Renegociar dívida traz alívio, mas não resolve problema estrutural, diz presidente da ABBC

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O excesso de oferta de crédito pode estar contribuindo para o aumento do endividamento das famílias brasileiras, mas não é o único fator por trás do problema, segundo falou Leandro Vilain, CEO da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), durante o Fórum de Bem-Estar Financeiro do Sicredti. Para ele, o cenário é multifatorial.

“Eu entendo que a sobreoferta de crédito tenha sido um dos fatores, sim, mas existem outros também”, afirmou. “Seguramente não é um fator só. É um conjunto de coisas que estão acontecendo.”

O país enfrenta há cerca de três anos um ciclo prolongado de juros elevados, além de novos elementos que passaram a pressionar a renda das famílias. Entre eles, ele citou o crescimento das bets, o avanço do consumo digital e até o peso da tributação sobre o consumo.

“Sem fazer nenhum juízo de valor, tem a questão das bets, que estão consumindo parte dessa renda”, disse.

O CEO da ABBC também afirmou que o enfrentamento do endividamento exige olhar individualizado para a realidade financeira das famílias, especialmente em um país em que grande parte da população vive com até dois salários mínimos.

“É muito difícil imaginar que uma pessoa que ganha um salário mínimo tenha capacidade de poupança”, afirmou. Por isso, a solução passa por orientação financeira personalizada, com foco em evitar gastos não essenciais e preservar despesas básicas.

“Não existe outra forma de fazer isso sem olhar individualmente para a realidade de cada família, de cada brasileiro”, disse. Na avaliação dele, esse acompanhamento em larga escala só é possível com uso intensivo de tecnologia e dados.

Falta de informação entre instituições

Apesar de reconhecer que pode haver excesso de oferta de crédito no mercado, o presidente da ABBC afirmou que isso é consequência da falta de compartilhamento eficiente de informações entre as instituições financeiras — e não a causa principal do problema.

Segundo o dirigente, a abertura do mercado bancário e a entrada de fintechs aumentaram a concorrência, o que considera positivo. Porém, as instituições ainda operam sem uma visão completa do grau de endividamento dos consumidores.

“Cada um desses participantes não consegue saber o que o vizinho está fazendo, o que a outra instituição está fazendo, justamente pela falta de informações mais completas”, afirmou.

Ele explicou que, sem um sistema mais robusto de informações de crédito, cada instituição oferece suas próprias linhas individualmente e o resultado agregado pode elevar o endividamento das famílias.

“A sobreoferta de crédito pode estar acontecendo, mas ela é consequência da falta de informação”, disse.

Renegociação ajuda, mas problema é estrutural

O executivo afirmou que os programas de renegociação de dívida têm papel importante para aliviar o orçamento das famílias no curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural do endividamento.

Segundo ele, os bancos tradicionalmente realizam renegociações, mas atualmente há uma força-tarefa mais ampla em funcionamento para reestruturar dívidas. “As famílias precisam de um alívio de curto prazo”, afirmou.

Apesar disso, ele defendeu medidas mais estruturais para melhorar a concessão de crédito e reduzir o risco de superendividamento.

Cadastro positivo “ainda não é suficiente”

Entre as mudanças defendidas pelo presidente da ABBC está o fortalecimento do cadastro positivo. Segundo ele, a ferramenta existente no Brasil ainda não reúne todas as informações necessárias para permitir uma avaliação mais precisa da situação financeira dos consumidores.

“O cadastro positivo existe, funciona, mas ainda não é suficiente”, afirmou.

Na avaliação dele, um sistema mais robusto permitiria às instituições financeiras adequar melhor as condições de crédito ao perfil de cada cliente. “Se o cliente já está muito endividado, obviamente você vai oferecer menos crédito, alongar prazo, dar carência”, disse.

Ele também destacou a dificuldade de análise de crédito para trabalhadores autônomos e informais, como motoristas de aplicativos, cuja renda varia significativamente e nem sempre é facilmente comprovada.

Open finance pode melhorar cenário

Vilain também defendeu o avanço do open finance como instrumento para melhorar a circulação de dados entre instituições financeiras e aperfeiçoar a análise de crédito. Apesar da percepção de que a adesão ainda é baixa, ele afirmou que os números mostram crescimento relevante do sistema.

“As pessoas estão aderindo, sim. Já existem cerca de 100 milhões de consentimentos”, disse.

Segundo ele, as instituições financeiras já utilizam intensamente os dados compartilhados no sistema. “Tem cerca de 10 bilhões de chamadas de API por semana”, afirmou.

Na avaliação do dirigente, os primeiros casos de uso do open finance ficaram concentrados na área de crédito, justamente pela dificuldade histórica do setor em acessar informações mais completas sobre os consumidores.

“Muitos desses dados ainda estão sendo utilizados predominantemente pelo crédito, mas já vejo migração para novos casos de uso fora desse ambiente”, disse.

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