11. “Ele segue exatamente o que a ‘receita’ do índice fala: vão entrar X empresas, com Y de faturamento, de tal tamanho”, ilustra Maria. Já nos demais países existem os chamados ‘ETFs de gestão ativa’, que é quando, além de replicar um índice, eles podem mexer nas carteiras.
Antes de chegar ao mercado brasileiro, os ETFs ativos ainda dependem de mudanças na regulamentação. A modalidade está na agenda regulatória da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que conduz uma consulta pública para revisar as regras do setor. A expectativa é que as normas específicas para esses produtos sejam publicadas em 2027.
Mas é justamente essa gestão passiva que faz os custos dos ETFs serem menores. “Por seguirem essa receita do índice, isso torna a taxa de administração mais barata, porque diferente de um fundo ativo, você não está pagando um gestor para escolher o que tem ali dentro”, comenta Maria.
“A taxa média dos ETFs é significativamente inferior à dos fundos. Além disso, os ETFs não possuem taxa de performance. Portanto, de maneira geral, eles são muito mais baratos do que outros fundos”, pontua Nobile.
Diferentemente dos fundos tradicionais, eles também não estão sujeitos à cobrança de IOF nem ao mecanismo de come-cotas — antecipação semestral do Imposto de Renda que reduz automaticamente parte das cotas do investidor nos meses de maio e novembro.
Entretanto, há os ETFs temáticos, que possuem taxas de administração maior. Segundo Vegas, ETFs de índices amplos, que têm empresas de apenas uma geografia, como S&P 500, cobram taxas bem menores (por volta de 0,03% ao ano). Por outro lado, ETFs temáticos, que acessam empresas do mundo todo, cobram uma taxa de administração um pouco maior (entre 0,50% e 0,70% ao ano) — mas ainda sim, bem menores do que outros tipos de veículos de investimentos.
O ‘boom’ dos ETFs temáticos
Mas, afinal, o que são esses ETFs temáticos? Com o surgimento de novas tendências econômicas e tecnológicas, as gestoras passaram a lançar fundos voltados para nichos específicos do mercado. Se antes os ETFs se limitavam a acompanhar índices amplos, como o Ibovespa ou o S&P 500, hoje o investidor encontra produtos ligados a inteligência artificial, defesa, cibersegurança, minerais críticos, energia nuclear, infraestrutura para data centers e até à economia espacial.
“Esses ETFs são lançados porque novos temas surgem e passam a ganhar relevância. Um exemplo é a inteligência artificial, que, nos últimos dois anos, registrou um crescimento expressivo nos investimentos. Observamos um fluxo crescente de recursos direcionados às empresas desse segmento e, consequentemente, muitos ETFs passaram a ser lançados com esse foco”, afirma Nobile.
Segundo Hulisses Dias, mestre em Finanças pela Universidade de Sorbonne e especialista em investimentos, esses produtos procuram capturar transformações estruturais da economia mundial.
“A tese de defesa envolve o aumento dos gastos militares, a modernização tecnológica, os satélites, os sensores, os drones, a segurança nacional e a proteção de infraestruturas críticas. Já a de terras raras e minerais críticos está relacionada à eletrificação, às baterias, aos semicondutores, às turbinas, às redes elétricas e à busca por autonomia geopolítica”.
Na inteligência artificial, a tese vai além das gigantes de tecnologia e engloba fabricantes de semicondutores, data centers, computação em nuvem, computação quântica e infraestrutura digital. Há ainda ETFs voltados para empresas de cibersegurança, mineração de urânio e cadeia da energia nuclear, além de fundos ligados à economia espacial.
Até a economia espacial ganhou um ETF próprio. Apesar de alguns serem chamados de “ETF de OVNIs”, Dias ressalta que o produto não investe em objetos voadores não identificados, mas em empresas dos setores aeroespacial, defesa, satélites e sensores. “ETFs ligados a OVNIs representam o extremo do marketing financeiro. Geralmente, eles reúnem empresas desses setores sob um rótulo chamativo.”
Apesar do interesse crescente, Dias faz um alerta: muitos ETFs temáticos chegam ao mercado justamente quando determinado assunto já está em evidência. “Quando todos já sabem que determinado tema é promissor, esse otimismo tende a estar incorporado aos preços, o que pode reduzir os retornos futuros.”
Apesar dos ETFs temáticos estarem se destacando, no Brasil, é a renda fixa que chama a atenção. Com a Selic ainda elevada, em 14,25% ao ano, fundos que compram títulos públicos, por exemplo, chamam a atenção do investidor mais do que fundos de ações temáticos.
“Investir nesses ETFs faz sentido para o investidor brasileiro diante dos juros reais historicamente elevados, da familiaridade com a renda fixa, da busca por eficiência tributária e da demanda por instrumentos transparentes, líquidos e com custos menores do que os dos fundos tradicionais”, comenta Dias.
Como investir em ETFs
O investidor brasileiro pode acessar tanto ETFs listados na B3 quanto produtos internacionais sem precisar abrir uma conta no exterior. Nesse caso, existem duas alternativas: comprar um ETF brasileiro que investe em cotas de um ETF negociado no exterior ou adquirir um BDR de ETF que replica o desempenho de um fundo estrangeiro.
“Se analisarmos a evolução do mercado brasileiro, há três anos havia um número reduzido de ETFs e de BDRs de ETFs. Hoje o investidor consegue acessar diversos mercados sem precisar enviar recursos para o exterior”, afirma Renato Nobile.
Em maio de 2025, havia 256 BDRs de ETF listados na B3. No mesmo mês deste ano, esse número era de 300. O estoque financeiro saltou de R$ 4,44 bilhões para R$ 5,37 bilhões entre os mesmos meses. Já o número de investidores foi de 14,3 mil para 57,1 mil, enquanto o número de negócios ficou na casa dos 1,4 mil.
Segundo Flávio Vegas, a principal diferença entre as duas modalidades está nos custos. “No ETF local, o investidor paga a taxa do fundo brasileiro e também a do ETF de referência. Já no BDR de ETF, a cobrança é apenas da taxa do fundo listado no exterior.” Em termos de exposição ao investimento, porém, ambos oferecem praticamente o mesmo resultado.
Riscos e cuidados antes de investir
Embora sejam instrumentos diversificados, os ETFs não são sinônimo de segurança. O risco depende dos ativos que compõem a carteira.
“ETF é apenas a forma de investir. Existe ETF de ações, de renda fixa, de criptomoedas e de derivativos. O importante é olhar o que existe dentro do ETF. O risco será sempre no risco do ativo que ele replica”, afirma Bianca Maria, gerente de Produtos da B3.
Além de entender a estratégia do fundo, Vegas recomenda analisar o índice de referência, a concentração em determinados setores ou países, a exposição cambial, a liquidez, os custos e o tracking error — indicador que mede o quanto o desempenho do ETF se distancia do índice que ele busca acompanhar.
Outro cuidado é não investir apenas porque um tema está em alta. “O primeiro cuidado é não comprar apenas o nome do ETF: é preciso analisar a carteira. ETFs temáticos costumam ser lançados quando o tema está popular e a demanda é elevada”, afirma Dias.
Segundo o especialista, para a maior parte dos investidores, o núcleo da carteira deve continuar concentrado em ETFs amplos, diversificados, líquidos e de baixo custo, deixando os ETFs temáticos para uma parcela menor da estratégia.












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