O mercado de trabalho global atravessa em 2026 uma nova onda de demissões, impulsionada pela adoção acelerada de inteligência artificial (IA), reestruturações corporativas e pressões econômicas. Mais de 30 grandes empresas já anunciaram cortes neste ano, em setores que vão de tecnologia e finanças a varejo, logística e bens de consumo, de acordo com levantamento da Business Insider.
Segundo pesquisa do Fórum Econômico Mundial divulgada no ano passado e citada pelo veículo, 41% das empresas no mundo esperam reduzir suas forças de trabalho nos próximos cinco anos em razão do avanço da IA. Na contramão, o mesmo estudo apontou que vagas em big data, fintech e inteligência artificial devem dobrar até 2030, indicando uma redistribuição das funções no mercado de trabalho, e não necessariamente o desaparecimento delas.
O que está por trás dos cortes
As demissões de 2026 não têm uma causa única. Três grandes vetores ajudam a explicar o cenário atual.
O primeiro e mais recorrente é a adoção acelerada de inteligência artificial. Listagem da Business Insider aponta que empresas como Coinbase, Cloudflare, Atlassian, WiseTech e Freshworks citaram explicitamente a IA como razão central para dispensar funcionários.
A lógica é direta: ferramentas de IA aumentam a produtividade individual a ponto de reduzir a necessidade de determinadas funções ou diminuir drasticamente o tamanho das equipes.
A Freshworks, por exemplo, afirmou que metade do código da companhia já é produzida por IA, movimento que impacta diretamente a demanda por desenvolvedores humanos.
“A IA está mudando a forma como trabalhamos. Ao longo do último ano, vi engenheiros usarem IA para entregar em dias o que antes levava semanas para uma equipe inteira”, escreveu Brian Armstrong, CEO da Coinbase, em comunicado citado pelo Business Insider. “O ritmo do que é possível com uma equipe pequena e focada mudou drasticamente e está se acelerando a cada dia”.
O segundo motivo é a reestruturação estratégica, em que empresas reorganizam prioridades de negócio, encerram divisões menos rentáveis ou realocam investimentos. É o caso da Meta, que reduziu equipes no Reality Labs, Facebook, recrutamento, vendas e operações globais enquanto amplia investimentos em infraestrutura de IA. A Target também cortou cargos em sua cadeia de suprimentos para reforçar operações presenciais nas lojas.
O terceiro fator é a pressão econômica e o desempenho fraco em determinados segmentos. A Estée Lauder informou que deve aprofundar cortes podendo atingir 10 mil postos de trabalho diante de resultados abaixo do esperado em pontos de venda físicos. A Epic Games, por sua vez, demitiu mais de mil funcionários, cerca de 20% da sua força de trabalho, após queda no engajamento do Fortnite.
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Já a Saks Global entrou com pedido de recuperação judicial em janeiro antes de cortar 16% do quadro corporativo. As demissões ocorreram após o fechamento de dezenas de lojas e centros de distribuição no primeiro trimestre. A Papa Johns anunciou a demissão de 7% de seus funcionários corporativos em meio a uma ampla reestruturação. A rede informou ainda que fechará 300 unidades na América do Norte até 2027, começando com 200 ainda neste ano.
“Otimizar nosso portfólio de restaurantes e fechar estrategicamente restaurantes com baixo desempenho estão entre as ações mais impactantes que podemos tomar para melhorar a lucratividade dos restaurantes e a saúde da nossa frota”, afirmou Ravi Thanawala, diretor financeiro da Papa Johns, durante a teleconferência de resultados do quarto trimestre, segundo o Business Insider.
Tecnologia lidera os cortes
O setor de tecnologia concentra alguns dos maiores volumes de demissões do ano. A Amazon anunciou a eliminação de cerca de 16 mil cargos corporativos globais em janeiro como parte de um esforço para reduzir a burocracia interna. O movimento se somou a outras 14 mil demissões realizadas em outubro de 2025. Neste mês, a empresa voltou a cortar vagas na equipe de Serviços para Parceiros de Vendas.
A Cloudflare anunciou o corte de 20% de sua força de trabalho global, afetando mais de 1.100 pessoas. A companhia afirmou que o uso de IA cresceu mais de 600% em apenas três meses, levando a empresa a revisar sua estrutura operacional. As ações caíram mais de 14% após o anúncio.
A Atlassian, empresa de software empresarial e criadora do Confluence, informou em março o desligamento de 1.600 funcionários, equivalente a 10% do quadro. Segundo o Business Insider, o CEO Mike Cannon-Brookes reconheceu que a IA “muda o conjunto de habilidades necessárias e o número de cargos requeridos em certas áreas”.
A WiseTech adotou um discurso ainda mais direto ao anunciar o corte de 2 mil funcionários, cerca de 30% do total. ‘O fim da era do código manual’ foi como o CEO Zubin Appoo definiu a transformação provocada pela IA, segundo o Business Insider. O executivo afirmou que a tecnologia está desbloqueando ganhos de eficiência antes considerados inalcançáveis para a empresa.
A LinkedIn, controlada pela Microsoft, anunciou neste mês demissões em equipes de negócios globais, marketing, engenharia e produto, citando mudanças estratégicas de longo prazo.
Varejo e finanças também sofrem
No varejo, o Walmart informou neste mês o corte ou realocação de cerca de mil cargos corporativos para eliminar redundâncias operacionais. Já a Nike demitiu aproximadamente 1.400 funcionários em abril, principalmente na área de tecnologia, como parte de um plano interno de reestruturação. Em janeiro, a companhia já havia anunciado outros 775 cortes ligados a operações logísticas no Tennessee e no Mississippi.
No setor financeiro, o Citi continua executando um plano de redução de 10% de sua força de trabalho global — cerca de 20 mil funcionários. O banco estima economia de até US$ 2,5 bilhões.
“Essas mudanças refletem os ajustes que estamos fazendo para garantir que nossos níveis de pessoal, locais e especialização estejam alinhados com as necessidades atuais dos negócios”, afirmou um porta-voz do Citi, segundo o Business Insider.
O Standard Chartered anunciou neste mês que eliminará 15% dos cargos corporativos ao longo dos próximos quatro anos, apontando a IA como principal justificativa. “Não é corte de custos, mas substituição, em alguns casos, de capital humano de menor valor pelo capital financeiro que estamos investindo”, disse o CEO Bill Winters em coletiva, segundo a Reuters e citado pelo Business Insider.
Outros setores em transformação
Empresas ligadas à logística e ao comércio eletrônico também intensificaram cortes.
A UPS anunciou redução de até 30 mil postos operacionais neste ano por meio de programas de demissão voluntária, enquanto a Dell registrou pela terceira vez consecutiva uma queda de 10% no quadro de funcionários, encerrando janeiro com 97 mil colaboradores.
A eBay planeja eliminar 800 vagas, cerca de 6% do seu quadro, para alinhar sua estrutura às prioridades estratégicas da companhia. Já o Pinterest anunciou uma reestruturação global com demissões de até 15% dos funcionários, focada em uma estratégia orientada à IA.
“Estamos fazendo mudanças organizacionais para cumprir ainda mais nossa estratégia voltada para IA, que inclui a contratação de talentos com proficiência em IA”, afirmou um porta-voz da companhia, de acordo com a Business Insider.
Fora do universo digital, a Heineken planeja cortar entre 5 mil e 6 mil cargos nos próximos dois anos diante de um ambiente de consumo mais fraco nas Américas e na Europa. A Kenvue, marca de produtos de saúde para o consumidor e fabricante do Tylenol, pretende reduzir 3,5% de sua força de trabalho para simplificar operações e aumentar eficiência.
A Angi, site de anúncios de empreiteiros, anunciou em janeiro o corte de cerca de 350 vagas para reduzir despesas operacionais e otimizar sua estrutura organizacional, citando as melhorias de eficiência geradas pela IA. A companhia estima economia anual entre US$ 70 milhões e US$ 80 milhões, conforme matéria do Business Insider.
O CEO da Crypto.com, Kris Marszalek, afirmou em março que a empresa demitiu 12% de sua força de trabalho, incluindo “cargos que não se adaptam ao nosso novo mundo”.
A General Motors cortou 600 funcionários assalariados de sua divisão global de TI para reforçar equipes com experiência em IA, engenharia de dados e computação em nuvem. A Oracle, Expedia, GoPro, Lululemon, T-Mobile, Tailwind e Workday também realizaram demissões neste ano.












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