O fluxo estrangeiro que ajudou a levar o Ibovespa a máximas históricas no início de 2026 entrou em forte reversão nas últimas semanas e passou a pressionar a bolsa brasileira.
Depois de um primeiro trimestre marcado por forte entrada de capital internacional, mesmo em meio ao aumento das tensões geopolíticas globais, a segunda quinzena de abril e os primeiros 15 dias de maio passaram a mostrar um cenário completamente diferente na B3, com retirada consistente de recursos, aumento da volatilidade e perda de fôlego do principal índice acionário da bolsa brasileira.
Entre 15 de abril e 15 de maio, os investidores estrangeiros tiveram saldo negativo em 19 dos 21 pregões do período. As únicas exceções foram entradas discretas em 20 de abril, de R$ 32,13 milhões, e em 8 de maio, de R$ 118,78 milhões.
No intervalo, ocorreram também as duas maiores retiradas diárias de capital estrangeiro do ano. Em 15 de maio, houve saída líquida de R$ 2,47 bilhões, o pior resultado de 2026 até agora. Antes disso, o recorde negativo havia sido registrado em 17 de abril, com retirada de R$ 2,42 bilhões.
A intensidade das vendas se espalhou ao longo de praticamente todo o período. Entre 22 de abril e 7 de maio, a bolsa brasileira enfrentou dez pregões consecutivos de saída de capital estrangeiro. Em diversos dias, as retiradas superaram R$ 1 bilhão, como em 24 de abril, que registrou saída de R$ 1,54 bilhão, 29 de abril, com a retirada de R$ 1,93 bilhão, 30 de abril, queda de R$ 1,75 bilhão, e 4 de maio, saída de R$ 1,39 bilhão.
E os dias seguintes do mês de maio vêm consolidando essa reversão. Até o dia 15, o saldo acumulado dos estrangeiros estava negativo em R$ 9,54 bilhões. Dos dez pregões contabilizados no período, apenas um registrou entrada líquida de recursos internacionais.
O movimento contrasta fortemente com o cenário observado no início do ano, quando o Brasil passou a atrair volumes expressivos de capital externo mesmo diante da piora do ambiente internacional.
Em relatório publicado durante o avanço da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o JP Morgan classificou o desempenho brasileiro como”“extraordinário”. O banco estadunidense chegou a destacar, na época, que o Brasil seguia recebendo fluxo estrangeiro mesmo com fortalecimento do dólar, abertura das curvas de juros globais e retirada de cerca de US$ 8 bilhões dos mercados emergentes desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.
“É simplesmente extraordinário o fato de o Brasil estar recebendo fluxos em um momento de aversão ao risco global”, afirmou a equipe de estratégia para América Latina e Brasil do JP Morgan, liderada por Emy Shayo Cherman. O banco chegou a afirmar que a América Latina havia passado a ser vista como um “porto seguro” dentro dos mercados emergentes e que, dentro desse contexto, “o Brasil é o país mais bem posicionado”.
Na prática, o fluxo estrangeiro ajudou a impulsionar o Ibovespa para perto dos 200 mil pontos. O índice renovou máximas históricas nominais e também ajustadas pela inflação, alimentando a percepção de que a bolsa brasileira poderia continuar captando recursos mesmo em um ambiente internacional mais turbulento.
O próprio JP Morgan chamou atenção, à época, para a consistência das entradas de capital. Em março, dos 14 pregões analisados pelo banco, apenas três registraram saída de recursos estrangeiros.
O dinheiro está voltando para os EUA
A percepção positiva, porém, começou a mudar na segunda quinzena de abril. Parte da reversão coincidiu com a retomada do apetite global por empresas de tecnologia e inteligência artificial nos Estados Unidos.
Depois de meses de volatilidade e dúvidas sobre os retornos dos investimentos bilionários das big techs, os resultados corporativos do 1° trimestre deste ano reacenderam o entusiasmo dos investidores internacionais.
Enquanto o Nasdaq acumulou alta de cerca de 15% em abril — seu melhor desempenho mensal desde 2020 —, o índice Philadelphia Semiconductor avançou quase 40% desde o fim de março, refletindo a volta do fluxo global para empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores. Essa mudança de direção do capital global ajudou a reduzir o interesse relativo pelo Brasil.
Após se aproximar dos 200 mil pontos, o Ibovespa perdeu força e passou a entrar em correção. Entre o início de maio e o fechamento de 18 de maio, o índice caiu 8.624 pontos, saindo de 185.600 para 176.976 pontos, um recuo de aproximadamente 4,65%.
Ao mesmo tempo, os ativos brasileiros passaram a incorporar um aumento das incertezas políticas domésticas. Na última quarta-feira, 13, o Ibovespa caiu 1,80%, aos 177.098 pontos, enquanto o dólar avançou 2,31%, para R$ 5,009.
O mercado já operava sob cautela diante da inflação nos Estados Unidos, da alta do petróleo e das tensões no Oriente Médio, mas o movimento ganhou intensidade após a divulgação de reportagem envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro. Um episódio que ampliou a pressão principalmente sobre setores mais sensíveis ao cenário fiscal e à trajetória dos juros.
Mais recentemente, o mercado também passou a monitorar com atenção os efeitos eleitorais sobre os ativos brasileiros. Uma pesquisa Atlas Intel mostrou piora no desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), revertendo um cenário que anteriormente indicava empate técnico com o candidato à reeleição.
O movimento passou a reforçar a percepção de aumento do risco político na bolsa brasileira em um momento em que os investidores estrangeiros já vinham reduzindo exposição ao país.
Rali das ações brasileiras perdeu força?
Ainda assim, apesar da forte deterioração recente, o saldo acumulado do investidor estrangeiro em 2026 segue positivo em R$ 44,99 bilhões, sustentado principalmente pelas entradas expressivas registradas no primeiro trimestre, de R$ 24,3 bilhões em janeiro, R$ 15,3 bilhões em fevereiro e R$ 11,6 bilhões em março.
A título de comparação, ao longo de todo o ano passado, o gringo aportou R$ 25,4 bilhões na bolsa.
Enquanto os estrangeiros vendem, investidores locais passaram a atuar na ponta oposta. Em 15 de maio, por exemplo, os institucionais aportaram R$ 5,18 bilhões na bolsa brasileira, absorvendo grande parte da pressão vendedora externa. As pessoas físicas também registraram entrada líquida de R$ 844 milhões no mesmo pregão.
No mercado, a avaliação agora é de maior cautela para o curto prazo. Segundo análise técnica do Itaú BBA, o Ibovespa “segue sem tendência definida no curto prazo” e está próximo da região de 175 mil pontos, considerada um suporte importante para o índice.
“O Ibovespa permanece sem tendência definida no curto prazo e corre o risco de iniciar uma tendência de baixa”, afirma o banco. Na avaliação do BBA, a perda do patamar de 175 mil pontos “abriria espaço para uma tendência de baixa”, com possíveis alvos em 163,5 mil e 159,3 mil pontos.
Por outro lado, para aliviar a pressão negativa, o índice precisaria superar primeiro a região de 179,5 mil pontos. Acima disso, a faixa de 188,7 mil pontos aparece como uma nova barreira antes de uma eventual retomada em direção à máxima histórica de 199,3 mil pontos.
O banco observa ainda que “alguns índices setoriais já mostram sinais de fragilidade”, embora mantenha uma visão estruturalmente positiva para a bolsa brasileira ao longo do ano.
Na avaliação de João Daronco, analista CNPI da Suno Research, a velocidade da mudança de humor do mercado mostra como o cenário segue sensível tanto ao ambiente internacional quanto aos fatores políticos domésticos. “Se perguntassem ao mercado dia 14 de abril o que se esperava do ano, diriam que logo logo teríamos a festa dos 200 mil pontos, que parece mais distante a cada dia que passa”, afirma.
Apesar disso, o analista avalia que a recente correção voltou a abrir oportunidades na bolsa brasileira. “Começo a ver, novamente, a bolsa com bons olhos, principalmente quando olhamos em termos de múltiplos históricos”, diz. Daronco também afirma que o mercado ainda pode encontrar catalisadores positivos nos próximos meses.
“Acredito que devemos ter alguns catalizadores nos próximos períodos, como a velocidade da queda na taxa de juros, bem como eleições, que poderiam destravar valor para a bolsa no curto prazo”, afirma. Ao mesmo tempo, ele reconhece que o cenário permanece altamente incerto. “São variáveis de difícil precisão”, diz.
Segundo o analista, a recente queda aumentou significativamente o número de oportunidades na bolsa, especialmente entre empresas menores. “O que posso afirmar é que a quantidade de oportunidades que temos visto subiu significativamente, principalmente após essas quedas. Acho que o stock picking e, principalmente, olhar as small caps, tem muito valor”, afirma.
Rafael Moyses Espinoso, estrategista e portfolio manager da GCB Investimentos, também observa que a recente saída de capital externo na bolsa está ligada a um movimento global de juros para cima e a volta de uma “certa animação” com a tese de Inteligência Artificial (IA).
“Vimos na última semana uma piora dos principais índices de ações emergentes e o Brasil não saiu ileso, com pressão na curva de juros local e também na moeda”, diz. Espinoso afirma, contudo, que apesar disso, essa reversão do fluxo estrangeiro “não parece algo estrutural”.
“Dado que ainda vemos espaço para um ajuste na Selic, novos ciclos de valorização do real e expansão de múltiplos das principais empresas da bolsa brasileira. Atualmente estamos vendo descontos bem interessantes em empresas pagadoras de dividendos e com TIR´s entre 11% e 13%”, acrescenta.
Já Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, avalia que a eleição deve trazer um período de forte volatilidade para o mercado.
“Ainda acredito que as ações brasileiras têm espaço para continuar subindo, mas o cenário ficou mais delicado porque a disputa eleitoral acabou sendo antecipada. Normalmente, esse tema ganha força no começo do segundo semestre, mas agora já começou a influenciar os ativos”, diz Mollo.












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